A educação musical é capaz de proteger a humanidade
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A educação musical é capaz de proteger a humanidade

Presidente Ikeda dialoga com a soprano austríaca, Dra. Jutta Unkart-Seifert, ex-subsecretária do Ministério da Educação, Artes e Esportes da Áustria

Na série O Brilho da Vida — A Canção da Mãe, publicada no jornal Seikyo Shimbun, o presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, dialoga com a soprano austríaca Dra. Jutta Unkart-Seifert, ex-subsecretária do Ministério da Educação, Artes e Esportes da Áustria e doutora em filosofia pela Universidade de Viena. Como presidente da Iniciativa Cultural Europeia para a geração jovem, a Dra. Seifert vem se dedicando à educação de jovens e adolescentes. Apresentou-se cinco vezes no Japão a convite da Associação de Concertos Min-On, fundada pelo presidente Ikeda, contribuindo sobremaneira na amizade entre o Japão e a Áustria.


Dr. Ikeda: O poeta do povo, o americano Walt Whitman (1819–1892), escreveu: “Praticamente todas as coisas que chamamos de ‘elegante’ ou de ‘requinte’ surgem do coração humano”. “Difundir a música entre jovens de forma ampla será inimaginavelmente útil para treinar o coração e as boas maneiras”.


No Japão, a música é disciplina obrigatória nas escolas de ensino fundamental 1 e 2, mas a educação especializada é feita nas escolas de música. Como é a educação musical em seu país, conhecido como país da arte? Existe educação especial em música?


Dra. Seifert: Na Áustria, a educação musical é ministrada na escola de ensino fundamental 1 que atende crianças de 6 a 10 anos, de acordo com a musicalidade do professor.


Contudo, não passam de algumas horas semanais e as crianças interessadas em música têm de se esforçar para ingressar num curso extracurricular musical.


Além disso, devido à redução orçamentária do governo, parece-me que a contratação de professores de música também é mínima. Todos esses fatos foram motivos para se fundar a Iniciativa Cultural Europeia para a Geração Jovem.


Dr. Ikeda: Entendo. Proteger a cultura significa proteger a humanidade. Por outro lado, cultivar a cultura cria amor e paz no coração humano. Certa vez, o historiador da arte Dr. René Huyghe (1906–1997), membro da Academia Francesa, preocupado, disse que o número de vagas de professores de música para o ensino fundamental 2 vinha diminuindo consideravelmente. Falou também que essa tendência era o “exemplo típico de erros da atualidade”. Parece-me que esta é uma tendência mundial.


Mesmo em meio a essa triste tendência, vejo que os jovens do mundo inteiro vão até a Áustria estudar música e arte. Proporcionar educação musical significa transformar a sociedade.


Agora, gostaria de saber como foi cultivado o “respeito pela arte” e o “amor pela música”, que estão enraizados na vida dos austríacos, principalmente na vida dos vienenses?


Dra. Seifert: É uma pergunta bastante difícil de responder. Como comentei antes, a difusão da cultura e da arte não é uniforme. Por exemplo, se eu perguntar “quem foi Beethoven”, algumas crianças podem responder “nome de cachorro” (risos). Mesmo assim, é certo que Viena seja considerada a Cidade da Música, pois há diversos eventos culturais promovidos pela prefeitura, talvez com um pouco de exagero; e temos o maravilhoso Teatro de Ópera Nacional. Então, há muitos pontos positivos.


Em se tratando de educação musical às crianças, creio que existem pontos a serem melhorados com urgência. Precisamos oferecer mais educação musical às crianças e, para tanto, é necessário revolucionar radicalmente a sociedade austríaca.


Dr. Ikeda: É uma opinião franca de uma pessoa preocupada com a promoção da arte. Creio que todos os países, em maior ou em menor escala, enfrentam o problema de preparar o ambiente propício para promover a educação musical em toda a sociedade.


Fundei a Associação de Concertos Min-On no outono de 1963 com o forte desejo de “levar arte de primeira categoria ao alcance de todos”, porque arte não deve ser restrita a uma população específica ou depender de renda familiar.


Antecedendo à criação da Min-On, eu disse: vamos criar um local para que o povo possa ir de “chinelo” apreciar concertos de primeira categoria. Muitos artistas e músicos concordaram com a minha ideia e me apoiaram.


Dra. Seifert: Concordo. Quando fundei a Iniciativa Cultural Europeia para a Geração Jovem, acreditava que meu objetivo seria atingido imediatamente com a execução do plano em ação. Após quinze anos de experiência, vejo que nem todas as sementes brotaram, mas ficarei imensamente feliz se encontrar um taxista que esteja apreciando um programa de músicas clássicas no rádio. Acho que daria uma gorda gorjeta.


O caminho para difundir a música

Dr. Ikeda: Recordo-me das palavras do saudoso violinista mundialmente reconhecido Yehudi Menuhin: “São garis durante o dia e formam quarteto de instrumentos à noite — é meu desejo construir uma sociedade assim. É o mundo que objetivamos”.


Dra. Seifert: Na realidade, difundir a música clássica é um árduo caminho. Diferentemente do passado, a atual Europa vive momentos de crise econômica e o corte no orçamento da área cultural e da arte acontece em primeiro lugar em todos os países. Com isso, muitos artistas ficam sem recurso para alugar teatros e locais para concertos. Portanto, ofereço espaço em minha casa, que comporta arquibancada de cano de ferro para setenta pessoas, para a realização de concertos, e também uma refeição feita por mim. É gratificante preparar comida para um grande número de pessoas.


Dr. Ikeda: A alimentação transmite ao coração o verdadeiro sentimento de quem a oferece. Alexandre Dumas recebia seus convidados com uma refeição preparada por ele a que chamou de “culinária de arte”.


Tenho certeza de que os jovens artistas jamais esquecerão o sabor dos pratos preparados pela senhora.


Com o intuito de contribuir na difusão da música, a Associação de Concertos Min-On vem patrocinando o Concurso Internacional de Música de Tóquio para regentes, que acontece a cada três anos desde 1967. Atualmente é o maior evento já realizado no continente asiático e é conhecido como a porta de acesso para os jovens regentes. O corpo de jurados é composto por músicos de primeira categoria. Quero continuar investindo nessas realizações.


Dra. Seifert: Que oportunidade extraordinária! Além de realizar eventos direcionados aos jovens artistas, é muito importante convidar pessoas com potencial para apoiá-los continuamente no futuro.


Ofereço curso de canto para as pessoas, pois acredito que o espírito do “grupo musical de Viena” será transmitido para a geração futura se eu lhes repassar tudo o que aprendi. É como se transferisse a eles o bastão.


Dr. Ikeda: Estou impressionado com sua realização. A pessoa que age com responsabilidade em prol do futuro e cria os jovens tem um coração jovial e está sempre radiante.


Rohan Koda, que tem uma profunda ligação com o seu país, escreveu: “Ficar satisfeito com a situação do momento é o mesmo que interromper o avanço. Insatisfeito com a realidade do momento e depositando grande esperança no futuro com o forte desejo de renovar a si próprio — esse desejo torna-se a razão para mantê-lo vivo”.


Quero louvá-la do fundo do coração e a parabenizo por seu nobre empenho.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2. 219, 22 mar. 2014, p. B2
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