Goethe, o Homem — Parte 1
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Goethe, o Homem — Parte 1

Qual era o lema da mãe de Goethe? “Aprenda para viver, viva para aprender!”

Texto com base na primeira parte de uma série especial de palestras proferidas na Universidade Soka em Tóquio, no Japão, pelo fundador da instituição, o presidente Ikeda. Esta palestra, em que ele se aprofunda na vida do grande escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), foi apresentada na Torre Central da universidade no dia 10 de março de 2003.


Gostaria de citar algumas palavras de Goethe que guardo comigo desde jovem: “Utilize seu tempo honestamente! Se deseja compreender algo, não o faça num lugar distante!”¹ Estas palavras foram meu lema durante anos.


Goethe descreveu os jovens como “muito ricos em poderes invisíveis”.² Não há alguém que seja maior nem mais forte que a pessoa de juventude dinâmica e vigorosa. A própria vida de Goethe confirma isso de forma admirável.


Quando jovem, decidi dedicar minha vida ao caminho que escolhi e me empenhei com a convicção de que aquele período da juventude era a época para cultivar a força necessária para enfrentar os desafios que estavam por vir.


Um diálogo agradável e descontraído

Para a palestra de hoje, pensei primeiro em falar sobre Goethe tomando seus escritos como perspectiva, mas o professor Ryohei Tanaka, da Universidade Soka, é especialista em Goethe.


Professor Tanaka, o senhor está aqui hoje? [O professor Tanaka levantou-se e respondeu.] Ele se formou pelas Escolas Soka e depois se graduou pela Universidade de Tóquio. É também membro da Associação Goethe do Japão. Tenho ternas lembranças de um diálogo sobre Goethe com o professor Tanaka. [Esse diálogo foi publicado em japonês com o título Fumetsu no Kyosho Gete no “Shi to Shinjitsu” (Um Gênio Indestrutível: Goethe e sua “Poesia e Verdade”).]


Creio que muitos de vocês também estudaram sobre Goethe e sabem muito sobre ele. Parece que há recentemente um “boom de Goethe” na Universidade Soka, com as livrarias próximas avisando terem ficado sem os livros dele no estoque! [risos] Talvez alguns de vocês devam ter lido as primeiras páginas e exclamado: “Puxa! Goethe é difícil!”, deixando o livro de lado. [risos]


De qualquer forma, quem quiser engajar-se numa discussão acadêmica sobre Goethe, por favor, estude todos os seus escritos e depois converse com o professor Tanaka! [risos]


Em consideração aos alunos da Escola Soka que estão participando conosco hoje, gostaria de evitar proferir um discurso complicado e, em vez disso, falar a respeito de Goethe utilizando uma linguagem simples e de fácil compreensão.


Então, vamos começar!


Nada nunca é desperdiçado

Vamos iniciar observando a família de Goethe. Ele nasceu no dia 28 de agosto de 1749 em Frankfurt, na Alemanha. Seu pai, Johaan Kaspar Goethe, estava com 39 anos e era rico, e sua mãe, Katherine, estava com 18. Goethe foi seu primeiro filho. Sob a orientação de seu pai, que havia recebido uma ótima educação e possuía elevada cultura, Goethe recebeu desde a infância uma rigorosa instrução sobre diversos temas. O currículo que o pai de Goethe idealizou para o filho era extremamente diversificado, incluindo latim, grego, hebraico, inglês e italiano; História, Geografia, religião, Ciências Naturais e Matemática; e Música, dança de salão, esgrima e equitação.


O pai de Goethe não aceitava meias medidas. Ele acreditava que o que se começou deveria ser concluído, não importando o quê. Era extremamente obstinado; o tipo de pessoa que nunca ficava satisfeito a menos que tudo estivesse bem-feito. Por exemplo, certa noite, durante o longo inverno alemão, a família iniciou a leitura de um antigo livro de história demasiadamente chato e entediante. Mas, uma vez que começaram a ler, foram até o fim. Assim era o pai de Goethe.


