Budismo e física quântica – parte 2
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Budismo e física quântica – parte 2

O universo e os seres humanos, Ciência e religião, A eternidade da vida, O pacifismo budista e criação de uma civilização global são capítulos da obra

O livro Espaço e Vida Eterna explora alguns dos aspectos mais profundos da existência humana por meio da visão de mundo de Chandra Wickramasinghe e Daisaku Ikeda. Cada qual revela comparações interessantes entre princípios básicos da astronomia e do budismo. O livro tem cinco capítulos: O universo e os seres humanos, Ciência e religião, A eternidade da vida, O pacifismo budista e criação de uma civilização global. Confira um trecho do diálogo entre os autores em que eles conversam sobre física quântica.


Dr. Daisaku Ikeda: A teoria quântica transformou radicalmente a visão determinista e mecanicista que prevalecia até então, e dizem que os próprios cientistas que montaram o alicerce da física quântica, tais como Einstein e Planck, ficaram incrédulos diante da conclusão da teoria.


Chandra Wickramasinghe: De acordo com a versão de Bohr da teoria quântica, o mundo externo e a percepção de quem o observa estão inextricavelmente ligados. Segundo a teoria quântica, o mundo externo não existe separado da percepção que temos dele. As implicações filosóficas com a teoria quântica são realmente profundas e vários aspectos dessa teoria ainda são alvo de vigorosos debates. Einstein defendeu até o fim a opinião de que a teoria quântica carecia de um ingrediente essencial em sua afirmação de que o mundo “lá fora” somente poderia existir em relação a um observador e a uma experiência específica definida. Einstein e Bohr tiveram uma famosa discussão sobre tais questões.


Ikeda: O foco da discussão dos dois é o que atualmente é conhecido como a interpretação de Copenhagen da física quântica. Nela, o determinismo é substituído pela probabilidade estatística, e é demonstrada a inseparabilidade do observador e do objeto observado. Em outras palavras, a interpretação de Copenhagen propõe o conceito filosófico extremamente interessante de uma relação entre o sujeito observador e seu objeto.


Wickramasinghe: O mundo físico observável é claramente determinístico; no entanto, cada transição em nível atômico ou subatômico carece de determinismo, conforme o senhor descreveu. É a observação em si, a intervenção da consciência do observador, que elimina a indeterminação a cada passo observado . O mundo pode realmente ser visto como uma sequência de tais passos observáveis. As leis da mecânica operam no interior de cada passo, mas, para prosseguir de um passo a outro, é necessário que a consciência interfira. E isso vai além das leis da física reducionista.


É desnecessário dizer que algumas dessas questões permanecem sem resposta em um nível filosófico profundo. A mecânica quântica, em contraste, como um sistema teórico que explica fenômenos naturais, está firmemente estabelecida e determinada a manter seu espaço. Talvez seja uma das teorias de maior êxito neste século.


A teoria quântica nos trouxe explicações sobre as estruturas atômica, molecular e nuclear, sobre a criação e a eliminação de partículas elementares e nos direcionou a predições sobre a antimatéria. Além disso, conduziu-nos a uma compreensão, de forma indireta, do processo nuclear que ocorre nas profundezas das estrelas. Até agora, nenhum experimento contradisse qualquer predição baseada na mecânica quântica.


Ikeda: Visto da perspectiva budista, assim como o senhor acabou de explicar, acredito que exista uma chave extremamente importante oculta nas implicações filosóficas da teoria quântica.


Uma das doutrinas mais fundamentais do budismo é a da origem dependente. Essa doutrina, que ensina que todos os fenômenos produzem efeitos como resultado da interação entre causas internas e externas, é conhecida como teoria da causalidade dupla e também como teoria da causalidade múltipla. Não é mero determinismo mecanicista, em que uma única causa produz um único efeito no mundo físico. Em vez disso, é uma doutrina abrangente que ao mesmo tempo abarca o princípio da corrente de causa e efeito e no final afirma a importância da relação entre causas externas múltiplas.


Como os efeitos se manifestam a partir da interação de causas externas múltiplas com causas internas e externas, essas relações são dotadas com certo grau de liberdade. Nesse sentido, pode-se dizer que o princípio budista da origem dependente tem algo em comum com o princípio da incerteza proposto por Heisenberg.


Ikeda: Além disso, quando tentamos entender o princípio da origem dependente do ponto de vista da teoria do conhecimento, descobrimos que o budismo ensina que as funções cognitivas humanas se originam das interações destes três fatores:

1. As seis consciências, ou os seis sentidos: visão, audição, olfato, paladar, tato e consciência.

2. Os seis órgãos sensoriais: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

3. Os seis objetos cognitivos correspondentes aos seis órgãos sensoriais: cor e forma, som, odor, sabor, tangibilidade e elementos espirituais ou mentais.


Os dois primeiros fatores operam a partir do interior da vida do sujeito e o terceiro, a partir do ambiente. As seis consciências funcionam em seus respectivos locais, ou seja, os seis órgãos sensoriais, aos quais os seis objetos correspondem respectivamente. O budismo ensina que as funções cognitivas se materializam quando as atividades desses três fatores se harmonizam e se relacionam. Uma teoria budista desse tipo está repleta de significado filosófico e de substâncias que parecem transcender a visão mecanicista fundamentada na abordagem reducionista.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.126, 6 abr. 2012, p. A3
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