Autonomia e coexistência criadora
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Autonomia e coexistência criadora

Se esses valores puderem ser transformados no espírito condutor da era, deixaremos para trás os pesadelos do século 21

Como podemos caracterizar o espírito que deve mover o século 21 para que este seja o “Século da Vida”?


Duas características específicas que me vêm à mente são a ação autônoma da vontade interior e a coexistência criadora. Ambas estão bem perto do significado das palavras “vida” e “origem dependente”, de que venho tratando e que também estiveram ausentes na vida espiritual do século 21.


Em nítida contradição aos ideais da autonomia e coexistência criadora estão a competição (no sentido mais negativo da palavra) e as pressões externas. Essas são as principais características das filosofias totalitárias, como o fascismo e o bolchevismo, que dominaram o século 21. Acredito que a predominância dessas ideologias foi talvez o único grande fator que o tornou uma era de massacres sem precedentes.


Todas as ideologias — não só o fascismo e o bolchevismo — têm em comum a falha inerente de erguer barreiras de discriminação fundamentada em diferenças perceptíveis. Estas são então consideradas como fixas e imutáveis; a própria posição superior da pessoa é afirmada, justificando a marginalização e a opressão de outras.


Em tempos de desordem social, as ideologias podem assumir a forma de propaganda radical e fanática. Em tais casos, “a competição” revela seus aspectos primitivos de conflito e de exclusão de outros. A força externa se aplica pelo uso implacável do hard power. A história manchada de sangue do século 21 confirma poderosamente essas tendências.


A obra A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, é amplamente reconhecida como a obra-prima que revelou a patologia da sociedade de massa do século 20. Nela encontramos as perspicazes palavras: “Esta é a época de ‘tendências’ e de ‘deixar as coisas de lado’. Ninguém oferece nenhuma resistência aos tufões superficiais que surgem na arte, nas idéias, na política...”


Em tal época, os perigos de exclusão, conflito e repressão aumentam vertiginosamente. Nas vergonhosas palavras de Joseph Goebbels: “Repita uma mentira cem vezes e ela se tornará verdade”, ideologias como o fanatismo nacionalista do fascismo e as lutas de classe do bolchevismo são os produtos demoníacos de submissão do pensamento à corrente dominante.


Creio que devemos reconhecer que o atual movimento rumo à globalização abriga o perigo de se tornar mais outro “ismo” ideológico. Tenho de admitir o potencial positivo e certos méritos da globalização como uma megatendência de nossos tempos. Aqui, uma vez mais, entretanto, não posso compartilhar do otimismo desenfreado de alguns pensadores.


Preocupa-me em particular que a aplicação inflexível do chamado “padrão global” possa causar a lógica de conflito, exclusão e pressão, e ser usado para pressionar aquelas sociedades e partes do mundo que não encontraram um modelo próprio de desenvolvimento. Indícios mais do que eloqüentes têm aparecido para incrementar o entusiasmo dos adeptos mais dedicados da globalização. Com isso quero mostrar a disparidade assustadora da riqueza entre e no interior de sociedades, como também a movimentação puramente especulativa, não produtiva, do dinheiro mundial, algumas vezes referida como “capitalismo cassino”.


Creio que devemos atentar cuidadosamente para as lições de dominação ideológica que custaram muito caro. Precisamos substituir a competição irrestrita por um ethos de coexistência, o uso da força e de pressão externas por decisões autônomas de pessoas e sociedades. Devemos também defender esses novos valores e ao mesmo tempo avançar resolutamente em direção ao nosso objetivo tão almejado: tornar realmente o século 21 o “Século da Vida ”.


O conceito budista de origem dependente, que dá a máxima ênfase à inter-relação e interdependência, é fundamentalmente sinônimo de coexistência criadora. Além disso, no budismo os fenômenos da vida — o domínio da verdadeira realidade atingida quando vemos ultrapassados os falsos adornos da língua e a tendência de enxergar as coisas como entidades fixas e imutáveis — são descritos como “manifestações espontâneas a cada instante”. De fato, esta frase descreve a natureza essencialmente autônoma de motivação interior da força vital da vida.


Se esses valores podem ser transformados no espírito condutor da era, seremos capazes de deixar para trás os pesadelos do século 21 e realizar um século de vida e paz, uma paz que seja muito mais do que um mero interlúdio entre guerras.


Fonte: 
Terceira Civilização, ed. 394, 1 jun. 2001, p. 4
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