Goethe, o Homem — Parte 3
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Goethe, o Homem — Parte 3

Sua nobre existência constituiu-se até o fim de batalhas, uma vida que continuou a brilhar com a radiante glória do Sol

Esta é a terceira parte de uma série especial de palestras proferidas na Universidade Soka em Tóquio, no Japão, pelo fundador da instituição, o presidente Ikeda. Esta palestra, em que ele se aprofunda na vida do grande escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), foi apresentada na Torre Central da universidade no dia 10 de março de 2003.


Dediquem-se a ajudar os outros

Pouco antes de falecer, Goethe acrescentou um verso em sua peça Fausto, uma obra-prima na qual ele trabalhou durante sessenta anos e que expressava um de seus mais ardentes desejos: “Nos campos livres encontram-se as pessoas livres.”¹ Desde jovem, Goethe acalentava o desejo de criar uma sociedade ideal.


Após ter escrito o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, aos 25 anos, Goethe aceitou um convite para realizar uma visita a Weimar, oferecido pelo duque, que posteriormente ofereceu-lhe um cargo no governo. Na condição de ministro de Estado, Goethe lançou-se à reforma do pequeno Estado de Weimar durante a década seguinte. Ele dedicava agora seu tempo a servir aos outros, assim como mais tarde descreveu em um de seus romances: “Quando o desenvolvimento [de uma pessoa] alcançou um certo estágio, é vantagem para ela perder-se num conjunto maior, aprender a viver pelos outros e esquecer-se de si própria em atividades dedicadas a outras pessoas. Somente assim passará a conhecer a si própria...”²


Naquela época, muitos cidadãos comuns sofriam com o fardo das pesadas taxas de impostos e os frequentes incêndios e enchentes. As finanças do Estado estavam em grave desordem por causa da falta de cuidado na administração. Enfrentando várias condições desafiadoras, Goethe assumiu como conselheiro particular de Weimar. Ele restabeleceu as finanças do governo com a promoção de indústrias tais como a da agricultura, da silvicultura e da mineração. Realizou obras públicas, supervisionando a construção de estradas e projetos de irrigação. Também deu incentivos à educação e ao aprendizado e introduziu um avançado sistema de previdência social. Conseguiu ainda que cada um desses projetos fosse firme e infalivelmente realizado.


Exortando a si mesmo a ter paciência e força de espírito, Goethe se devotou até o limite de sua capacidade pela felicidade e bem-estar do povo. Queria dar um exemplo aos outros, assim as pessoas também poderiam proclamar que haviam lutado e vencido, como ele.


Os justos são caluniados

Goethe fez a seguinte advertência: “Quando as pessoas se tornam realmente degradadas, seu único interesse é alegrar-se maldosamente com o infortúnio dos outros.”³ As pessoas conseguem de fato degenerar-se a esse ponto. São diversos os exemplos disso em nossa sociedade atual.


Quando jovem, Goethe discutiu o pensamento de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) com seu mestre Johann Gottfried von Herder (1744-1803). Rousseau declarou: “Tudo que, ao contrário da verdade, causar problema à justiça de alguma forma que seja, é uma mentira.”


A calúnia e a difamação são os métodos comuns para minar as pessoas dedicadas à causa da verdade e da justiça. Eu pessoalmente fui alvo desses ataques difamatórios. Todas essas investidas contra mim são falsas e nada mais são que histórias inventadas para obter lucro financeiro com seus desdobramentos. Na justiça, nós conquistamos vitórias claras e irrefutáveis em cada calúnia e difamação. Pelo fato de a Universidade Soka ser o local sagrado do aprendizado, quero tornar isso especialmente claro para todos vocês agora.


Apesar de não ter feito nada de errado, Goethe também foi alvo de caluniadores. Ele foi transferido de seu cargo de diretor do Teatro de Weimar, em que havia trabalhado tanto pelo seu desenvolvimento, por causa das intrigas desleais de uma atriz ingrata e ambiciosa. Como consequência disso, ele foi destituído de seu envolvimento com uma instituição para a qual havia devotado tanta energia e paixão.


Este padrão de intriga difamatória para derrubar as pessoas caracteriza a escuridão encontrada na sociedade em todas as épocas e lugares.


Uma companheira na vida de Goethe

Gostaria de mudar de assunto agora e passar a falar sobre o casamento de Goethe.


