Atributos do cidadão global
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Atributos do cidadão global

O que vem a ser o modo de vida do bodisatva, que se opõe à divisão e busca a coexistência harmoniosa e a união?

Palestra do presidente Ikeda intitulada “Considerações sobre Educação para a Cidadania Global”, proferida na Faculdade de Pedagogia da Universidade de Colúmbia, em 13 de junho de 1996.


Quais, então, são as condições para a cidadania global?

Durante as últimas décadas, tive o privilégio de me encontrar e conversar com muitas pessoas de diferentes estilos de vida e teci algumas considerações sobre a questão. Certamente, a cidadania global não é determinada simplesmente pelo número de línguas que alguém fala ou países que visitou.


Tenho muitos amigos que poderiam ser considerados cidadãos bastante comuns, mas que possuem nobreza interior; que nunca saíram de sua terra natal, porém se preocupam sinceramente com a paz e prosperidade do mundo.


Creio que possa declarar com segurança que os seguintes pontos são essenciais para a cidadania global:


1. A sabedoria para perceber a inter-relação entre a vida e todos os seres.

2. A coragem para não temer nem negar a diferença; mas sim respeitar e se empenhar para conhecer indivíduos de diferentes culturas e crescer com esses encontros.

3. A compaixão para manter uma empatia imaginativa que vá além das cercanias imediatas e se estenda até aqueles que estão sofrendo em lugares distantes.


Sinto que a inter-relação universal que forma o âmago da visão de mundo budista pode proporcionar uma base para a realização concreta dessas qualidades de sabedoria, coragem e compaixão.


No Sutra da Guirlanda de Flores consta uma bela parábola budista sobre a interdependência e interpretação de todos os fenômenos. No palácio de Indra, a divindade que simboliza as forças naturais que protegem e nutrem a vida, existe uma rede que pende da parede. Em cada espaço da rede há uma joia brilhante, e cada uma delas reflete a imagem de todas as outras incontáveis joias da rede. A expressão “rede de Indra” é empregada com frequência como metáfora da inter-relação ou inclusão mútua de todos os fenômenos.


Quando aprendemos a reconhecer o que Thoreau se refere como “a infinita extensão de nossas relações”,4 podemos traçar as partes integrantes do sustento mútuo da vida e descobrir aí as joias cintilantes dos nossos vizinhos globais. O budismo busca cultivar a sabedoria com base nesse tipo de ressonância empática com todas as formas de vida.


Na visão budista, a sabedoria e a compaixão estão intimamente ligadas e são mutuamente fortalecedoras.


O empenho requer coragem

A compaixão no budismo não envolve a supressão forçada das nossas emoções naturais, dos nossos gostos e antipatias. Ao contrário, significa compreender que mesmo aqueles de quem não gostamos têm qualidades que podem contribuir para a nossa vida e podem nos proporcionar oportunidades de desenvolvermos nossa própria humanidade.


Além disso, é o desejo ardente de encontrar formas de contribuir para o bem-estar dos outros que dá surgimento à ilimitada sabedoria.


O budismo ensina que tanto o bem como o mal são forças que existem em todos. A compaixão implica um esforço constante e corajoso para buscar o bem em qualquer um, seja quem ou qual for o seu comportamento. Ela significa se esforçar num empenho constante para cultivar as qualidades positivas em si próprio e nos outros.


O empenho, contudo, requer coragem. Existem muitos casos em que a benevolência permanece como mero sentimento devido à falta de coragem.


O budismo chama de bodisatva quem incorpora essas qualidades de sabedoria, coragem e benevolência e que se empenha sem cessar pela felicidade dos demais.


Nesse sentido, pode-se dizer que o bodisatva proporciona um precedente remoto e um exemplo de cidadão global.


Consta também do cânone budista a parábola de uma mulher chamada Srimala, que viveu na mesma época que Shakyamuni e se dedicou à educação ensinando que a prática do bodisatva consistia em estimular, com carinho maternal, o potencial máximo para o bem que existe em todos os seres humanos.


Sua promessa está registrada da seguinte forma: “Se eu vir pessoas solitárias, que foram aprisionadas injustamente e perderam a liberdade, que estejam sofrendo em virtude de doença, desastre ou pobreza, eu não as abandonarei. Eu levarei a elas conforto material e espiritual”.5


Em termos concretos, sua prática se traduzia em:

1. Incentivar as pessoas se dirigindo a elas com amabilidade e preocupação, por meio do diálogo (priyavacana, em sânscrito).

2. Fazer doações ou supri-las com aquilo de que necessitem (dana, em sânscrito).

3. Agir em nome dos outros (artha-carya, em sânscrito).

4. Juntar-se aos companheiros e trabalhar com eles (samanartha, em sânscrito).


Com esses esforços, ela buscava concretizar seu objetivo fazendo surgir os aspectos positivos daqueles com quem se encontrava.


A prática do bodisatva é sustentada por uma profunda fé na benevolência inerente nos seres humanos.


O conhecimento deve ser direcionado para a tarefa de desencadear esse potencial criativo e positivo. Esse propósito pode ser ligado à habilidade que nos capacita a usar com precisão os instrumentos de um avião para atingir um destino com segurança e sem incidentes.


Por essa razão, é também necessária perspicácia para perceber a maldade que causa a destruição e a divisão, que também faz parte da natureza humana. A prática do bodisatva é um confronto corajoso o qual o budismo chama de escuridão fundamental da vida.


A “benevolência” pode ser definida como aquilo que nos leva a uma coexistência harmoniosa, a ter empatia e solidariedade com os que estão a nosso lado, porém, a natureza da maldade é dividir: dividir as pessoas entre si e dividir a humanidade da natureza.


A patologia da divisão nos impele a um apego irracional às diferenças e nos cega para o que temos em comum. Isso não se limita aos indivíduos, mas se constitui na profunda psicologia do egoísmo coletivo, que assume sua forma mais destrutiva nas forças malignas do etnocentrismo e do nacionalismo.


A luta para superar esse egoísmo e viver nos domínios mais amplos e contributivos da individualidade compõe o âmago da prática do bodisatva.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2. 351, 10 dez. 2016, p. B1-B4
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Notas:

4. THOREAU, Henry David. The Village, In: Walden, The Selected Works of Thoreau. Boston: Houghton Mifflin Company, 1975. p. 359.

5. Cf. The Lion’s Roar of Queen Srimala: A Buddhist Scripture on the Tathagata-Garbha Theory. Tradução de Alex Wayman e Hideko Wayman. Nova York: Columbia University Press, 1974. p. 65.

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