O caráter de uma pessoa não muda com facilidade. Por isso é importante ter paciência e sabedoria para aceitar as pessoas pelo que elas são, dizendo para si, por exemplo: “Ah! bem, meu pai é assim.” Esse esforço é essencial para compreender a natureza humana e faz parte de nossa educação como seres humanos.


No entanto, com essa prática de ler em voz alta a qual Goethe foi forçado a dar continuidade, muitos fatos importantes ficaram profundamente gravados em sua jovem imaginação, fatos que se tornaram posteriormente de grande utilidade para ele e que contribuíram para moldá-lo no grandioso poeta que ele se tornou.


Ter o espírito de que nada nunca é desperdiçado e, na verdade, ter o espírito de não permitir que nada seja desperdiçado é o que distingue as pessoas que deixaram uma grande história. Podemos visualizar aqui um aspecto da importância da educação.


O dom da imaginação

Mas que tipo de pessoa era a mãe de Goethe? Dizem que ela era uma mulher gentil e alegre.


As mães são como o Sol. Uma mulher possuidora de radiante e alegre disposição é a maior fortuna que uma família pode ter.


A mãe de Goethe fazia um julgamento correto das pessoas e das coisas; sempre irradiava uma vívida energia e otimismo e levava satisfação e contentamento a todos ao seu redor.


Foi também uma mulher forte e corajosa. Nos anos da guerra no final do século 18, quando todos estavam fugindo de Frankfurt, ela dizia com um sorriso: “Tudo o que eu queria era que esses covardes fossem embora para que não contaminassem os outros [com sua covardia].”³


Essa mãe forte e de coração resplandecente também escreveu as seguintes palavras para seu filho: “Há realmente muitas alegrias para encontrar neste mundo...! Você apenas deve ter de se tornar competente para encontrá-las, pois com certeza elas existem.”⁴ Nosso mundo não é um local de tristeza, tampouco de sofrimento, mas um mundo maravilhoso e transbordante de alegria. Essa era a postura dessa sábia mulher que criou Goethe.


As mães são grandiosas

As mães são fortes, pois são as principais defensoras da verdade e da honestidade no mundo inteiro. Mesmo não tendo muito dinheiro, elas possuem uma reserva de riqueza espiritual. Elas podem criar seus filhos com essa rica sabedoria e com seu rico coração.


Mais do que qualquer outra coisa, a mãe de Goethe incutiu no filho o amor pela literatura e pela narração de histórias. Não havia nada de que o garoto mais gostasse do que ouvir os contos que a mãe inventava para ele. Mais tarde, ele recordou com orgulho: “De minha mãe [eu herdei] o dom de descrever de forma brilhante e vigorosa tudo o que a imaginação pode produzir e compreender: de reavivar os contos de fadas familiares; de inventar e narrar outros, e, de fato, de inventá-los enquanto caminho.”⁵


As crianças absorvem com avidez e aprendem as coisas com sua mãe. Espero que todas as nossas estudantes se lembrem disso ao se tornarem mães no futuro.


Qual era o lema da mãe de Goethe? “Aprenda para viver, viva para aprender!”⁶ Posteriormente, Goethe louvou-a como a “melhor mãe do mundo”, mas ela não deu nenhuma importância, dizendo não ter intenção de aceitar honras que não lhe cabiam. Ela foi uma mãe grandiosa, porém comum, que viveu de forma sábia, sem nenhuma pretensão nem vaidade.


E assim se formou o caráter de Goethe, o homem, herdando as boas qualidades de seus pais.


Estou indo bem até agora, professor Tanaka? [O professor Tanaka respondeu afirmativamente.] Parece que estou indo bem. [risos] Obrigado.


O caminho para a transformação do destino

O que aconteceu com os pais de Goethe? Como era um homem rico, o pai dele não tinha na verdade um emprego e quase sempre estava em casa. Seus pais viveram até uma idade considerável para aquela época, o que era realmente uma raridade — seu pai viveu até os 72 anos e sua mãe, até os 77.


Goethe era o mais velho de seis filhos, dos quais quatro morreram na infância. Sua irmã, que nasceu logo depois dele, morreu aos 26 anos.


