Guerra nunca mais
  • DIÁLOGOS

Guerra nunca mais

Assegurar a proteção de todas as pessoas é o que clama a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O tema é profundamente discutido pelos escritores Austregésilo de Athayde e Daisaku Ikeda

Trecho extraído e adaptado do livro Diálogo: Direitos Humanos no Século 21, p. 85-87.1

IKEDA: Vamos dialogar agora sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, — o eterno modelo de um ideal comum a toda a humanidade. Embora tenham decorrido 45 anos [1993]2 desde a sua aprovação, os direitos humanos continuam sendo um tema de grande destaque nos dias atuais.

O senhor cumpriu uma importante tarefa na elaboração da Declaração Universal e, ainda hoje, continua exaltando sua importância. O senhor é realmente um “promotor” do espírito que se encerra nos direitos humanos.

ATHAYDE: Já houve, até agora, outras Declarações dos Direitos Humanos3 na França e nos Estados Unidos, mas a Declaração Universal dos Direitos Humanos é aquela que é aceita em qualquer país. É um documento que garante a dignidade a todas as pessoas.

IKEDA: Essa declaração é uma cristalização da vontade dos povos do mundo em busca da paz para nunca mais se repetir a tragédia da Segunda Guerra Mundial.

ATHAYDE: É exatamente isso. Até então, os povos tiveram de enfrentar, em virtude da negação sistemática e violenta dos direitos humanos, a terrível contingência de uma guerra sem paralelo na história da humanidade que trouxe sofrimentos indizíveis e sem precedentes.

IKEDA: O militarismo japonês causou um sofrimento inimaginável para a população dos países da Ásia e do Pacífico. Por outro lado, na Europa, o nazismo alemão e a Itália dominada por Mussolini4 invadiram os países vizinhos e violaram os direitos humanos. É uma história que jamais podemos esquecer.

ATHAYDE: A lição que aprendemos dessa guerra que, a exemplo do que aconteceu em Hiroshima e Nagasaki, colocou em perigo o destino da humanidade é que se deve afastar a possibilidade de utilização do poder das armas nucleares, bem como evitar de forma absoluta a eclosão de uma nova guerra. Para isso, há a necessidade de emitir um alerta para toda a humanidade. O ser humano, independentemente das leis de sua pátria, é titular de direitos que nascem da sua condição humana e, por isso, deve ter proteção universal.

IKEDA: Quando estive em Los Angeles, visitei o Centro Simon Wiesenthal5 no dia 31 de janeiro de 1993 e conheci o Museu da Tolerância,6 onde está exposto o Holocausto.7 Pude ver o portão de ferro e as câmaras de gás do campo de concentração de Auschwitz8 reconstituídos na exposição. Como o homem pode ser tão cruel com seus semelhantes? Fiquei extremamente indignado diante daquele desumano cenário e firmei ainda mais minha decisão de lutar pelo bem do futuro.

ATHAYDE: Os horrores cometidos durante a Segunda Guerra Mundial despertaram a consciência dos povos para a necessidade urgente de evitar sua repetição por meio da ampla definição dos direitos do ser humano que, de certo modo, foram colocados acima dos regimes e sistemas políticos nacionais e considerados uma emanação superior e inalienável do ser humano, inerente à racionalidade e aos valores espirituais que o caracterizam.

Temos de envidar todos os esforços para que uma história tão triste não mais se repita.

Notas:

1.   ATHAYDE, Austregésilo de; IKEDA, Daisaku. Diálogo: Direitos Humanos no Século 21. Tradução: Masato Ninomiya. 4 ed. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2018. p. 85-87.

2.   Em 10 de dezembro de 1948, a Organização das Nações Unidas (ONU) promulgou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os autores realizaram o diálogo em 1993, ano do 45o aniversário da declaração.

3.   As Declarações dos Direitos Humanos da Idade Moderna iniciaram com a Carta de Direitos da Virgínia, de 1776, elaborada durante o Movimento de Independência dos Estados Unidos, e com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, escrita durante a Revolução Francesa.

4.   Benito Mussolini (1883–1945): político italiano e líder fascista. Elegeu-se deputado em 1921 e se tornou primeiro-ministro aos 39 anos. A partir de então, comandou uma ditadura por 20 anos.

5.   Centro Simon Wiesenthal: instituição fundada em 1977 em defesa dos direitos humanos. Sua sede é em Los Angeles, nos Estados Unidos, e mantém escritórios no Canadá, na França e em Israel.

6.   Museu da Tolerância: construído pelo Centro Simon Wiesenthal com o objetivo de promover a compreensão mútua entre os povos do mundo. Sua forma de exposição é interativa e mostra a história da discriminação racial e o holocausto judeu.

7.   Holocausto: extermínio de judeus pelo nazismo alemão.

8.   Campo de Concentração de Auschwitz: maior campo de concentração construído na Polônia pelo nazismo alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Aproximadamente, quatro milhões de judeus e pessoas de outras etnias foram exterminados nas câmaras de gás ou por fuzilamento. Atualmente, é conservado como um museu para a paz mundial e está aberto à visitação pública.

 

TAGS:DIÁLOGOS

• comentários •

;