A natureza mística da mente
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A natureza mística da mente

Tudo o que existe no universo é uma combinação perfeita e plena dos aspectos físico e espiritual

Um dos significados de myo, de Myoho-renge-kyo, é natureza mística da vida ou da mente.


Todas as funções e manifestações da vida partem da mente. Neste exato instante em que você, caro leitor, lê esta matéria está utilizando algumas dessas magníficas funções.


No escrito Sobre atingir o estado de buda nesta existência, Nichiren Daishonin descreve a natureza insondável da mente humana: “Quando observamos nossa própria mente em qualquer momento, não percebemos cor nem forma para comprovar sua existência. No entanto, não podemos dizer que ela não existe pelo fato de incessantes pensamentos nos ocorrer. A mente não pode ser considerada como algo existente nem inexistente. A vida é, de fato, uma realidade que transcende tanto as palavras como os conceitos de existência e inexistência. Ela não é existência nem inexistência, no entanto mostra características de ambas”.1


Daishonin refere-se, muitas vezes, à mente como sinônimo de “coração”, considerando que os sentimentos se processam na mente. “O que importa é o coração”,2 diz o Buda. Portanto, tudo na vida do indivíduo depende do tipo de pensamento ou sentimento que abriga em sua mente. Essa influência se aplica não só à própria vida, mas também ao ambiente em que ele vive. Sobre esse aspecto, Daishonin afirma: “Se a mente das pessoas é impura, sua terra será igualmente impura. Mas se sua mente é pura, assim será sua terra. Portanto, não há duas terras, pura e impura ao mesmo tempo. A diferença reside unicamente na mente boa ou má das pessoas”.3


É isso também o que afirma os conceitos de unicidade ou inseparabilidade do corpo e da mente (shiki shin funi, em japonês) e de unicidade ou inseparabilidade do ser e seu ambiente (esho funi). Tudo o que existe no universo é, portanto, uma combinação perfeita e plena dos aspectos físico e espiritual.


Segundo a doutrina dos três mil mundos num único momento da vida (ichinen sanzen, a palavra “ichinen” significa, literalmente, “uma mente”, e “sanzen”, o fenômeno que a mente manifesta), do Grande Mestre Tiantai, da China, a determinação expressa pelo pensamento num simples momento pode definir o futuro do indivíduo não só nesta existência, mas em muitas outras. Se o resultado será bom ou mau dependerá da intensidade e profundidade dessa determinação, positiva ou negativa.


As nove consciências e os dez fatores

Um dos estudiosos mais famosos a empregar os métodos da ciência natural para explorar o subconsciente foi Sigmund Freud. Suas contribuições e a de seus colegas à humanidade, na segunda metade do século 19, são inegáveis. Mas, em tempos antigos, estudiosos budistas já mergulhavam nas profundezas da psique humana nas camadas mais profundas da consciência.


Em Escolha a Vida, o autor Daisaku Ikeda comenta a esse respeito: “Dois notáveis pensadores da escola Vijnanavada de filosofia da Índia, Asanga e Vasubandhu (ambos do século 4 da era cristã), adicionaram novos conceitos aos então conhecidos seis sentidos. Os tradicionais seis eram a visão, a audição, o olfato, o paladar, o tato e um sexto sentido que controlava e unificava as funções dos outros cinco.


Os conceitos adicionais propostos por esses grandes pensadores foram a faculdade de raciocinar em pensamentos profundos (manas-vijnana) e uma faculdade de introvisão mais profunda da natureza da vida (alaya-vijnana). O sétimo sentido, a faculdade da razão, envolve especulação profunda. O Eu de Descartes — ‘Eu penso, logo existo’— encarta-se nessa categoria. Os filósofos ocidentais seguiram até esse ponto. Vasubandhu, porém, adiantou-se para descobrir o oitavo sentido, mediante o qual ele pôde ver mais profundamente e sem ilusões a natureza da vida humana. Tiantai da China (século 6 da era cristã), ao ampliar o pensamento de Vasubandhu, postulou um nono sentido (amala-vijnana), que chega à entidade espiritual última, ativadora de todas as demais operações psicológicas”.4


Conforme pode-se observar, o budismo identifica nove funções espirituais de percepção. Os cinco primeiros tipos de consciência são percepções sensoriais obtidas pelos órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Referem-se, portanto, ao que se denomina “cinco sentidos". Da sexta à nona consciência, estão compreendidas as funções perceptivas da mente humana.