No mês de julho de 1788, aos 38 anos, Goethe se casou. Ele já havia conquistado uma sólida reputação como escritor e atuado como funcionário do governo por mais de uma década. Que tipo de pessoa ele escolheu para ser sua companheira de vida? Alguém sabe? [“Sim!”, respondeu uma estudante, “Uma pessoa comum”.] Está certo. Você com certeza estudou bastante!


A pessoa que Goethe escolheu não era proveniente de uma família ilustre. Tampouco havia recebido uma educação particularmente boa nem era de uma beleza estonteante. Era uma jovem de 23 anos que trabalhava em uma fábrica numa pequena vila fazendo flores artificiais.


Os dois se conheceram quando [ela]Christiane Vulpius entregou a Goethe uma petição para o irmão dela, um escritor aspirante, buscando sua assistência para conseguir-lhe um emprego. À medida que Goethe conversava com aquela jovem, ia sentindo uma forte atração por ela. Logo eles começaram a viver juntos como marido e mulher. [Eles se casaram oficialmente dezoito anos depois, em outubro de 1806.]


Christiane apoiou Goethe com sinceridade. Quando o exército de Napoleão invadiu a cidade e a vida de Goethe ficou em perigo, Christiane levantou-se com coragem para proteger o marido. [Nota do editor: Goethe foi preso pelo exército invasor francês em outubro de 1806. Christiane exigiu corajosamente sua libertação, que foi então prontamente concedida.]⁵ Ela foi uma mulher possuidora de uma incrível força interior. Esse episódio é famoso. Christiane era sempre autêntica. Prática e despretensiosa, cuidava de suas tarefas diárias com alegria e vigor.


Christiane morreu aos 51 anos, em junho de 1816. Goethe estava com 66 anos na ocasião. Ele deixou registrado em seu diário o desgosto de seu falecimento: “Ela faleceu por volta do meio-dia. Sinto um vazio e silêncio mortal dentro e fora de mim.”⁶


Uma bela vista do Reno

Aos 65 anos, Goethe visitou uma igreja onde hoje se encontra a cidade de Bingen [localizada a curta distância de Frankfurt] — de fato, muito próxima de onde fica nosso Centro Cultural de Vila Sachsen da SGI-Alemanha (SGI-D). [O centro cultural fica a meio caminho na subida da pequena montanha que fica de frente para o Reno e a igreja que Goethe visitou encontra-se no topo da montanha.]


O elegante Centro Cultural de Vila Sachsen dá vista para o Reno, que corre como que rugindo. Atrás do centro cultural há uma pequena colina que conta com uma bela vista do rio. Goethe escreveu sobre esse local em Aus einer Reise am Rhein (Uma Viagem pelo Reno), uma famosa declaração de que ele proporciona a mais bela vista do Reno. Por favor, visitem esse local algum dia.


Goethe disse esperar que o povo de Bingen protegesse a floresta montanhosa para que fosse desfrutada pelas futuras gerações e, de fato, isso aconteceu. Centralizados na Vila Sachsen, os membros da SGI-Alemanha buscaram concretizar o desejo de Goethe e trabalharam muito para preservar o meio ambiente e a herança cultural da região. O centro também sediou uma alegre comemoração dos 250 anos de nascimento de Goethe (em setembro de 1999). Esse evento foi amplamente divulgado nos jornais locais.


[Nota do editor: O Vale do Reno Médio e Alto, que engloba Bingen e as áreas ao redor, foi designado pela Unesco como patrimônio mundial].


Os últimos momentos de Goethe

Goethe morreu em março de 1832 — para ser mais preciso, às 11h30 do dia 22 de março em sua casa em Weimar, onde havia morado por muitas décadas. Ele viveu uma longa existência, falecendo com 82 anos e 7 meses — uma vida de incontáveis batalhas.


O mês de março foi particularmente frio naquele ano, porém Goethe continuou a trabalhar normalmente.


Ele pegou um resfriado por volta do dia 15 de março. Parecia ter melhorado, mas então começou a ter fortes calafrios e dores no peito. Faleceu logo depois disso, sem sofrer muito. Os médicos descreveram as causas que o levaram à morte como uma combinação de uma grave infecção no peito e falência respiratória e cardíaca.


