Uma declaração da igualdade entre os sexos
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Uma declaração da igualdade entre os sexos

Texto extraído do livro A sabedoria do sutra de lótus - um diálogo sobre a religião no século XXI realizado entre o presidente da SGI, Daisaku Ikeda e o coordenador do Departamento de Estudo da Soka Gakkai, Katsuji Saito, e os vice-coordenadores Takanori Endo e Haruo Suda.


Saito: Com relação à descrição de como a filha do rei-dragão.1 “no período de um instante transformou-se num homem”, alguns sugeriram que se ela teve de assumir a forma de um homem para atingir a iluminação. Até então o Sutra do Lótus ainda apresentava uma visão discriminatória com relação às mulheres.

Pres. Ikeda: Essa é uma interpretação incorreta. A iluminação da filha do rei-dragão indica o princípio de atingir o estado de buda na forma atual. Os senhores devem se lembrar que ela já havia se tornado um buda em sua forma feminina.

A transformação da filha do rei-dragão num homem nada mais é do que um meio que ela empregou para comprovar sua iluminação a Sharihotsu (discípulo assíduo de Shakyamuni) e a outros que ainda não estavam convencidos de que as mulheres podiam atingir o estado de buda.

E, por falar em mulheres transformando-se em homens, descobrimos relatos similares em muitos sutras Mahayana além do Sutra do Lótus. À luz da verdade da não-substancialidade (kuu, em japonês) , fixar-se nas diferenças superficiais entre homens e mulheres é sem sentido e desnecessário do ponto de vista doutrinal. Entretanto, Shakyamuni deve ter previsto que, naquela época, haveria grande resistência à ideia de que as mulheres pudessem se tornar budas em suas formas presentes.


Pres. Ikeda: Fundamentalmente, o budismo vê todos os seres vivos como manifestações individuais de uma única e grandiosa vida dourada. Esta é a verdade para a qual Shakyamuni tornou-se iluminado. Em essência, é a Lei Mística. Desse ponto de vista iluminado, seria ridículo afirmar que um sexo é superior ao outro.

Entretanto, para fazer com que a Lei se propagasse e criasse raízes na sociedade, o Buda teve de ponderar sobre como explicá-la em termos que as pessoas pudessem aceitar.

O problema, é que quando as explanações são moldadas pelos desvios da sociedade dessa forma, há o perigo que mesmo as pessoas de fé sincera fiquem ligadas a esses desvios, levando a uma interpretação distorcida do ensinamento.


Suda: A discriminação contra as mulheres vai diretamente contra o espírito de Shakyamuni. A sociedade indiana na época de Shakyamuni depreciava ao extremo as mulheres. As escrituras brâmanes fervilhavam também de abusos e calúnias contra as mulheres.

Mas, o Buda não discriminava ao mínimo as mulheres.

Pres. Ikeda: Como Shakyamuni não fazia discriminações entre pessoas em reclusão e as leigas, ele também ensinava às leigas o caminho para a felicidade. Seja homem ou mulher, ser nobre ou vil depende unicamente do que a pessoa tem feito. São as ações e a sinceridade de uma pessoa que importam. Este é o espírito de Shakyamuni.

Saito: Os primeiros textos budistas atribuem várias declarações negativas em relação às mulheres feitas por Shakyamuni. Mas acredita-se que elas sejam, em vez disso, advertências para ajudar os praticantes homens a evitarem serem insensatos.

Pres. Ikeda: No mínimo, podemos dizer que há alguma incerteza sobre como os primeiros textos budistas representavam o que realmente estava no coração de Sakyamuni. De qualquer forma, é um fato que Shakyamuni permitiu que as mulheres fizessem votos clericais e que conduzissem uma prática rigorosa. A premissa principal de se conduzir uma prática budista naturalmente é que se pode atingir a iluminação. Se isso não fosse possível, ele certamente não teria admitido mulheres praticantes. Podemos sentir nisso o senso igualitário de Shakyamuni.


Pres. Ikeda: Nichiren Daishonin diz: “Não é permitido que as mulheres atinjam a iluminação, exceto neste sutra” – em referência ao Sutra do Lótus.

Suda: No Budismo de Nichiren Daishonin existe a completa igualdade dos sexos. Em uma famosa passagem Daishonin diz: “Não deve haver discriminação entre as (pessoas) que propagam os cinco caracteres do Sutra do Lótus durante os Últimos Dias da Lei". Ele também diz: “Uma mulher que abraça este sutra não excede apenas todas as outras mulheres mas também ultrapassa todos os homens".

Saito: Nichiren Daishonin concedeu a algumas mulheres títulos honoríficos de “sábias” e “santas”. Isso evidencia ainda mais a liberalidade de Daishonin.

Pres. Ikeda: As ações de Daishonin neste sentido manifestam-se como uma exceção na sociedade japonesa e no mundo budista de sua época. Provavelmente nenhuma outra figura budista da época louvou e respeitou as mulheres tanto quanto Daishonin. Ele perguntava: “Não são todos os praticantes do Sutra do Lótus, tanto homens quanto mulheres, budas?”. Nisso podemos perceber sua grandiosidade.



Nota:

1. A filha do rei-dragão é descrita na última metade do 12º capítulo do Sutra de Lótus, “Devadatta”. Ela é a filha de oito anos de Sagara, um dos oito grandes reis-dragões que vivem num palácio no fundo do mar. A menina realizou o desejo de atingir a iluminação depois de ouvir o Bodisatva Manjushri pregar o Sutra do Lótus. Então, apresenta-se diante a assembléia do Sutra do Lótus mantendo sua forma física. Para ler a parabola dela clique aqui


Fonte: BS, ed. 1.432, 4 out. 1997, p. A4

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