A era da coexistência consciente
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A era da coexistência consciente

A missão da sociedade atual para garantir a nossa sobrevivência

Durante a maior parte do tempo estimado de mais 4 bilhões de anos de existência do nosso planeta, somos apenas uma espécie animal, um elemento a mais na ecologia da Terra. Somente nos últimos poucos milênios os seres humanos desenvolveram conhecimentos sofisticados que possibilitaram mudanças significativas nos sistemas naturais do planeta.


Hoje, com seus muitos aspectos positivos, os impactos negativos da civilização científico-tecnológica podem ser sentidos em escala global. A humanidade agora confronta o desafio de um relacionamento novo e muito diferente com o ambiente natural — uma coexistência consciente. O fracasso nesse sentido pode ameaçar nossa própria sobrevivência.


Uma criação contínua

O budismo afirma que a vida interior dos indivíduos corresponde à vastidão do macrocosmo do mundo dos fenômenos. O mundo interior vibra com a ilimitada energia da benevolência, do amor, da sabedoria, da razão, assim como as emoções, os impulsos e os desejos. A cada instante, essa energia surge de dentro para criar, em interação com o lugar onde habitamos, um novo ser, um novo mundo. Quando nosso microcosmo está em harmonia dinâmica, sua energia criativa é comunicada ao mundo em ondas de alegria, encontrando expressão concreta nas ações marcadas pela razão, sabedoria e benevolência. Em contraste, quando o microcosmo perde o ritmo essencial, sua energia assume aspectos destrutivos, agressivos e dominadores, como cobiça e outros impulsos obscuros. Nessas circunstâncias, a vida interior é uma terra desolada. A desertificação exterior corresponde exatamente à desertificação espiritual do ser humano.


A forma como nos relacionamos com nós mesmos (vida interior) está intimamente ligada à maneira como nos relacionamos com nossos companheiros (vida na sociedade). E isso está inextricavelmente ligado a como nos relacionamos com o mundo natural. Seres humanos cujo ambiente interno é despojado e desolado caem facilmente presas de uma espécie de egocentrismo que inevitavelmente se manifesta em atos de dominação, exploração e destruição nos mundos social e natural.


Mas o inverso é verdadeiro. A natureza íntima e mutuamente interativa da ecologia da Terra, da sociedade e da vida interior dos indivíduos significa que a influência harmonizadora da benevolência e da sabedoria, que brota de dentro de cada um e pode ter um efeito transformador positivo até mesmo nos problemas em escala global. A chave para a transformação é a vontade consciente nas profundezas da vida do indivíduo.


Vida e seu ambiente

Focando inicialmente em nossa vida interior — nosso relacionamento com nós mesmos —, o budismo revela e ilumina a lei de causalidade que governa os processos pelos quais tanto os padrões positivos (criativos) quanto os negativos (destrutivos) são registrados, e as energias potenciais também são armazenadas nas profundezas de nossa vida. Ao mesmo tempo, o budismo objetiva direcionar a luz da sabedoria budista para o exterior e revelar a natureza verdadeira e original de todos os fenômenos gerando possibilidades mais criativas nas sociedades e culturas em geral.


O mundo fenomenal constitui uma grande rede de elementos mutuamente interativos e sobrepostos, entrelaçados por fios da causalidade. Essa rede de relacionamento se estende para o exterior abrangendo os mais distantes limites do universo. Dessa forma, o budismo vê todos os fenômenos do universo — não somente aqueles que são explicitamente vivos do ponto de vista biológico — como partes integrantes da vida humana.


Escrevendo em 1903, Tsunesaburo Makiguchi (1871—1944), presidente fundador da Soka Gakkai, analisou a relação entre as pessoas e a geografia onde habitam. Ele percebeu inicialmente que os seres humanos se engajam tanto em relações físicas quanto espirituais no meio em que vivem e então classificou as interações espirituais em cognitivas, analíticas e utilitárias; e as relações com o mundo natural como estéticas, morais, empáticas, de espírito público e religiosas. Em uma passagem sobre nossas relações empáticas com a natureza, ele escreveu: “A montanha, que até agora se elevava como algo diferente e separado, é reconhecida como parte do mundo, com o ser com o qual existe em relacionamento mútuo. A montanha torna-se um ser com sentidos, e nossas relações com ela refletem isso. O ser torna-se uno com a montanha, partilhando suas tristezas e alegrias e vivenciando seu destino”.


Em nossa história como espécie, os humanos consideram a natureza com intensos sentimentos de espanto diante de sua força e gratidão por seus ilimitados benefícios. O progresso da tecnologia científica, contudo, atenuou esses sentimentos, e consideramos a natureza como algo exterior, um mundo reificado a ser dominado e conquistado em prol da nossa prosperidade material. A visão de Makiguchi de uma ecologia humano-natural é de parceria e coexistência cooperativa dentro da grande força universal da vida.


A missão da humanidade

Ao aceitar a validade das interações práticas ou utilitárias entre os parceiros (nosso “uso” da natureza e o “uso” de nós pela natureza), Makiguchi descreve uma rede multifacetada de interações, afirmando o significado e a importância de cada uma de nossas formas de inter-relacionamento como nosso ambiente. Entre elas, a religião pode fortalecer a capacidade humana de encontrar a natureza com profundos sentimentos de espanto e alegria pelos trabalhos criativos do universo.


O estado do nosso ambiente pode ser compreendido como a sombra lançada pelo “corpo, que é a entidade de vida, ou seja, nós mesmos. Sem o corpo, não há sombra. A entidade de vida e seu ambiente são inseparáveis. Ao mesmo tempo em que reconhece a influência do meio ambiente em nossa vida, o budismo vê os seres humanos como protagonistas de mudanças positivas e nos encoraja a desenvolver uma consciência do planeta como um todo nos inspirando a ter responsabilidade particular de proteger e trabalhar para reunir todas as formas de vida em harmonia. Nossa missão em relação aos outros seres vivos é contribuir para a criação de valor dentro da biosfera da Terra.


De uma perspectiva evolucionista, a autoconsciência da humanidade nos proporciona um lugar especial na evolução física, química e biológica que já está em movimento há 14 bilhões de anos, desde o Big Bang. Os seres humanos são capazes de perceber os ritmos e as leis — especificamente a lei de causa e efeito — que guiam o crescimento e desenvolvimento dos sistemas naturais. Nesse sentido, a missão dos seres humanos é contribuir como participantes conscientes para a evolução criativa do universo.


Quando uma clara percepção dessa sublime missão informar e direcionar todos os nossos esforços nos campos da ciência e tecnologia e em nossos sistemas sociais, políticos e econômicos, descobriremos uma abordagem verdadeiramente humanista — no melhor sentido da palavra — para resolver os muitos problemas e desafios que enfrentamos.

Fonte: Brasil Seikyo, Ed. 2412, 24 mar 2018/Filosofia da Esperança
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