Goethe, o Homem — Parte 2
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Goethe, o Homem — Parte 2

Ele criou suas bases como poeta e escritor na época de estudante, quando estava com cerca de 20 anos

Esta é a continuação da primeira parte de uma série especial de palestras proferidas na Universidade Soka em Tóquio, no Japão, pelo fundador da instituição, o presidente Ikeda. Esta palestra, em que ele se aprofunda na vida do grande escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), foi apresentada na Torre Central da universidade no dia 10 de março de 2003.


O maior objetivo de Goethe era ser poeta. Esse foi o secreto desejo que ele acalentou. Desde criança, ele amava poesia e começou a escrevê-las aos sete anos de idade. Tinha também fascinação pelo teatro e, por volta dos dez anos, começou a atuar em peças e a escrever roteiros.


Na época de estudante, Goethe decidiu em seu íntimo assumir sua própria educação e cultivar seu potencial de escritor. Foi conduzido pelo desejo de tocar o coração das pessoas, surpreender o mundo e construir uma nova era com seus escritos. A grandiosa revolução humana de cada pessoa começa justamente com essa decisão de concretizar os próprios sonhos.


A formação de um rico caráter

Para alcançar seu objetivo, Goethe passou seus dias de estudante absorvendo avidamente diversos assuntos, como literatura, artes, ciências, línguas, história, entre outros.


A pessoa que decide mudar o mundo e tocar o coração dos outros pela felicidade da humanidade e por uma paz duradoura é forte. Espero que cada um de vocês se empenhe para se tornar uma pessoa assim.


Goethe lia cada obra literária que tinha oportunidade. Ele não perdia tempo com livros frívolos e superficiais. Ficou famoso por ter lido profundamente todos os clássicos, incluindo literatura estrangeira, tal como Shakespeare e Rousseau. Também compôs um grande número de peças e poemas. Em outras palavras, ele escrevia sem parar.


Escrever é algo inestimável para o processo de aprendizagem.


Os esforços pró-ativos empreendidos por Goethe para aprender na época de estudante naturalmente frutificaram na formação de um rico caráter.


Os verdadeiros poetas dizem a verdade

O que significava ser poeta para Goethe? Essa era uma questão muito importante para ele, que escreveu: “O poeta — ele não merece ser chamado assim enquanto apenas falar de seus poucos sentimentos subjetivos; mas assim que se apropriar de si e expressar o mundo ele será um poeta.”¹


Nós devemos nos tornar defensores do espírito. Essa também é a marca dos verdadeiros poetas. De fato, essa é uma qualidade vital para o sucesso em todos os empreendimentos.


Goethe continua: “Ele [o poeta] nos diz a verdade; mas ela é desagradável e às vezes seria melhor que ele calasse.”² Apesar de o mundo o encher de calúnias, o verdadeiro poeta é um “defensor da pena” que sempre diz a verdade.


Goethe também declara: “De que serviriam os poetas se eles somente repetissem a história dos historiadores? O poeta deve ir além e nos dar, se possível, algo mais elevado e melhor.”³ A essência da poesia encontra-se no sublime desafio de conduzir as pessoas a um estado espiritual melhor e mais elevado.


Para Goethe, a poesia e literatura, em geral, constituíam-se no ponto de partida e de chegada de sua própria batalha espiritual para cumprir sua missão como ser humano.


O encontro que mudou uma vida

Quando Goethe estava com 19 anos, foi acometido de uma grave doença que ameaçou sua vida e o forçou a deixar a Universidade de Leipzig após o terceiro ano e passar por um longo período de recuperação. Ele retornou a sua cidade natal, Frankfurt, e levou um ano e meio para se recuperar totalmente.


Porém, Goethe usou essa difícil circunstância como um período de auto-análise e reflexão. Após ter se recuperado, novamente deixou Frankfurt e passou um ano estudando na Universidade de Estrasburgo. Foi nesse local que teve um encontro que exerceu grande influência em sua vida e que marcou, de certa forma, o verdadeiro início de sua vida.


Os encontros e reuniões são muito importantes. Ninguém se torna grande nem realiza objetivos nobres sozinho. Todas as pessoas que conseguiram isso encontraram outras que contribuíram para tal. Para Goethe, foi seu encontro com o filósofo Johann Gottfried von Herder (1744–1803).


Encontros com homens e mulheres notáveis, com companheiros que compartilham das mesmas aspirações, com um mestre da vida — as pessoas que não tiveram esses encontros são realmente desafortunadas. Não estou falando de encontros com pessoas frívolas e mesquinhas ou que os levem a ser corrompidos por influências negativas. O caminho para uma vida inigualável está nos encontros genuínos e dignos com pessoas que seguem supremos ideais e que estão conseguindo avançar com dignidade e humanismo.


Bons veteranos, bons amigos, bons professores

Quantos de vocês sabem quem foi Herder? [Muitos alunos responderam positivamente.] Que maravilha! Isso significa que eu não preciso falar dele, não é mesmo? [Os alunos responderam: “Não, por favor, fale!”.]


Herder foi um filósofo, crítico e escritor alemão. Ele foi um dos jovens líderes do revolucionário movimento literário Sturm and Drang (Tempestade e Dificuldade) ocorrido na Alemanha no final do século XVIII, o qual clamou pela liberdade do indivíduo. Ficou conhecido por obras como Ideen zur Philosophie der Geschichte der Menschheit (Aspectos de uma Filosofia da História do Homem) e muitas outras. O jovem Goethe de 21 anos buscou Herder, cinco anos mais velho, com avidez, e pediu-lhe para estudar com ele.


