Mudar a nós mesmos pode ser um trabalho árduo
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Mudar a nós mesmos pode ser um trabalho árduo

Os três obstáculos e as quatro maldades

Mudar a nós mesmos pode ser um trabalho árduo. Qualquer um que tenha persistido em uma determinação de Ano-Novo sabe que a decisão de mudar até um simples aspecto do seu comportamento para melhor implica geralmente um esforço e muito empenho. Nossa vida parece possuir uma resistência inata à mudança que seja pelo menos tão forte quanto nosso desejo de melhorar a nós próprios.

No budismo, essa resistência é caracterizada como “obstáculos” e “funções malignas”, que são uma parte natural do funcionamento dinâmico da nossa vida.


A mais profunda transformação positiva que os seres humanos podem realizar é condensada pela ideia de “alcançar a iluminação”. Isso poderia ser descrito como processo de expandir a capacidade de uma pessoa para que ela tenha a benevolência e a preocupação pela felicidade de todas as pessoas como a parte mais importante da vida — um desafio em termos de ação, bem como a intenção e a consciência. As dificuldades que uma pessoa enfrenta ao desafiar suas circunstâncias são descritas no Sutra do Nirvana como “os três obstáculos e as quatro maldades”. A descrição desses obstáculos e maldades inclui fatores como o carma e os obstáculos decorrentes da avareza, ira e estupidez. Mais amplamente, são os vários tipos de dificuldades que acompanham todo o esforço para realizar a transformação.


Em seus escritos, Nichiren Daishonin cita o mestre budista chinês Tiantai, que desenvolveu um sistema de meditação, descrito em sua obra Grande Concentração e Discernimento, para permitir que os praticantes percebessem a verdadeira essência da vida e alcançassem o estado de buda. Tiantai escreveu: “Com o progresso da prática e aumento de conhecimento, os três obstáculos e as quatro maldades surgem de forma confusa, disputando um com o outro... um não deve ser influenciado nem temido pelo outro”.


Para Tiantai, esses obstáculos e essas maldades eram impedimentos internos e distrações resultantes da mente dos praticantes conforme se avançava na prática budista. Para Nichiren Daishonin, cuja vida adulta foi uma sucessão contínua de perseguições e confrontos com as estruturas de repressão social do seu tempo, esses obstáculos se manifestaram concretamente na oposição real que ele e seus discípulos enfrentaram em virtude de suas crenças.


Se aparecem externa ou internamente, tais obstáculos advêm da mesma fonte, que no budismo é chamada “escuridão fundamental”. Esta é uma ignorância fundamental da verdadeira natureza iluminada da nossa vida, e é fonte de toda a ilusão e miséria na vida dos seres humanos. Ela pode se manifestar como falta de clareza, por meio de impulsos destrutivos em nós mesmos ou nos outros, ou como uma força traiçoeira para sentimentos como complacência, desânimo, tentação ou intimidação.


Daishonin, no entanto, tem uma opinião positiva sobre os obstáculos e as maldades, dizendo que, quando eles aparecem “o sábio se alegrará enquanto o tolo se acovardará” [WND, v. I, p. 637]. Isso ocorre exatamente pelo fato de confrontarmos e triunfarmos sobre todas as funções negativas. A coragem serve para enfrentarmos essas influências e não sermos derrotados por elas.


“Não há caminho fácil para a realização do bem”, explica o presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, em sua Proposta de Paz 2010. “Não temos escolha a não ser nos firmar na realidade e assumir desafios difíceis nos empenhando em busca do nosso autoaprimoramento”. Nesse processo de superação de obstáculos e funções malignas, tornamo-nos protagonistas de uma história da vitória interior fortalecida nas profundezas da nossa vida. Esse é o objetivo da prática budista.

Fonte: Brasil Seikyo, Ed. 2387, 16 set 2017/Filosofia da Esperança

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