A sexta consciência

tem o poder de integrar os cinco sentidos e fazer um julgamento.


A sétima consciência

é denominada consciência mano, em sânscrito, e representa o poder do pensamento. Em vez de fazer julgamentos sobre as coisas percebidas pelos cinco sentidos, procura encontrar ordem e leis dentro delas, à luz de experiências passadas e de circunstâncias externas. A consciência mano é característica exclusiva dos seres humanos, isto é, aqueles que possuem a razão.


A oitava consciência

é chamada alaya (repositório). É o inconsciente revelado por Sigmund Freud por meio de análises dos sonhos. Esse repositório arquiva as impressões recebidas pela mente e, simultaneamente, produz ações mentais. Portanto, todas as ações da vida, que ocorrem sob a lei da causalidade, surgem dos domínios da oitava consciência, o repositório cármico.


A nona consciência

é chamada amala. Embora a oitava abrigue causas boas e más, a nona, que se encontra no nível mais profundo da vida humana, é livre de todas as impurezas que o indivíduo possa trazer como resultado de suas ações e de vidas passadas.


A mais alta condição de vida

O objetivo da prática budista é possibilitar às pessoas manifestarem o imenso potencial da nona consciência, o estado de buda. Quando a natureza de buda predomina, as demais oito consciências são expressas no mesmo nível elevado que a caracteriza. Dessa forma, por pior que seja o carma de uma pessoa, este pode ser transformado, uma vez que é formado por pensamentos, palavras e ações.


Muitos não atribuem ao pensamento tanta importância quanto dão às palavras e às ações na formação do carma. É um grande erro que cometem. Sob o ponto de vista do budismo, não há como “falar ou agir sem pensar”. Portanto, é fundamental que o indivíduo avalie os pensamentos ou as intenções que abrigam em sua mente, ou seja, que observe sua mente.


Em seu escrito O objeto de devoção para a observação da mente, Nichiren Daishonin diz: “Observar a mente significa concentrar a atenção na própria mente e perceber que ela contém os Dez Mundos [mundo do inferno; mundo dos espíritos famintos; mundo dos animais; mundo dos asura; mundo dos seres humanos; mundo dos seres celestiais; mundo dos ouvintes da voz; mundo dos que despertaram para a causa; mundo dos bodisatvas; e mundo dos budas]. Esse é o significado de observar a mente. Por exemplo, embora enxerguemos os seis órgãos dos sentidos nas outras pessoas, não conseguimos ver os nossos próprios. Somente quando olhamos em um espelho limpo é que conseguimos ver, pela primeira vez, que possuímos todos os seis órgãos dos sentidos”.5


Nesta frase, Daishonin esclarece a forma para elevar a condição de vida das pessoas: a recitação do Nam-myoho-renge-kyo ao Gohonzon, o objeto de devoção da prática budista, o espelho da vida humana.


Ou seja, é por meio da prática budista que as pessoas sentem brotar em seu ser a natureza de buda, gerando uma profunda transformação interior. Elas podem, dessa forma, dar plena ação aos seus aspectos físico e espiritual como manifestações da Lei Mística.


Fonte: Terceira Civilização, ed. 467, 1 jul. 2007, p. 14
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Notas:

1. Os Escritos de Nitiren Daishonin [END], vol. 1, p. 4.
2. The Writings of Nichiren Daishonin [WND], vol. 1, p. 1000.
3. END, vol. 1, p. 3.
4. TOYNBEE, Arnold; IKEDA, Daisaku. Escolha a Vida — Um Diálogo sobre o Futuro. Rio de Janeiro: Editora Record, 1976, p. 27.
5. END, vol. 5, p. 168.

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