É importante ter bons veteranos, bons amigos e bons sucessores. Nossos relacionamentos com os outros são nossos maiores tesouros na vida.


Com a assistência de Herder, a visão de Goethe se abriu para um vasto mundo novo da literatura, da poesia e das músicas folclóricas. Goethe recordava com carinho dessa época de treinamento como “dias maravilhosos, prodigiosos e felizes”.⁴


O caminho que seguimos na vida é decidido pelo fato de termos ou não a boa sorte de encontrar bons veteranos, bons amigos e bons professores.


Herder era muito rigoroso com Goethe, que possuía gratidão por ele ter corrigido sua tendência de tornar-se arrogante.


Abandonem a vaidade!

Com seus diálogos com Herder, Goethe descobriu a verdadeira natureza da Literatura. Herder era excepcionalmente exigente como professor e Goethe usufruiu da rigorosidade de seu mestre. Herder testou-o e treinou-o, censurando e criticando, quando necessário, e manifestando seu desdém. Ele conseguia ser particularmente mordaz quando detectava vaidade ou presunção na cultura de Goethe.


Somente podemos nos tornar pessoas excelentes quando dominamos nossa vaidade e presunção.


Goethe aceitava alegremente esse rigor e severidade. Seu comprometimento em acompanhar seu mestre era realmente admirável.


As pessoas notáveis criam pessoas grandiosas. Essa é a verdadeira relação de mestre e discípulo, a verdadeira amizade.


Mas sei que hoje se seus professores forem tão rigorosos como Herder vocês fugirão! [risos]


No entanto, se errarem ao escolherem a pessoa que seguirão, os resultados poderão ser trágicos. Por favor, tenham isso gravado na mente.


Criar algo de verdadeira grandeza

Uma vida displicente e mimada somente pode criar resultados displicentes e indiferentes.


Se não experimentarmos uma rigorosidade embasada na preocupação e na benevolência, não poderemos crescer no verdadeiro sentido da palavra nem realizar nossa revolução humana. E também não poderemos criar algo de verdadeira grandeza.


Goethe possuía um radiante espírito de procura. Ele fez a seguinte observação: “O caráter de uma pessoa é facilmente enfraquecido com frases [de elogio vazio] se não for temperado de tempos em tempos pela busca de uma excelência mais elevada.”⁵


A juventude ocorre apenas uma vez. O espírito de buscar um treinamento verdadeiro e pleno é o que fará com que sua vida se amplie e se fortaleça.


Goethe escolheu um mestre rigoroso de propósito.


Não podemos vencer na vida sozinhos. Não conseguimos crescer por nós mesmos. É por isso que temos as escolas e os amigos. Os seres humanos somente podem existir de forma plena em suas relações com outras pessoas.


Para Goethe, a oportunidade de passar pelo rigoroso treinamento de Herder foi uma fonte de alegria e gratidão. Ele disse: “Podia me considerar afortunado pelo fato de toda presunção, todo desejo de me envaidecer, a vaidade, o orgulho e a arrogância que estavam latentes ou ativos em mim terem sido submetidos a um teste rigoroso.”⁶


Estabelecendo as bases

Goethe criou suas bases como poeta e escritor na época de estudante, quando estava com cerca de 20 anos. Essa é uma importante época na vida, pois estabelece o curso de muitos aspectos de seu futuro. Posso verificar isso por minha própria experiência.


Por favor, não se esqueçam de que um dos objetivos de sua época de estudante e de sua juventude é estabelecer a base para o resto da vida.


Muitos anos depois, Goethe, já com 75 anos de idade, disse estas famosas palavras a um jovem que foi até ele buscar orientações sobre seu futuro: “O ponto principal é fazer um capital que não se esgote.”7 Com esse incentivo, ele direcionou o jovem ao caminho correto.


Espero que vocês analisem profundamente essas palavras.


Os jovens precisam focalizar seus objetivos com seriedade e necessitam também estabelecer uma base inabalável para poderem concretizá-los. Esse também é outro dos pensamentos de Goethe sobre a vida, conforme ele escreveu: “Devemos nos esforçar ao máximo em nossa busca intelectual.”⁸


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 1.705, 28 jun. 2003, p. A3
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Notas:

1. Mahatma Gandhi, “Jail Diary, 1922” (21 de junho), in The Collected Works of Mahatma Gandhi. Ahmedabad: Divisão de Publicações, Ministério da Informação e Difusão, Governo da Índia, 1994, vol. 23, março de 1922–maio 1924, p. 148.
2. Johann Peter Eckermann, Conversations of Goethe. John Oxenford, trad. Nova York: Da Capo Press, 1998, p. 279.
3. Johann Wolfgang von Goethe, Faust: A Tragedy. Walter Arndt, trad. Cyrus Hamlin, ed. Nova York: W. W. Norton & Company, 1976, parte II, ato V, linha 11580, p. 294.
4. Johann Wolfgang von Goethe, Wilhelm Meister’s Apprenticeship. Eric A. Blackall, trad. e ed., em cooperação com Victor Lange, in Goethe’s Collected Works, vol. 9. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1989, p. 301.
5. Eckart Kleßmann, Christiane: Goethes Geliebte und Gefährtin (Christiane: Amor e Companhia de Goethe). Zurique: Artemis & Winkler, 1992, p. 123.
6. Nicholas Boyle, Goethe: The Poet and the Age. Oxford: Clarendon Press, 2000, vol. 2, p. 695–96.
7. Kleßmann, Christiane, p. 7.
8. Ibidem, p. 93.

- Na foto principal, estátua de Johann Wolfgang von Goethe, poeta, romancista, dramaturgo e cientista alemão ajudou a fundar o movimento do romantismo em Berlim, na Alemanha.

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