A chave para a mudança climática
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A chave para a mudança climática

Apresentamos o diálogo do Dr. Daisaku Ikeda com a Dra. Hazel Henderson, jornalista e consultora de desenvolvimento sustentável. É abordado sobre a formação e a legitimação da Carta da Terra e dos fóruns mundiais para preservação ambiental e também a paixão que os jovens possuem ao ler bons livros e contribuir para um mundo melhor.  Deste diálogo, foi publicado o livro “Cidadania Planetária”, onde os autores falam a respeito de suas origens e sobre o que os levou ao ativismo numa escala global. Ao mesmo tempo, proporcionam encorajamento e informações concretas aos milhões de cidadãos que também querem fazer a diferença. O diálogo foi realizado em outubro de 2000, Tóquio.


Ikeda: A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável foi realizada em Johannesburgo, na África do Sul, de 26 de agosto a 4 de setembro de 2002, uma década depois da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, que lançou os processos de esboço e ratificação da Carta da Terra como um guia para o novo século do meio ambiente. As pessoas têm grandes esperanças nisso.

Henderson: Participei da Conferência no Rio de Janeiro e também no lançamento oficial da Carta da Terra no Palácio da Paz em Haia, na Holanda, em 2000. Participei depois da Conferência “Diálogos da Terra” em Lyon, na França, em 2002, e tornei-me recentemente conselheira da Ação de Parceria da Carta da Terra. A Carta da Terra é de alta prioridade para mim. Esse documento único contém os modelos para a ação cooperativa no sentido de deter e reverter a destruição ambiental, preservar e restaurar os sistemas ecológicos e todos os outros tipos de problema que o mundo enfrenta. Além disso, incorpora os critérios de valores positivos compartilhados pela humanidade atualmente. É por isso que a Carta deve ser conhecida em todos os cantos da Terra.

Ikeda: A senhora se empenhou durante anos no movimento para a criação da Carta da Terra.

Henderson: Os conceitos da Carta da Terra foram desenvolvidos e debatidos em Estocolmo no ano de 1972, na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano. É claro que ainda não tínhamos essa maravilhosa articulação que se desenvolveria nos vinte e cinco anos seguintes. Maurice Strong e eu, secretário-geral da Conferência, éramos membros de um grupo chamado Lindisfarne Fellows, fundado pelo filósofo William Irwin Thompson. Nós adotamos ideias sobre a totalidade da família humana e a unicidade de todos os fenômenos.

Ikeda: Com sua declaração oficial sobre o meio ambiente humano, a Conferência de Estocolmo revelou quais seriam os passos que a sociedade internacional deveria dar para lidar com as questões ambientais numa escala global. Seguiram-se várias outras declarações e outros tratados; por exemplo, a Carta Mundial para a Natureza, de 1982, e a Declaração do Rio, de 1992. Com base nesses documentos, a Carta da Terra empenha-se por uma ética ambiental mais universal e pela consciência da humanidade. A adoção da Carta foi discutida na Cúpula da Terra em 1992.

Henderson: Sim, e naquela ocasião, na Conferência de Estocolmo, participei como jornalista. Maurice Strong também foi secretário-geral no Rio. Recordo-me de como o decepcionou o fato de o conflito das nações industrializadas com as que estão em desenvolvimento ter impedido a adoção da Carta da Terra. Mas pode ter sido bom que a primeira tentativa não tenha dado certo, o que permitiu deixar a Carta livre do mecanismo das nações-Estados. Na verdade, foi providencial não ter sido adotada, pois desse modo centenas de grupos formados por pessoas comuns do mundo todo puderam envolver-se diretamente no processo, formação e legitimação da Carta.

Ikeda: Posteriormente, o Sr. Strong trabalhou com Mikhail Gorbachev na redação de uma carta da Terra. Ambos lideraram a comissão da Carta da Terra, apresentada no ano de 1995. Sei que Ruud Lubbers, hoje (em 2000) Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, foi quem colocou Strong e Gorbachev em contato.

Henderson: Sim, eles são campeões de grande paixão e convicção. Encontrei-me pela primeira vez com Gorbachev em Moscou no ano de 1990. Fiquei emocionada ao saber depois que ambos participavam do projeto da Carta da Terra.

