“Em meu coração não havia a mínima dúvida”
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“Em meu coração não havia a mínima dúvida”

Em setenta anos Daisaku Ikeda fez da própria revolução humana a base para sua jornada mundial em prol da paz

Verão do mês de agosto, dois anos após a destruição do Japão pela guerra, quando ainda se sentia dor ao ver o campo queimado pelos bombardeios, numa reunião de palestra no bairro de Ota em Tóquio, eu me encontrei com o presidente Toda que se tornou meu eterno mestre da vida.

Está com quantos anos?

Estou com dezenove.


Meu mestre me perguntou com palavras que seriam dirigidas a um velho conhecido. Na realidade ele estava bem informado sobre mim, pois havia se inteirado com uma pessoa da localidade. Ele sabia que eu havia perdido meu irmão mais velho na guerra, que nossa casa havia sido incendiada pelos bombardeios aéreos e ainda, que eu me sacrificava para continuar meus estudos acadêmicos, trabalhando para ajudar meus pais a sustentar nossa família. Eu me recordo com gratidão daquelas pessoas da localidade que informaram ao presidente Toda que: “em nossa comunidade há um jovem com tais características...” Atualmente, quando ouço um alegre comunicado sobre a realização de shakubuku, penso também na sinceridade das famílias Soka que apoiaram nos bastidores até o amigo ingressar na organização; além do entusiasmo e da oração do apresentador. Realmente, a reunião de palestra é o “espaço de propagação do budismo” em que pulsa o coração do buda.


A obra que eu estudava com um amigo íntimo na época em que ocorreu o encontro com meu mestre presidente Toda era O diálogo com Goethe (escrito por Johann Peter Eckermann). Nela, constava a frase: “Os passos em uma caminhada não devem ser com disposição de algum dia chegar ao destino final, sem um propósito claro. Ao contrário, cada passo deve ter seu valor e ser como um ponto de chegada”. Estas palavras de Goethe com certeza ecoavam em meu coração no momento em que decidi resolutamente dar meu primeiro passo no caminho de mestre e discípulo, passando a considerar o presidente Toda, que havia lutado até o final contra o militarismo, como meu mestre da vida. Nesse sentido, talvez eu possa também dizer que Goethe deu um empurrãozinho em minha conversão.


Seguir em frente confiando em sua personalidade

Dez dias após meu encontro com o presidente Toda, o dia 24 de agosto foi um domingo e nos registros da época consta uma temperatura de 35,3ºC. Foi um dia muito quente e o gongyo da cerimônia de conversão foi longo e lento. Para uma pessoa como eu que não estava acostumado, foi realmente doloroso sentar-me sobre minhas pernas como era o costume da época. Ainda hoje recordo de meu desconforto tornando-se quase um sofrimento. No entanto, confiei na personalidade do presidente Toda. Nas edições matinais de publicações do dia seguinte constava uma pesquisa realizada sobre famílias que não tinham condições de se manter financeiramente apenas com o salário. Elas atingiam uma preocupante marca de 9%. Dois meses após, houve uma informação alarmante de que o juiz do Tribunal Distrital de Tóquio, que recusou os alimentos de origem paralela para viver apenas com aqueles oficialmente distribuídos, morreria de inanição. Houve também sucessivas ocorrências de desastres naturais como terremotos, tufões e a erupção do vulcão da montanha Assama. Agravavam-se os confrontos da guerra fria entre o oriente e o ocidente e havia um esforço para se conter uma possível guerra nuclear.


Hastear altivamente a bandeira da justiça da verdadeira Lei pela paz da humanidade

Exatamente como o presidente Toda declarava em suas explanações da tese [de Nichiren Daishonin] Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra em reuniões de palestra, a Soka Gakkai, ainda era pequena, mas nós, mestre e discípulos, hasteamos altivamente a bandeira da justiça da verdadeira Lei para iluminar a escuridão da desordem do pós-guerra.


O presidente Toda declarava com firmeza: “É de fundamental importância para o ser humano considerar em que tipo de pensamento sua vida é fundamentada e quais ações realiza. Por esta razão, os jovens da Soka Gakkai, que aprenderam sobre o supremo fundamento da humanidade e atuam pela felicidade das pessoas, devem falar imponentemente e de cabeça erguida sobre nossa prática da fé”. A partir daquela data de 24 de agosto, para mim que estava com apenas 19 anos, a luta pelo estabelecimento do ensinamento correto para a paz da Terra passou a ser uma constante em minha juventude e em meu curso de vida.


Sobrepujando grandes dificuldades

O presidente Tsunesaburo Makiguchi sofreu perseguições pela Lei no período da Segunda Guerra Mundial e foi aprisionado. Seu discípulo direto, presidente Josei Toda, o acompanhou à prisão em sinal de suprema gratidão pela atitude de seu mestre. A minha determinação foi herdar essa inabalável e sublime relação de mestre e discípulo mesmo a custo de sacrificar minha própria vida. Em meu coração não havia a mínima dúvida quando os empreendimentos do presidente Toda faliram e as condições eram de grande sofrimento causados pelo extremo mal enquanto outros discípulos se apressavam em fugir.


Em 24 de agosto de 1950, quando completava três anos de minha conversão, o presidente Toda anunciou sua intenção de renunciar à presidência da Soka Gakkai. Cerrei meus dentes para conter minha indignação e fiz um juramento como um “Conde de Monte Cristo”: “Por todos os meios, eu haverei de reverter esta situação crítica e o presidente Toda, absolutamente, tomará posse como segundo presidente da Soka Gakkai!” Na mesma data de 24 de agosto, o presidente Toda e eu dialogamos sobre o plano de publicação do jornal Seikyo Shimbun [jornal da Soka Gakkai no Japão] e esta data se tornou o “Dia do Ponto Primordial de Publicação” do Seikyo, o castelo da imprensa falada e escrita a determinar a abertura do futuro do kosen-rufu.


De toda forma, no momento de maior dificuldade se faz a causa da mais grandiosa vitória. Esta é a melhor representação do princípio de transformação do veneno em remédio da Lei Mística.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.098, 3 set. 2011, p. A3
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Nota:

Em comemoração dos 70 anos de ingresso de Daisaku Ikeda à Soka Gakkai, SeikyoPost utilizou nesta postagem a ilustração do encarte do jornal Brasil Seikyo, ed. 2.383, 12 ago. 2017. O texto é referente a outra publicação do jornal.

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