Tesouro interior
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Tesouro interior

"A jóia escondida no manto"

De minha própria experiência, estou convencido de que poucas coisas são tão cruciais para o crescimento saudável das crianças do que encontrar alguém que verdadeiramente acredite nelas. Estudos sugerem que os jovens que agem com violência frequentemente sofrem com o sentimento de que ninguém se interessa ou se importa com eles. O comportamento problemático das crianças é uma dura reflexão sobre o egoísmo e a apatia da sociedade adulta.


No Sutra do Lótus consta a seguinte parábola:


Certa vez um hospedeiro recebeu a visita de um amigo de longa data. O visitante, que era um andarilho dos mais viajados, olhou com carinho seu hospedeiro. Os dois eram amigos muito íntimos, mas o tempo, o trabalho e outros assuntos mundanos aos poucos os havia separado.


Enfim a distância terminou e os dois felizes companheiros celebraram o reencontro com uma refeição suntuosa e muito vinho. Passaram o dia em alegria, mas, agora que a noite chegara, o visitante estava tão embriagado pelo vinho que a única coisa a fazer era fechar os olhos e dormir profundamente.


Enquanto o visitante descansava pesadamente, o hospedeiro teve de atender um importante e inadiável chamado. Não havia maneira de recusar e, embora triste por ter de abandonar o amigo, decidiu partir imediatamente para a missão. Antes, porém, preocupado com o bem-estar do seu amigo, escolheu sua joia mais preciosa e costurou-a sob o manto do amigo.


Pensou: “Quando ele acordar pela manhã, certamente ainda estará bem sonolento. Verá que eu tive de partir e ficará desapontado. Porém, quando vir esta preciosa joia compreenderá que, a despeito da minha rude e apressada partida, eu o amo profundamente e lhe desejo o melhor. Colocando a joia sob sua roupa, ele a levará sem falha. Se a colocar em outro lugar, talvez ele não a perceba ou a esqueça”.


Pela manhã, o visitante, ainda “grogue”, olhou em volta e ficou desapontado por não ver o amigo. Com pesar, vestiu a roupa e foi seguindo seu caminho sem perceber a joia escondida em seu manto. Por muito tempo vagou percorrendo estradas arenosas e inúmeros países numa constante luta pela sobrevivência. Trabalhou duramente sem a mínima ideia da riqueza que levava consigo.


Um dia os dois amigos se encontraram novamente. O hospedeiro ficou chocado com a aparência do amigo e perguntou-lhe com compaixão:


“Por que você se tornou tão pobre e miserável? Quando me visitou, costurei a mais preciosa das joias nas dobras de sua roupa, de modo que pudesse viver uma vida digna. E mesmo assim tem levado esta vida miserável? Deve usar imediatamente essa joia e mudar sua condição de vida. Então terá tudo que almeja”.


Pela primeira vez o visitante compreendeu o grande tesouro que seu amigo lhe havia dado. Seu ser se iluminou de alegria e lágrimas deslizaram pela sua face. (RDez, ed. 167, nov. 2015, p. 22-23)


Cada jovem possui uma joia preciosa de infinito valor em seu interior. Permanecer inconsciente disso e cair na pobreza espiritual é um trágico desperdício. Em contraste, uma pessoa plenamente que desperta para a joia da dignidade da própria vida é capaz de respeitar verdadeiramente o tesouro dos outros.

Todos nós temos possibilidades, tanto em nossa família como na comunidade, de interagir com os jovens. Espero que os adultos façam esforços para ouvir atentamente a voz deles. Esses pequenos cuidados podem revigorar e fortalecer um coração jovem. Cada um de nós deve se empenhar para ser uma fonte consciente de calor humano e nutrição espiritual.


Embora isso pareça trabalhoso e requeira tempo, estou convencido de que esses esforços — a ressonância e a confiança que aparecem entre uma vida e outra — fazem surgir pessoas profundamente sensíveis aos sofrimentos dos outros e capazes de uma ação empática em prol deles. Esse é o primeiro passo rumo à construção de seres humanos de valor que apoiarão uma sociedade genuinamente saudável. São as sementes da esperança que podemos plantar hoje.


Fonte: Brasil Seikyo, Ed. 2399, 09 dez 2017/Filosofia da Esperança


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