A felicidade na visão budista
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A felicidade na visão budista

No início do livro Desvendando os Mistérios da Vida e da Morte,1 Daisaku Ikeda aborda a relação entre o sofrimento e felicidade sob ponto de vista do Budismo de Nichiren Daishonin.

Todos nós desejamos a felicidade e, ainda assim, a felicidade parece estar sempre fora do nosso alcance. Inúmeros filósofos abordaram a questão da felicidade. Acredito, sem exceção, que suas conclusões foram incompletas. Embora muitos livros sobre “como ser feliz” apareçam, os seres humanos ainda estão, em sua maioria, atormentados pelos mesmos problemas de seus antepassados. Os pobres buscam riqueza, os doentes anseiam ser saudáveis, os que sofrem com conflitos no lar desejam harmonia, e assim por diante. Mesmo que consigamos ter riqueza, saúde e uma família feliz, inevitavelmente nos encontraremos desafiados por problemas em outras áreas. Além disso, ainda que possamos moldar, de alguma forma, as circunstâncias que demonstram satisfazer todas as condições necessárias para a felicidade, por quanto tempo conseguiremos mantê-las? Obviamente, não será para sempre. Poucos de nós evitam as doenças e o lento enfraquecimento do corpo que acompanham o envelhecimento, e nenhum de nós consegue escapar da morte.

Problemas, no entanto, não são em si a causa fundamental da infelicidade. De acordo com o budismo, a verdadeira causa [da infelicidade] não consiste apenas em termos problemas mas, sim, na insuficiência de poder e de sabedoria para resolvê-los. O budismo ensina que todos os indivíduos possuem inerentemente um infinito poder e sabedoria e revela o processo pelo qual essas qualidades são desenvolvidas. Ao abordar a questão da felicidade, o budismo não se concentra na eliminação do sofrimento e das dificuldades, que são inseparáveis da vida, mas no cultivo das potencialidades que existem dentro de nós. Poder e sabedoria, explica o budismo, derivam da energia vital. Se cultivarmos força vital suficiente, conseguiremos não somente resistir às adversidades da vida mas transformá-las em causas da felicidade e do empoderamento.

Se esse é nosso objetivo, no entanto, devemos, primeiro, identificar os principais sofrimentos da vida. O budismo descreve quatro so­frimentos universais: nascimento, envelhecimento, doença e morte. Não importa quanto gostemos de ficar agarrados à nossa juventude, envelhecemos com o passar do tempo. Por mais que tentemos manter a boa saúde, acabaremos por contrair uma doença ou outra. E, mais fundamentalmente, embora odiemos pensar a respei­to da morte, qualquer momento poderá ser o último (apesar de isso estar, naturalmente, além do nosso poder de saber quando esse momento virá).

Podemos reconhecer várias causas — biológicas, fisiológicas e psi­cológicas — para os sofrimentos da doença, do envelhecimento e da morte. Mas, em última análise, é a própria vida, nosso nascimento neste mundo, que é a causa de todos os nossos sofrimentos mundanos.

Em sânscrito, sofrimento é chamado de duhkha, uma palavra que implica um estado carregado de dificuldade em que as pessoas e as coisas estão em desacordo com nossos desejos. Essa condição deriva do fato de que todos os fenômenos são transitórios. Juven­tude e saúde não continuam para sempre, nem nossa própria vida. Nisso, de acordo com o budismo, se encontra a causa final do so­frimento humano.

(...)

O Sutra do Lótus deixa absolutamente claro que dois aspectos da prática budista são indispensáveis se quisermos alcançar a iluminação. Um diz respeito ao nosso próprio aperfeiçoamento, no sentido de que compreendemos a verdade suprema e desenvolvemos nosso potencial inerente, e o outro consiste na prática de conduzir as outras pessoas a essa perfeição.

O Sutra do Lótus também revela os verdadeiros significados do nirvana e da terra pura. De acordo com o Sutra, não precisamos interromper o ciclo de nascimento e morte para entrar no nirvana. Pelo contrário, o nirvana é o estado de iluminação no qual, ao repetirmos o ciclo de nascimento e morte, chegamos a uma compreensão desse ciclo e ele deixa de ser fonte de sofrimento. Da mesma forma, não precisamos abandonar os desejos para alcançar o nirvana, porque transformamos os desejos mundanos em causas da felicidade e, ainda, em sabedoria. Além disso, a terra pura não está necessariamente além da morte. Nós moramos na terra pura, aqui e agora, se acreditarmos no Sutra do Lótus, que ensina como transformar este mundo — tal como ele é, cheio de sofrimento e tristeza — numa terra pura repleta de alegria e esperança.

 

Nota:

1.   IKEDA, Daisaku. Desvendando os Mistérios da Vida e da Morte. Tradução: Mariana Ballestero Sales Vieira Sanches. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 13-18.

 

 

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