A humanidade começa em casa
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A humanidade começa em casa

Texto adaptado de “Uma Mulher de Poucas Palavras”1

Nossa família era grande: meus pais, eu, quatro irmãos mais velhos, dois irmãos mais novos, uma irmã mais nova e dois filhos adotivos. Éramos doze. Meu pai era um homem à moda antiga, tanto que havia sido apelidado de “Sr. Cabeça-Dura”. Minha mãe cuidava dele e dos dez filhos com toda a paciência do mundo.

Minha mãe era uma pessoa muito perseverante; nunca a ouvi reclamar de nada. Mesmo quando o negócio familiar de algas marinhas comestíveis estava em perigo e quando nossa casa foi incendiada por bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial, ela não soltou sequer uma palavra de lamentação; simplesmente continuou a cuidar dos filhos e a realizar suas tarefas domésticas.

Recordo-me de uma ocasião em que dividíamos uma melancia que havia sido cortada de acordo com o número de pessoas presentes. Um dos filhos, que já havia terminado de comer seu pedaço, disse para minha mãe: “Já que a senhora não gosta de melancia, eu vou comer seu pedaço”. E minha mãe respondeu: “Não é que de repente comecei a gostar de melancia?!”. Ao dizer isso, separou uma fatia para um dos filhos que ainda não havia chegado.

É curioso, mas me lembro até hoje, de forma vívida, de sua voz e de sua expressão. Creio que meu jovem coração tenha sido profundamente tocado por seu amor e por seu senso de imparcialidade. Com base nesse tratamento igualitário, aprendemos também a nunca dizer ou a fazer algo que prejudicasse outras pessoas.

Outro aprendizado foi ver como minha mãe se preocupava com a nossa alimentação. Apesar de ter poucos recursos financeiros, ela sempre nos preparava refeições nutritivas. Mesmo com as privações da guerra, nenhum de nós sofreu de desnutrição. Até eu, que tinha uma saúde bastante frágil, ela conseguiu nutrir; mas, para isso, com certeza deve ter se esforçado em dobro.

Naquela época, tínhamos apenas uma galinha. Os ovos que ela botava eram distribuídos por ordem de idade, começando pelos irmãos mais velhos. Porém, com todos aqueles filhos, o mais novo tinha de esperar um bom tempo para ganhar seu ovo. Ele sempre aguardava ansiosamente por esse dia, que lhe parecia uma eternidade. Certa ocasião, quando chegou a vez dele, meu irmão mais novo foi até o galinheiro buscar seu ovo. Para sua surpresa e alegria, encontrou não apenas um, mas quatro ovos! Voltou todo contente, dizendo: “A galinha botou quatro ovos hoje!”. Todas as crianças se alegraram e aplaudiram aquela sorte inesperada. A verdade é que minha mãe havia se levantado bem cedo, saído e comprado os outros três ovos, e os colocou embaixo da galinha. No café da manhã, ela se sentou sem dizer nada. Com certeza, ela se sentiu muito feliz ao ver a expressão de alegria contentamento no rosto dos filhos.

A lembrança que guardo da minha mãe é a de uma mulher de poucas palavras, mas que expressava sua grande afeição por nós. Sinto muito orgulho dela, uma mãe que conseguiu compartilhar seu amor com todos os dez filhos igualmente. Até hoje ouço sua voz benevolente ecoando dentro de mim, sempre me direcionando a fazer o que é correto, a discernir o certo e o errado.

Os conselhos de minha mãe eram basicamente estes: “Não faça nada que cause problemas aos outros”; “não minta”. Quando começamos a frequentar a escola, ela acrescentou o seguinte ao seu direcionamento: “Quando decidir fazer algo, assuma a responsabilidade e faça isso você mesmo”. Desde aquela época, essas palavras ficaram gravadas em meu coração, e jamais me esquecerei delas.

Nota:

1. Uma Mulher de Poucas Palavras. In: Cultura de Paz, Escritos sobre a Paz. Disponível em: http://www.culturadepaz.org.br/media/escritos/uma_mulher_de_poucas_palavras.pdf. Acesso em: 19 fev. 2020.

 

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