Mais tarde, Goethe casou-se e teve cinco filhos, mas somente o mais velho sobreviveu; os outros quatro morreram ainda jovens. Goethe estava com 40 anos quando seu único filho sobrevivente nasceu, e ele o amava muito. Posteriormente, seu filho tornou-se seu secretário, mas, no final, o peso de ser o filho de Goethe foi grande e ele acabou se tornando alcoólatra, morrendo em Roma aos 40 anos — apenas um ano e meio antes da morte de Goethe. Foi um choque terrível para seu pai.


Goethe teve também três netos, dois meninos e uma menina. Os dois netos viveram até os 65 anos, mas nenhum dos dois se casou, e a neta morreu de uma enfermidade aos 17 anos. E assim findou a linhagem de Goethe com a geração de seus netos.


A época de estudante de Goethe

Como foi a época de estudante de Goethe? Por recomendação de seu pai, ele entrou para a renomada Universidade de Leipzig aos 16 anos. Querendo que seu filho tivesse uma carreira de sucesso, o pai de Goethe insistiu para que o filho estudasse Direito, mas Goethe não tinha especial interesse nessa matéria. Ele queria estudar Literatura e História. Mas as aulas monótonas e sem inspiração acabaram desanimando-o, pois tratavam de coisas que ele já sabia.


Um professor criticou a poesia de Goethe e ele respondeu com uma crítica mordaz — na forma de poesia — do escrito do professor. Foi, em outras palavras, uma batalha entre Goethe e o professor. E de fato Goethe era o mais avançado dos dois. O professor não era páreo para seu aluno, o que pode ter feito com que o professor não se sentisse bem.


Goethe escreveu: “Muitos dos antigos professores ficaram fechados num local por muito tempo e em geral nada transmitem a não ser ideais e, no que diz respeito às circunstâncias, muitas delas já foram condenadas pelo tempo como inúteis ou falsas.”⁷Resumindo, seus professores não tinham energia nem vontade de engajar-se em algo novo. Eles ensinavam coisas ultrapassadas e evidentemente equivocadas.


Para Goethe, a universidade nada mais era que um desolado local de desperdício, um local de treinamento sem vida para um aprendizado desprovido de inspiração. Esse tipo de educação está errado, pois não pode criar pessoas grandiosas. Goethe estava se sentindo incomodado com isso e reagiu firmemente contra a educação que recebia. Mas ainda assim ele não desperdiçava seu tempo enquanto estava na universidade nem dissipou seus dias de juventude. Ele avançou com sabedoria e vigor.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 1.704, 21 jun. 2003, p. A3
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Notas:

1. Johann Wolfgang von Goethe, “Sprichwörtlich” (Proverbialmente), in Goethe Gedichte: Sämtliche Gedichte in zeitlicher Folge (Poemas de Goethe: Coletânea de Poemas em Ordem Cronológica), Heinz Nicolai, ed. Frankfurt am Main: Insel Verlag, 1982, pág. 617. 2. Johann Wolfgang von Goethe, Wilhelm Meister’s Apprenticeship. Eric A. Blackall, trad. e ed. em cooperação com Victor Lange, in Goethe’s Collected Works, vol. 9. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1989, pág. 42. 3. Richard Friedenthal, Goethe: His Life and Times. Londres: Weidenfeld and Nicolson, 1963, pág. 22. 4. Karl Heinemann, “Die Kindheit,” Goethe. Leipzig: Alfred Kröner Verlag, 1916, vol. 1, pág. 11. 5. Johann Wolfgang von Goethe, From My Life: Poetry and Truth (Parts One to Three). Robert R. Heitner, trad. Thomas P. Saine e Jeffrey L. Sammons, ed. In Goethe’s Collected Works, vol. 4. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1987, parte 2, livro 10, pág. 330. 6. Georg Brandes, Goethe. Berlim: Erich Reiss Verlag, 1922, pág. 19. 7. Goethe, From My Life: Poetry and Truth, parte 2, livro 6, pág. 190.

8. Na foto principal: Estátua de mármore do grande escritor alemão Goethe no parque público Villa Borghese, Itália

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