Ikeda: Quando conversei com o Sr. Gorbachev sobre a Carta, ele disse, demonstrando sinceridade no olhar: “Os problemas ambientais são uma área na qual devemos, todos, empenharmo-nos juntos a partir de agora. Devemos promover a adoção da Carta da Terra para protegermos o mundo”. O diálogo que tivemos sobre a educação ambiental levou-nos a falar dos netos dele. Ele e a esposa, Raissa, pareciam muito felizes. Infelizmente, ela faleceu em 1999. Mas o apoio que deu ao marido em seus esforços para desbravar um novo século dedicado à paz e ao meio ambiente permanecerá eternamente.

Henderson: O trabalho de um poeta como o senhor é importante. A poesia e todos os outros escritos apenas assumem seu verdadeiro significado quando ecoam na mente do escritor e do leitor. Fui influenciada por muitos livros. Os livros são realmente maravilhosos, especialmente quando o leitor é próximo do autor.

Ikeda: A leitura implica tanto uma cuidadosa autorreflexão como também um diálogo com o autor do livro.

Henderson: Sim. Não há nada que seja mais interativo que um livro. E se o senhor verificar os livros de minha biblioteca, verá que em todos coloquei perguntas ou sublinhei trechos. Nas primeiras páginas dos livros, faço uma lista dos pontos principais. Um livro é uma forma muito ativa de desenvolver ideias e filosofia. Muitos programas de televisão, ao contrário, são muito passivos. A internet me faz sentir como se eu estivesse obtendo informações de uma mangueira de incêndio! Há tanta informação! Mas com um livro isso pode ser feito ao seu próprio ritmo, pois podemos pegá-lo e colocá-lo de volta. Ele se torna um amigo.

Ikeda: Sempre digo aos jovens que ler os grandes clássicos quando são ainda bem novos tem um importante papel em seu desenvolvimento espiritual.Destaquei ainda a importância da leitura pelas seguintes razões:

1. As experiências adquiridas com a leitura  são de certa forma miniaturas das experiências reais de vida;
2. A leitura cumulativa serve de barreira para proteger os espíritos jovens da influência potencialmente destruidora da realidade;
3. A leitura proporciona uma excelente oportunidade para os jovens e para os mais idosos de pensar com profundidade nas questões mais importantes da vida sem serem engolidos pelos assuntos do dia a dia.Mencionei também a importância de os pais e os professores lerem em voz alta para as crianças. A Soka Gakkai está atualmente promovendo uma campanha entre as mães de crianças pequenas para incentivá-las a ler em voz alta para elas durante dez minutos por dia.

Henderson: Sim, as crianças devem se acostumar a ler desde a tenra idade. A influência de minha mãe fez que eu amasse os livros. O momento da leitura era o mais caloroso, agradável e maravilhoso de todos, pois era quando ela nos colocava no colo. Continuei essa tradição com minha filha, que adora ler. Creio que ler é o melhor auto aprimoramento que existe.

Ikeda: Estou comovido com suas palavras. Certamente, o entusiasmo de uma mãe é vital. Nós nos encontramos por toda a vida com pessoas que nos afetam de forma significativa. Meu encontro com Josei Toda determinou meu destino. A educação que recebi dele fez de mim o que sou hoje. O Sr. Toda era não apenas um excelente educador, como também um filósofo fora de série e um ativista em questões de fé. Seus pensamentos e suas ações formam hoje a base do movimento em prol da paz empreendido pela Soka Gakkai Internacional. A visão perspicaz de sua “Declaração pela Abolição das Armas Nucleares” e sua defesa da cidadania planetária estão agora conquistando a firme atenção que merecem.
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Dois ativistas globais de renome exploram a ascensão dos “globalistas populares” — cidadãos de todas as partes do mundo que estão assumindo a responsabilidade pela construção de um futuro mais pacífico, harmonioso e sustentável. Os autores falam também a respeito de suas origens e sobre o que os levou ao ativismo numa escala mundial. Ao mesmo tempo, proporcionam encorajamento e informações concretas aos milhões de cidadãos que também querem fazer a diferença
Eles exploram uma ampla variedade de questões que estão atualmente conquistando um maior reconhecimento em todos os níveis da sociedade, incluindo o desenvolvimento sustentável, a justiça econômica, o respeito pelos povos indígenas e por suas terras e recursos tradicionais, a democratização da política e das instituições internacionais, a responsabilidade das corporações e a conservação da biodiversidade, da água, da qualidade do ar e do clima da Terra.

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