A unicidade de mestre e discípulo é uma sublime corrida de revezamento
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A unicidade de mestre e discípulo é uma sublime corrida de revezamento

Mestre e discípulo compartilham os mesmos ideais e avançam juntos em direção a eles

Concomitantemente a uma edição búlgara do seu diálogo com a historiadora de arte e professora da Universidade de Sófia, professora doutora Axinia Djourova, o presidente Ikeda concedeu ampla entrevista aos leitores. Nela, discorreu sobre a relação de mestre e discípulo em termos gerais, destacando-a como fator indispensável para a transmissão de ideais elevados para as futuras gerações


Este discurso do presidente Ikeda foi extraído de uma entrevista celebrando a edição búlgara de Utsukushiki Shishi no Tamashii [A Beleza do Coração de um Leão], publicado em japonês no jornal Seikyo Shimbun, em 10 de agosto de 2000.


Talvez haja várias maneiras de conceber a relação entre mestre e discípulo, professor e pupilo, que pode diferir de pessoa para pessoa e depende da instituição ou do país.


Acredito que a relação de mestre e discípulo seja indispensável para configurar positivamente as sociedades e a época com inabalável integridade, paixão e energia.


Mestres expõem a seus discípulos todos os objetivos e todo o bem que desejam realizar. Por quê? Porque a vida possui um limite e precisamos passar o bastão para a geração seguinte a fim de alcançarmos algo de valor perene.


No entanto, quando aqueles que ocupam funções de liderança — sejam eles legisladores, executivos ou personalidades de destaque em diversos campos —, deixam de fazê-lo e se tornam autocráticos e pretensiosos, agarrando-se ao seu status ou posição, uma situação nociva se instala. Eles sucumbem a padrões de comportamento destrutivos, ficando cada vez mais arrogantes e menosprezando as pessoas sob sua tutela e outras que busquem sucedê-los, ocasionando no fim a própria ruína e também a dos outros.


Em vez disso, o que devemos fazer é nos dedicar com o espírito de humildade de capacitar os jovens, nossos sucessores, a nos superar e a empreender conquistas maiores do que as que conseguimos consolidar, reiterando e apoiando os pontos fortes e a missão deles. A repetição desse processo é o caminho do crescimento e progresso da humanidade, o caminho do avanço. Um país, uma instituição ou um indivíduo que se esquecem dessa verdade se verão no fim em circunstâncias desafortunadas e ficarão imobilizados sem um caminho para seguir.


Total dedicação

Precisamos dar maior atenção à transmissão de uma geração para a seguinte do nobre tesouro da relação de mestre e discípulo — um laço único e exclusivo dos seres humanos —, e reavivar e encontrar formas para possibilitar a expressão genuína desse vínculo. Do contrário, a raça humana estará condenada a repetir infinitamente o mesmo sofrimento, o mesmo antagonismo mútuo, os mesmos conflitos. Isso é o que temo. É o resultado que podemos esperar se permitirmos que a relação de mestre e discípulo pereça.


Todas as grandes revoluções — sejam as da história mundial ou a da Restauração Meiji, do Japão, por exemplo — foram efetuadas com esforços conjuntos de mestres e discípulos. Os mestres se levantaram com sagacidade e decisão, mas em muitos casos foram presos, assassinados ou morreram doentes ou no combate, antes de conseguirem alcançar seus propósitos. Os discípulos herdaram as aspirações de seus mestres e se devotaram arduamente para materializá-las. Não existe nada mais belo e mais inspirador que essa corrida de revezamento, a transmissão desse espírito, a transferência desse bastão àqueles que darão continuidade à luta.


Sem a relação de mestre e discípulo, qualquer coisa que realizarmos simplesmente terminará junto com nossa própria existência. Não passará de uma breve história de alguém buscando satisfação pessoal. Em contraste, a relação de mestre e discípulo nos permite viver uma existência conectada ao grandioso fluxo da humanidade, uma vida comparável à de um caudaloso rio, uma vida que faz parte de uma ininterrupta corrida de revezamento.


O caminho que permeia o budismo

O budismo ensina sobre a unicidade de mestre e discípulo. Não se trata de hierarquia em que o mestre se coloca em uma posição superior e o discípulo, em uma posição inferior. Mestre e discípulo compartilham os mesmos ideais e avançam juntos em direção a eles. Também encontramos vários contos nas escrituras budistas nos quais o discípulo daquela existência é o mestre da próxima.


Ao mesmo tempo, o mestre deve demonstrar uma liderança decisiva ou a harmonia se desintegrará. Se o mestre for convicto e resoluto, tudo sempre se moverá para uma direção positiva. Caso isso não ocorra, a confusão dominará.


Mestres e discípulos são como atletas numa corrida de revezamento impelindo-se a avançar, passando para a frente o bastão do caminho compartilhado de justiça, felicidade e paz para a humanidade. Os mestres correm na frente para transferir o bastão aos discípulos.


Não se pode alcançar nada expressivo sem mestres, desse modo, eles merecem o máximo respeito. Os discípulos põem em prática o que aprenderam com o mestre e dão continuidade ao trabalho que ele lhes deixou para realizarem no futuro.


O presidente Josei Toda dizia sempre que os discípulos devem buscar ultrapassar seus mestres. Somente mestres de pensamento mesquinho exigem que os discípulos os sigam e aceitem tudo o que disserem com obediência cega. Mestres genuínos instigam os discípulos a superá-los, a realizarem o que eles não puderam realizar. E discípulos verdadeiros se esforçam ardentemente para fazer exatamente isso.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.388, 23 set. 2017, p. B2
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