O poder de mulheres unidas pode transformar o mundo
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O poder de mulheres unidas pode transformar o mundo

Ao se isolar o sofrimento apenas fica maior e a esperança desaparece.

As dificuldades são uma prova de vida; o sofrimento é o solo onde cresce uma genuína alegria. Essa verdade foi demonstrada por Natalia Sats, considerada a mãe do movimento de arte infantil da Rússia. Ela tinha a inocência de uma jovem e a sinceridade de sua fala e o brilho do seu sorriso revigoravam a todos. Encontramo-nos por sete vezes, e em todas as ocasiões descobria que estava mais jovem e calorosa que antes. Ela era uma pessoa de grande simplicidade e honestidade. Essa era sua maior força.


A Sra. Sats, que faleceu em 1993, aos 90 anos, fundou vinte teatros infantis, organizando apresentações de crianças em todo o mundo apesar de enfrentar adversidades. Creio que ela foi capaz de sobreviver a todas as dificuldades devido ao amor pela arte, pelos seres humanos, por sua família e por si mesma.


Natalia Sats estava com 14 anos quando ocorreu a Revolução Russa e seu país renasceu como a União Soviética. Seu pai, violonista, compositor e maestro apaixonado pelas artes, sentia gosto em ajudar as pessoas. Ele faleceu quando Natalia tinha apenas 8 anos. Após a morte dele, ela foi encorajada por um dos amigos artista dele, que lhe pediu ajuda para ensaiar uma música composta por ele para um desfile. A Sra. Sats se lembrava da melodia melhor que ele, o qual brincava dizendo precisar dela como assistente.


Quando irrompeu a revolução, sua cidade foi destruída e as escolas fechadas. Os tempos eram realmente caóticos. Natalia aprendera muito mais com suas visitas ao teatro quando era criança do que na escola, e percebeu que as crianças, mais do que nunca, precisavam de arte.


Aos 15 anos, começou a agir. Empregou-se no Teatro Municipal de Moscou e em uma agência musical, onde foi incumbida de desenvolver um teatro para crianças. Completamente sozinha, jurou que, já que um teatro infantil era um espaço vazio no mapa das artes, ela, com suas próprias mãos, preencheria aquele mapa de forma brilhante.


A primeira apresentação que organizou, o show de marionetes David, foi feita em junho de 1918 e as 350 crianças que participaram gritavam de empolgação. Natalia percebeu como as crianças ganhavam esperança, alegria e força com essa experiência mágica, e elas retornavam repetidas vezes, trazendo seus amigos, irmãos e irmãs. Como Natalia era muito jovem, as pessoas zombavam de suas ideias. Mas começou a falar com uma de cada vez, fazendo aumentar o número de pessoas que a compreendiam e simpatizavam com ela.


Um desses amigos era o compositor russo do século 20 Sergei Prokofiev. Em resposta a essa amizade, ele compôs a obra Pedro e o Lobo e dedicou a Natalia.


O Teatro Estatal Infantil de Moscou, que Natalia fundou, era muito pequeno no início. Mas com sua perseverança, em 1936, foi construído o Teatro Infantil Central. Porém, isso não era nem o início e muito menos o fim de suas dificuldades e problemas.


No ano seguinte, Natalia e seu marido foram acusados de serem traidores da nação durante um dos expurgos de Stalin. Seu marido foi preso e, posteriormente, executado. Sem saber do destino dele, ela própria foi banida para a Sibéria. O choque foi tão grande que seus cabelos castanhos perderam toda a cor da noite para o dia. Ela ficou em um campo para prisioneiros políticos durante cinco anos. Sua liberdade foi extremamente limitada por dezoito anos.


Entretanto, superando todas essas adversidades, Natalia continuou a perseguir o juramento que havia feito quando tinha 14 anos. Ultrapassando tudo, ela jamais se esqueceu da importância da perseverança, paciência e continuidade.


Finalmente ela venceu. Completou seu brilhante mapa dos teatros infantis no mapa-múndi das artes e deixou sua marca na história.

Em sua autobiografia, Natalia se lembra de suas experiências na Sibéria. Nos interrogatórios prometeram-lhe que seria libertada e que retornaria para casa se fizesse declarações falsas incriminando seus amigos. Natalia disse: “Lamento, mas fui ensinada desde criança a respeitar a verdade. Por isso, jamais compraria a felicidade de meus entes queridos com uma mentira”. Ela manteve com orgulho sua dignidade como ser humano e viveu uma existência corajosa e nobre.


Havia muitas outras mulheres inocentes presas na cela onde Natalia estava, todas estarrecidas de medo e tristeza. Embora estivesse em uma situação difícil, Natalia não se retraiu em sua própria tristeza. Começou a pensar em como poderia elevar o ânimo de suas companheiras de cela em desespero. Pensando nas outras, o sol da esperança começou a surgir novamente em seu coração.


Natalia também escreveu em sua autobiografia: “Deveria ajudá-las e a mim mesma a sobreviver. Tinha de mudar meu modo de pensar, tentar acreditar que aquela realidade não era o fim...”. Sua determinação era que, não importando como as circunstâncias fossem miseráveis, sua vida não estava acabada e ela deveria lutar até o fim.


Quando Natalia olhou ao redor, percebeu que suas companheiras tinham muitos talentos. Decidiu fazer uso das habilidades daquelas mulheres organizando uma escola — uma sala de aula na cela onde elas poderiam partilhar todo o conhecimento que possuíam. Uma poderia ensinar química, outra medicina. Natalia, com sua rica experiência teatral, poderia cantar para elas.


A cela era quieta e isolada — um local perfeito para estudar! Também servia como um teatro onde elas poderiam desfrutar as artes. Criaram até um coral que chegou a visitar outros campos de trabalho e divertir os prisioneiros. Mesmo em meio a uma situação desesperada, a arte as fez reviver — a irreprimível energia da vida possibilitou que transcendessem o sofrimento e chegassem finalmente à felicidade.


A cela de Natalia era pequena, mas uma grande história foi criada. Ela e suas companheiras decidiram que era errado as pessoas sofrerem sozinhas. Na solidão, o sofrimento apenas fica maior e a esperança desaparece.


Creio que Natalia Sats demonstrou o triunfo da vontade humana sobre o que parece ser um destino cruel e árduo. Certa vez, ela se lembrou de que a visão budista da vida eterna que aprendera comigo havia lhe dado esperanças ilimitadas: “Em meu caso, nada vem facilmente”, disse. “Há sempre problemas, mas eu realmente saboreio o desafio de enfrentá-los. Minha vida tem sido como uma peça shakespeariana em que o humor se encontra em meio à tragédia. Nas épocas mais difíceis, dou uma piscada para mim mesma e digo: ‘Você está com um pequeno problema, não é?’ É como se houvesse dois eus, um deles em um palco. Não importa que dificuldades o meu eu encontre no palco, meu outro eu observa minha brilhante apresentação com um sorriso de satisfação, parecido com o do produtor da peça. À medida que mantenho essa postura, meu eu no palco percebe imediatamente que a vida é sinônimo de ação.”

Natalia Sats demonstrou de forma tão bela que a força de caráter está em representar o drama da vida com coragem, convicção e alegria.


Fonte: Brasil Seikyo, Ed. 2411, 17 mar 2018/Filosofia da Esperança
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