A cultura é uma força espiritual
  • ARTIGOS

A cultura é uma força espiritual

Quando a cultura floresce, as pessoas e a sociedade também florescem

Discurso informal publicado no jornal Seikyo Shimbun. .


A cultura é um espelho que reflete a sociedade, e ao mesmo a transforma. O declínio de uma cultura significa o declínio de uma sociedade e de seus indivíduos. Da mesma forma, quando a cultura floresce, as pessoas e a sociedade também florescem. É por isso que estou tentando promover a cultura em todo o mundo.


Se as pessoas são espiritualmente vazias, a cultura nada mais é do que um embelezamento, um entretenimento vazio. Pensem em Auschwitz, o campo de extermínio construído pelos nazistas. Os militares de Auschwitz cometeram diariamente terríveis atrocidades, embora dissessem gostar de Bach e Mozart e ler Goethe.


A imagem de uma pessoa apertando o botão das câmaras de gás enquanto ouve Mozart — certamente esse cenário de pesadelo é um símbolo de como este século está doentio. Enquanto ignorarmos esse problema, discussões mais animadas sobre arte e cultura são insignificantes.


Construindo uma identidade forte

O fascismo japonês também não foi produto apenas dos militares, sem qualquer relação com a cultura. Os líderes culturais e a elite educada da época estavam profundamente envolvidas na ascensão do fascismo. Naturalmente, esta é uma questão complicada que não pode ser discutida de uma forma unidimensional. Um aspecto, porém, está claro: aqueles que se permitiram ser levados pelo fluxo dos tempos não tinham um senso correto de sua própria identidade. Em consequência, comportavam-se como camaleões, mudando rapidamente sua coloração ideológica para igualarem-se ao seu ambiente.


A adorável personagem Colas Breugnon, criada pelo romancista francês Romain Rolland (1866-1944) na obra de mesmo nome, vangloria-se de suas “possessões”. Ele declara: “A primeira e a melhor das minhas possessões sou eu próprio. Colas Breugnon, um bom borgonhês sincero e honesto, com um colete bem acabado.”1 Por mais generosos que possamos ser, não poderíamos descrever Colas Breugnon como uma pessoa educada ou culta. Ele é um homem alegre que gosta de beber. Não ouve Bach nem lê Goethe. Mas tem uma identidade forte e confiante. Essa sadia consciência do próprio eu está em perfeito contraste com os intelectuais doentios e personalidades culturais que estão em abundância nos nossos tempos.


Os princípios dignificam a luta por algo: a marca de uma verdadeira filosofia

Aqueles que não têm uma forte identidade não têm quaisquer princípios pelos quais se sintam compelidos a abraçar, mesmo com o risco da própria vida. A definição do Sr. Toda de filosofia é muito bem conhecida. Ele disse:

A filosofia não é algo complicado e difícil de compreender, como Descartes ou Kant. Apesar de algumas pessoas dizerem que não sabem o mínimo de filosofia por não terem cursado uma universidade, filosofar de fato significa apenas pensar.


Um dos mais simples exemplos de filosofia pode ser encontrado no diário de viagem de Mitsukuni Tokugawa (1628-1700), popularmente conhecido como Komon Mito,2 o segundo lorde do feudo Mito do Japão. Quando viajava pelo campo, Mitsukuni pediu um pouco de água a uma senhora idosa, e sentou-se para descansar sobre um saco de arroz. Não reconhecendo seu lorde, ela gritou irada com ele: “Esse arroz é para o Lorde Mito!” Mitsukuni desculpou-se rapidamente. Esse incidente pode ser engraçado, mas oferecer ao seu lorde o arroz que ela mesma havia cultivado era a filosofia daquela senhora. Por quê? Porque era um princípio que ela não violaria, não importasse o quê. É isso o que significa filosofia.


A filosofia e a cultura não são meros adornos; elas são meios de vida. Não são ornamentos que colocamos apenas para mostrar aos outros, mas sim devemos interiorizá-las e torná-las uma parte vívida e estimulante de nós próprios.


No Ocidente, o significado fundamental de “cultura” é “cultivar”. Cultivando a terra em seu estado natural e agreste, e trabalhando nela, contribuímos para uma rica colheita dos frutos da terra. Isso é cultura no sentido agrícola. Da mesma forma, o espírito humano em seu estado natural também é selvagem. Cultivando-o, polindo-o, e trabalhando-o, podemos colher os frutos do valor. É essa a função da cultura. E desde a época de Sócrates, a filosofia também era descrita como o cultivo do espírito humano.


Palavras calorosas e inexistência de beleza em uma sociedade que idolatra o dinheiro

A razão pela qual a humanidade das pessoas foi oprimida no passado pelo militarismo e pelo autoritarismo foi que, devido a todas as suas discussões pretensiosas sobre cultura, elas careciam de filosofia pessoal, de uma consciência do próprio eu, e de identidade espiritual. Hoje em dia, por essa mesma razão, poderíamos talvez dizer que a humanidade das pessoas está sendo destruída pela adoração ao dinheiro e ao poder da autoridade.


Em seu romance O Navio Branco, Tchingiz Aitmatov, o famoso escritor quirguiz e meu amigo pessoal, conta a história de um menino de sua terra natal. O avô do menino lhe diz: “Ah!, meu filho, onde há dinheiro não há lugar para palavras calorosas nem para a beleza.”3 Palavras calorosas e beleza — isso, com certeza, é cultura. O avô continua: “Ah!, meu filho, é realmente perigoso quando as pessoas orgulham-se não pela sua sabedoria, mas sim pela sua riqueza!”4 Se assim é, então o Japão tornou-se uma das sociedades mais perigosas.


“Não serei derrotado! Eu desfrutarei a vida”

O artista espanhol Joan Miró (1893-1983) sobreviveu e continuou a trabalhar durante toda a ditadura totalitária da Espanha. Ele se empenhou para propagar o otimismo mesmo em meio à opressão. Suas pinturas naturais e otimistas representam seu triunfo nesse empreendimento desafiador.


Quaisquer que fossem as dificuldades que enfrentava, Miró continuava a pintar, e declarava rindo que se não fosse alegre, que utilidade teria a vida? Seu desejo era que todos os que vissem sua obra vivessem com alegria. Foi essa a forma como resistiu à opressão.


Se formos seres humanos realmente vívidos e realistas, devemos lutar contra a opressão. A cultura brilha vibrantemente com essa resistência espiritual à opressão. Essa resistência também abarca uma luta contra o poder da riqueza e da corrupção, e contra a morte e o destino.


Há um ditado que diz que um ser humano é algo vivo que trabalha para tornar-se humano. E esse é exatamente o significado de cultura — trabalhar para tornar-se humano. O nobre movimento da SGI objetiva fortalecer esse poder da cultura e através disso unir toda a humanidade.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 1.309, 25 fev. 1995, p. 4
TAGS:ARTIGOS

Notas:

1. Colas Breugnon, Romain Rolland. Katherine Miller, trad. Nova York, Henry Holt and Company, 1919, p. 5.
2. Diz a lenda que em seus últimos anos Komon Mito viajou incógnito por todo o país para que pudesse detectar e punir as pessoas más e corruptas que ocuparam cargos de autoridade.
3. Traduzido do japonês: Shiroi Kisen (O Navio Branco). Tchingiz Aitmatov. Kumi Obayashi, trad. Tóquio, Rironsha, 1989, p. 82.
4. Ibidem, p. 80

• comentários •

;