“Basta matar o desejo de matar”
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“Basta matar o desejo de matar”

Confira como alguns ensinamentos budistas se posicionam com relação à questão do consumo de alimentos de origem animal

Texto com a colaboração do Núcleo de Estudos Filosóficos da BSGI (NEFIR).


Entre aqueles que pouco conhecem o budismo, é comum a ideia de que quem o pratica seja avesso ao consumo de carne. Não é incomum, também, que alguns integrantes da própria BSGI abandonem o hábito do consumo de alimentos de origem animal, buscando alcançar maior purificação da mente e imaginando que a abstinência amplie seu respeito pelos seres vivos.


A expressão “Basta matar o desejo de matar” é atribuída ao buda Shakyamuni, na Índia antiga. E “Matar o desejo de matar” é um dos tópicos da Proposta de Paz 2002, que o presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, encaminhou à ONU (Organização das Nações Unidas), como o faz desde 1983, ininterruptamente.


Naquela proposta, o líder da SGI escreveu:

“A esta questão, gostaria de relembrar um singular episódio da vida do buda Shakyamuni. Certa vez, uma pessoa perguntou-lhe: ‘Foi-nos dito que a vida é preciosa. No entanto, todas as pessoas vivem matando e se alimentando de outros seres vivos. Quais seres podemos matar e quais os que não podemos matar?’ A esta questão, que convida a uma intrincada especulação que poderia ser associada à escolástica medieval, Shakyamuni respondeu: ‘Basta matar o desejo de matar’.


A resposta de Shakyamuni não é evasiva nem enganosa. Nenhuma outra resposta poderia ser tão acurada ou correta no trato dessa questão. A realidade da violência e da matança é extremamente difícil e complexa. É impossível desenhar uma linha uniforme entre o permissível e o não permissível em se tratando da vida. É por essa razão que o autodomínio — a ‘conquista’ do mundo interior para eliminar o ódio e para matar o desejo de matar — tem, no final, mais valor do que tentativas de estabelecer definições inflexíveis de certo e errado. Enquanto a determinação de controlar a si próprio permanecer firme e inabalável, seremos capazes de transcender a confusão e a hesitação, de enfrentar e de fazer escolhas e tomar decisões difíceis que produzirão o bem maior. Creio que esse era o verdadeiro intento de Shakyamuni”.


Podemos perceber no trecho acima a seriedade com que o presidente Ikeda trata da questão de como encarar o círculo vicioso da violência que gera o ódio, em consequência a vingança e, por fim, mais violência.


Os seres vivos exercem importantes papéis na natureza, sejam eles grandes ou pequenos, e podemos observar que a relação entre eles faz parte do que é conhecido como “cadeia alimentar”.


Todos os seres vivos precisam se alimentar; e a maioria se alimenta de outros seres vivos. As plantas são diferentes porque conseguem sobreviver com a energia do Sol e das substâncias do solo, por isso são chamadas de produtoras. Encontramos no meio ambiente animais que só se alimentam de plantas, os consumidores primários, como as zebras.


Seguindo essa cadeia, há animais que se alimentam de outros animais, os consumidores secundários, como o leão que come a zebra. Há também os consumidores terciários e assim por diante, dependendo da cadeia alimentar de cada grupo de espécies que encontramos na natureza. E todos os seres vivos um dia morrem e entram em processo de decomposição feito pelos fungos e pelas bactérias, encerrando o ciclo da cadeia alimentar.


Ao entendermos esse ciclo, percebemos que, se um dos componentes faltar, desequilibrará todo o meio ambiente. Notamos que cada um tem a sua importância no seu meio, ou seja, se não existisse mais nenhuma planta, as zebras morreriam de fome e, se não existisse mais nenhum leão, teríamos muitas zebras no mundo.


Por essa razão, precisamos proteger a natureza como um todo, pois toda nossa vida está interligada e é interdependente, conforme afirmam o conceitos do budismo.


Por que é dada tanta importância somente aos seres humanos em todas as filosofias, colocando o homem acima de todos os seres vivos?


Essa aparente valorização dos seres humanos em detrimento dos animais tem uma justificativa mais abrangente justamente porque nós, humanos, somos animais racionais e, portanto, com a faculdade de pensar e agir para o bem ou para o mal. Os demais animais são movidos pelo instinto, sem a influência da maldade, sendo assim não produzem causas negativas. O homem é o único animal capaz de pensar, logo, pode optar por construir ou destruir.


O presidente da SGI também afirmou: “Assim como Shakyamuni, Gandhi tinha compaixão por aqueles que estavam sofrendo. E compaixão não só com os seres humanos. Ele ficava entristecido com o mal causado aos animais e às plantas, a qualquer ser vivo”.


Cada vez mais frequentes, as denúncias contra os maus-tratos aos animais têm tomado conta dos noticiários, e leis mais rigorosas são criadas para conter as ações de pessoas indiferentes ao sofrimento desses seres considerados “inferiores”.


Por outro lado, assim como os seres vivos formam a interdependência na cadeia alimentar, muitos animais também são úteis nas pesquisas científicas para o combate de doenças e pestes que assolam tanto os seres humanos quanto os próprios animais. Ainda não se chegou a um denominador comum em que a ciência não necessitasse sacrificar animais como cobaias em suas experiências. Tudo é um processo que deve ser bem analisado, avaliado e compreendido para que não se estabeleçam movimentos extremos e desgastantes. Mas, devemos lutar para que um dia nada disso seja necessário e experimentos sintéticos possam substituir a utilização de seres vivos sensíveis.


Necessidades fisiológicas básicas são características dos seres vivos. Dentre elas, citemos apenas algumas: poder, proteção, sobrevivência e continuidade. A necessidade de poder é indispensável, pois sem ela os seres nem se desenvolveriam, assim como a proteção garante a sobrevivência e continuidade. Estas duas últimas correspondem à necessidade da alimentação e da procriação. No entanto, os seres humanos possuem características únicas como as dos venenos da avareza, ira e estupidez, que agem diretamente na mente e interferem na condução do cotidiano. Imaginem o veneno da avareza combinado com a necessidade de poder – a ganância potencializada que gera o desejo por mais riquezas; ou o veneno da estupidez dirigindo a necessidade básica da procriação ou o desejo sexual – para explicar os dramas da pedofilia ou da infidelidade conjugal.


O rumo natural da vida, quando influenciado negativamente pelos venenos, é desviado para a autodestruição. Portanto, o objetivo maior do ser humano somente pode ser atingido quando baseado numa filosofia de “criação de valor”, de construção de uma humanidade justa porque respeita a vida em todas as suas formas de manifestação.


Este é o propósito do budismo: declarar e bradar amplamente sobre a realidade da vida, com base na filosofia do verdadeiro humanismo.


A sabedoria nasce da gratidão. Portanto, antes de assumir algum tipo de culpa por consumir um alimento de origem animal, que tal refletir sobre a existência do ser que o forneceu e lhe oferecer um gesto de gratidão? Não se limitando ao alimento em si, não seria mais justo que olhássemos os animais em geral como nosso complemento e assim os proteger como a nós próprios? Essa compaixão, sentimento dos mais genuínos dos seres humanos, certamente se refletirá na construção e continuidade de um mundo muito melhor para todos.


Fonte: Brasil Seikyo, Edição 2227, 17 maio 2014, p. A3
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