Ciência e religião: o muro pode ser rompido?
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Ciência e religião: o muro pode ser rompido?

Numa troca de cartas, o neurocientista japonês, Dr. Kenichiro Mogi, e o líder da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, dialogam sobre este tema

Prezado Sr. Daisaku Ikeda, temas como a existência de almas e o mundo pós-morte, e as doutrinas religiosas relacionadas a estes assuntos vêm sendo repetidamente criticados pelas pessoas que têm inclinação para o pensamento racional como sendo incompatível com a visão científica do mundo. Por outro lado, o budismo mantém desde o seu início o conceito de não se aventurar a fazer menção sobre questões como estas. O pensamento fundamental do Buda deve ter sido o de “não dar nenhuma resposta” a questões como alma e o mundo pós-morte.


Parece-me que, a partir da visão científica do mundo, o pensamento padrão básico do budismo seja algo a ser concordado inicialmente. Quem sabe o fato dos cientistas de vanguarda sentirem simpatia aos pensamentos budistas tenha relação com esta forma do budismo se posicionar. Para a ciência, não há alternativa senão manter o silêncio em relação à alma e ao mundo pós-morte.


Uma vez que não se consegue conhecer essa entidade por métodos de observação, e também por não ser possível estabelecer uma tese que atenda ao falsificacionismo afirmado por Thomas Kuhn, acredito que não há como afirmar algo do ponto de vista científico.

Intelecto e emoção

Por outro lado, a partir da posição das pessoas simples que vivem o dia a dia, persistir nessa forma de abordar do budismo seja, em alguns momentos, uma postura fria e insensível. “Pode ser qualquer coisa, o que quero é ser salvo dos sofrimentos deste mundo, mostre-me a direção: ‘será salvo se fizer assim’”, “Quero que me garanta que o paraíso me aguarda após a minha morte” — perante estes desejos dolorosos de uma pessoa, os cientistas são confiáveis intelectualmente, mas é muito difícil se tornarem confiáveis no sentindo emocional.


O bonzo Zen Jikisai Minami realizou longos anos de prática no (templo) Eihei-ji, sendo obviamente uma pessoa que tem pleno domínio do budismo. Numa ocasião, foi consultado por uma senhora idosa: “Reverendo, será que irei ao céu quando eu morrer?” O Sr. Minami respondeu: “É claro, se alguém como a vovó, que passou por tantas dificuldades não puder ir ao céu, quem poderá ir?”


Desejo perguntar ao Sr. Daisaku Ikeda, que está há longos anos na posição de liderança da maior organização leiga de budistas no Japão, e que veio acumulando diálogos com intelectuais de diversos países do mundo:

Na fronteira do conhecimento atual da humanidade, qual é o papel que cumprem e podem vir a cumprir as religiões, a começar pelo budismo? Que relação há entre persistir na sincera dedicação da busca intelectual e a questão de salvar as pessoas que vivem o dia-a-dia das suas dificuldades e sofrimentos? Ficarei feliz se me ensinar mesmo que uma fração do seu pensamento.

Prezado Sr. Kenichiro Mogi, De acordo com o que ouço dos jovens acadêmicos que pesquisam ciência de ponta há, por exemplo, no campo do estudo que investiga o aspecto último da matéria e do universo, teorias que não podem ser verificadas experimentalmente e nem por isso são falsas.Penso ser importante a postura de encarar honestamente metodologias que escapem do dogmatismo que as religiões tendem a cair. Isto é algo que tem ressonância com o espírito do budismo.

Nichiren Daishonin mostrava uma postura aberta de aceitar críticas legítimas: “Enquanto as pessoas de sabedoria não provarem que os meus ensinos são falsos, jamais desistirei!”. A sabedoria citada por Daishonin inclui, na atualidade, o conhecimento científico. O budismo advoga que as religiões devem ser confirmadas racionalmente por meio de três dimensões: provas literal (argumentação), teórica (validade universal) e real (evidência/prova real). Daishonin dava mais importância à prova real. A partir desta visão, no discurso que realizei na Universidade de Harvard em 1993, mostrei os critérios de avaliação que diziam: ter uma religião faz a pessoa ser forte ou a torna fraca, boa ou má, sábia ou tola?

O poder do diálogo

O que é de suma importância para superar e vencer o dogmatismo e o fundamentalismo que rasga a humanidade? Mais do que qualquer outra coisa, é o diálogo aberto. O diálogo, o oposto da violência, começa a partir da superação de todas as diferenças — é um olhar sobre o outro como um indivíduo dotado da mesma dignidade. O papel a ser cumprido pela religião na linha de frente do conhecimento do século 21 não é outro senão transpor os grupos religiosos, unir a humanidade por meio do diálogo e contribuir para a paz. Eu vim expandindo o diálogo pelo mundo com esta convicção.


Educação e religião

Junto com isso, não será a educação a força que liderará as religiões para a direção correta, sem deixá-las caírem na fatuidade, egoísmo, hipocrisia e fé cega? A sabedoria desenvolvida pela educação e pelo estudo liberta o coração das pessoas do preconceito, do ódio e a da violência fanática.


Além do mais, a forma de resposta do budismo citada pelo senhor é originalmente a narrativa na qual Shakyamuni não afirmou e nem negou os 10 ou 14 questionamentos de integrantes de outras religiões que contém pensamentos distorcidos sob o aspecto metafísico (tais como se o mundo é eterno ou não). Essa não é uma posição duvidosa de calar-se em relação às questões incognicíveis. Há nas escrituras budistas a famosa Parábola da Flecha Envenenada. Se no momento em que for atingido por uma flecha envenenada, a pessoa ficar apenas discutindo a respeito desta flecha, o veneno circulará e acabará morrendo. É uma advertência que diz ser prioridade arrancar a flecha.

O professor Hajime Nakamura, estudioso do budismo, disse: “Há coisas que ainda não sabemos, mesmo tendo o conhecimento da avançada ciência natural da atualidade. Nós também morreremos mesmo que discutamos os assuntos que não podemos solucionar. Em vez disso, para as pessoas que vivem o aqui e o agora, o mais importante é viver da melhor forma”. A mensagem que o Sr. Mogi lança a partir de diversos planos, contém, junto com os princípios científicos universais, indicações da sabedoria para vencer a realidade com um coração transbordante. É de fato um novo desbravar que extrai “a força que origina a emersão a partir do perigo”, e tenho profunda simpatia.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.193, 31 ago. 2013, p. A3
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