Última despedida

Sempre disseram que as últimas palavras de Goethe foram “Mais luz!”. Na verdade, parece que ele pediu que as persianas fossem abertas para que entrasse mais luz no quarto. Meu mestre Josei Toda, o segundo presidente da Soka Gakkai, deu sua própria interpretação das palavras de Goethe. “Creio que nas últimas palavras de Goethe”, disse ele, “podemos ouvir um brado da profundeza de seu ser. Ao pedir por mais luz, ele estava manifestando seu incessante desejo de continuar a observar o mundo e a aprender com ele, de continuar a dialogar e, além disso, de continuar a dedicar sua vida e a empreender ações pelo bem do mundo”. Esta foi a conclusão de meu mestre em seus diálogos comigo.


Conversei muitas vezes sobre Goethe com o Sr. Toda. Ele sabia de meu amor pela literatura e conversávamos sobre esse tema sempre que tinha uma oportunidade.


Quando Goethe foi preparado para o funeral, colocaram uma coroa de louros em sua cabeça e milhares de pessoas vieram de todo o país para prestar suas últimas homenagens. O funeral foi realizado quatro dias após seu falecimento, em 26 de março. O grão-duque e a duquesa de Weimar participaram do cortejo fúnebre e o grande homem recebeu as despedidas de multidões de pessoas que se colocaram na beira da estrada que dava para o mausoléu do ducado. Na capela, um coro apresentou solenemente uma canção cuja letra havia sido escrita por Goethe. Um dos versos diz: “Pois são as convicções, sempre firmes, que fazem com que os seres humanos suportem por muito tempo.”⁷ Uma pessoa possuidora de fé é realmente imortal.


“Nosso espírito é indestrutível”

Goethe investigou com profundidade e seriedade o tema da morte, a maior questão que enfrentamos na vida. Isso pode ter sido o resultado de ele próprio ter sido acometido de várias doenças que ameaçaram sua vida desde a época em que era estudante. A perda dos irmãos, um após o outro, quando ele ainda era criança e a morte de sua esposa e filhos também devem ter contribuído grandemente para essa sua visão a respeito da morte.


Goethe certa vez fez esta observação: “Aos setenta e cinco, deve-se naturalmente pensar algumas vezes na morte. Mas esse pensamento nunca me causa inquietação, pois estou convicto de que nosso espírito é indestrutível e que sua atividade continua eternidade após eternidade. É como o Sol, que parece se pôr apenas para nossos olhos terrenos, mas que na realidade nunca se põe e continua a brilhar incessantemente.”⁸


Goethe pediu-nos para continuarmos a ser atuantes até que retornássemos para o universo de onde viemos.9 Suas palavras transmitem uma forte convicção na eternidade da vida e suas crenças têm muito em comum com o budismo. Goethe salientava a importância da ação e do esforço incessantes, considerando que essa persistente atividade estava diretamente ligada a nossa eternidade.⁹


Sua nobre existência constituiu-se até o fim de batalhas, uma vida que continuou a brilhar com a radiante glória do Sol. Assim foi a vida de Goethe; eu desejo o mesmo a todos vocês.


Fonte: 
Brasil Seikyo, ed. 1.706, 5 jul. 2003, p. A3
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Notas:

1. Johann Wolfgang von Goethe, Faust: A Tragedy. Walter Arndt, trad. Cyrus Hamlin, ed. Nova York: W. W. Norton & Company, 1976, parte II, ato V, linha 11580, p. 294.
2. Johann Wolfgang von Goethe, Wilhelm Meister’s Apprenticeship. Eric A. Blackall, trad. e ed., em cooperação com Victor Lange, in Goethe’s Collected Works, vol. 9. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1989, p. 301.
3. Johann Wolfgang von Goethe, Maximen und Reflexionen (Máximas e Reflexões) Frankfurt: Insel Verlag, 1976, Nº 195, p. 48.
4. Jean-Jacques Rousseau, The Reveries of the Solitary Walker. Charles E. Butterworth, trad. Nova York: New York University Press, 1979, p. 49.
5. Sigrid Damm, Christiane und Goethe. Frankfurt: Insel Verlag, 2001, p. 327.
6. Kleßmann, Christiane, p. 93.
7. Johann Wolfgang von Goethe, “Laßt fahren dahin” (Vamos Avançar). Cf. Albert Bielschowsky, The Life of Goethe. William A. Cooper, trad. New York: AMS Press, 1970, vol. 3, p. 366.
8. Eckermann, Conversations of Goethe, p. 60.
9. Briefwechsel zwischen Goethe und Zelter in den Jahren 1799 bis 1832 (Correspondência entre Goethe e Zelter dos anos de 1799 até 1832). Hans Günter Ottenberg e Edith Zehm, ed. Munique: Carl Hanser Verlag, 1991, p. 982.

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