A educação é o caminho para a transformação social
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A educação é o caminho para a transformação social

É com profunda emoção que hoje falo na universidade na qual lecionou o filósofo mundialmente conhecido John Dewey. O primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, cujo pensamento norteia o espírito da fundação da Universidade Soka, menciona os ideais e o trabalho de Dewey com grande respeito em seu livro Soka kyoikugaku taikei [Sistema pedagógico de criação de valor], publicado em 1930.


A educação é um privilégio que só os seres humanos possuem. É a fonte de inspiração que nos capacita a desenvolver nossa humanidade de forma plena e verdadeira e cumprir a missão de vida que temos com serenidade e confiança.

O conhecimento acumulado à parte das questões humanas resulta num arsenal de destruição em massa. Por outro lado, o conhecimento em geral proporcionou conforto e conveniência à sociedade oferecendo trabalho e riqueza. A principal tarefa da educação deve ser a de assegurar que o conhecimento sirva para fortalecer as ações em prol da felicidade e da paz humanas.

A educação deve ser a força que impulsiona a eterna busca pelo humanismo. Por isso, é o empreendimento final e o mais importante de minha existência. É também o que me faz concordar plenamente com a colocação do presidente da Faculdade de Pedagogia da Universidade de Columbia, Arthur Levine, quando afirmou que a educação talvez seja o caminho mais demorado para a transformação social, mas é o único.

Hoje, a sociedade global enfrenta uma miríade de crises inter-relacionadas. Entre elas estão a guerra, a degradação ambiental, a disparidade de desenvolvimento entre o Norte e o Sul, e as divisões entre as pessoas baseadas nas diferenças de etnia, religião ou língua. A lista é longa e conhecida, e os caminhos para as soluções podem parecer muito distantes e desalentadores.

Porém, acredito que a raiz de todos esses problemas está no fato de termos falhado, de forma coletiva, em colocar o ser humano — a felicidade humana — como meta consistente a ser atingida em todos os campos e realizações. O ser humano é o ponto ao qual devemos retornar e de onde devemos partir novamente. O que necessitamos é de uma transformação humana — de uma revolução humana.


Há muito em comum entre o pensamento de Makiguchi e o de Dewey. Eles compartilhavam, por exemplo, uma inabalável convicção na necessidade de novos métodos para a educação voltada às pessoas. Como afirmou Dewey: “Tudo o que é distintamente humano é aprendido”.

Dewey e Makiguchi foram contemporâneos. Em cantos opostos da Terra, em meio aos problemas e desordens das sociedade recém industrializada em que cada um vivia, ambos assumiram a tarefa de estabelecer um caminho para um futuro repleto de esperança.

Makiguchi, inspirado pelas ideias de Dewey, defendia a crença de que o propósito da educação deveria ser a felicidade dos estudantes por toda a vida. Ele acreditava também que a verdadeira felicidade encontrava-se na criação de valor. Falando de maneira simples, a criação de valor é a capacidade de encontrar propósitos, de aprimorar a própria existência e de contribuir para o bem-estar das outras pessoas sob quaisquer circunstâncias. Makiguchi revelou a teoria de criação de valor a partir de sua percepção das funções internas da vida, que obteve de seu estudo do budismo.

Ambos Dewey e Makiguchi visualizavam além dos limites das fronteiras entre nações, contemplando novos horizontes da comunidade humana. Pode-se dizer que os dois vislumbravam uma cidadania global, com pes­soas capazes de criar valor em escala global.


Ao longo das últimas décadas, tive o privilégio de encontrar e conversar com um grande número de pessoas de diversas áreas, e tenho refletido bastante sobre isso. Com certeza, a cidadania global não é determinada pelo mero número de idiomas que alguém fala nem de países que a pessoa conheceu.

Tenho muitos amigos que talvez sejam vistos como cidadãos comuns, mas, na verdade, são pessoas de nobreza interior, pois apesar de nunca terem viajado além da terra natal, preocupam-se de verdade com a paz e a prosperidade do mundo inteiro.

Tenho a plena convicção de que os seguintes elementos são essenciais para a cidadania global:

• A sabedoria para perceber a inter-relação de todos os tipos de vida e ambiente.

• A coragem para não temer nem negar diferenças, mas para respeitar e se forçar em compreender pessoas de diferentes culturas e crescer por meio do contato com elas.

• A compaixão para cultivar uma empatia imaginativa que alcance além do ambiente ao nosso redor e se estenda a outras pessoas que sofrem em lugares distantes. 


Acredito que a inter-relação universal, a essência da visão budista de mundo, pode fornecer uma base concreta para o desenvolvimento dessas qualidades de sabedoria, coragem e compaixão.

A missão das pessoas que receberam alguma educação é servir com orgulho, seja de maneira visível ou não, à vida daqueles que não tiveram essa oportunidade. Às vezes, a educação pode se tornar uma questão de títulos e graus, prestígio ou autoridade. No entanto, estou convicto de que ela deveria ser um veículo para desenvolver nas pessoas o nobre espírito de abraçar e expandir a vida de outras.

Nesse sentido, a educação deveria capacitar cada pessoa com a força para vencer as próprias fraquezas, prosperar em meio à realidade social por vezes severa e alcançar novas vitórias para o futuro da humanidade.

O trabalho de cultivar cidadãos globais sobre os alicerces conceituais e éticos da cidadania global é dever de todos nós. É um projeto vital do qual todos nós somos participantes e pelo qual todos nós somos responsáveis. Para ter sentido, a educação para a cidadania global deveria ser tomada como parte integral de nossa vida diária em nossa comunidade local.



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