Humanismo do caminho do meio
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Humanismo do caminho do meio

Trecho extraído e adaptado da Proposta de Paz 2002, publicada na revista Terceira Civilização ed. 405, maio 2002, p. 3.

A estrutura multifacetada do humanismo do caminho do meio é descrita no ensinamento budista dos dez mundos e de sua possessão mútua. Estes expressam sucintamente a visão budista fundamental da vida e da maneira de viver. O budismo classifica nossa experiência de vida a cada momento em dez mundos.1

O ponto-chave é que esses mundos não existem como domínios separados ou isolados. Cada um compreende e contém todos os demais. Em termos concretos, mesmo que o mundo (auto)destrutivo de sofrimento absoluto conhecido como inferno tenha se manifestado na vida de um indivíduo, o potencial para os outros mundos permanece; qualquer um deles pode se tornar a condição dominante na vida dessa pessoa no momento seguinte. De tal forma, nossa condição de vida nunca é estática ou fixa, mas se transforma a cada instante sem cessar. Esse potencial inter-relacionado é conhecido como “possessão mútua” dos dez mundos.

Embora cada um dos dez mundos seja visto como uma única “moldura” enquadrando um retrato de um momento da vida, sua possessão mútua revela o continuum inquebrável da vida. Diferentes condições de vida se manifestam, voltam à latência e emergem novamente num dinamismo complexo e multifacetado. Esta é a forma como o budismo interpreta a experiência humana.

O objetivo do budismo é nos possibilitar ativar o potencial positivo que existe nas profundezas de nosso ser para vivermos de um modo autoconduzido. Nesse sentido, esse ensinamento partilha profundos laços com o ideal socrático de se esforçar sempre para “viver bem”.

Portanto, é imperativo que mantenhamos um foco claro enquanto damos continuidade à luta espiritual para despertar as forças do bem em nosso interior. Esse esforço incessante para polir nossa vida nos capacita a evitar a estagnação, a tendência de enxergar as condições presentes como fixas e imutáveis. Podemos então exercer o autodomínio requerido para reagir construtivamente aos problemas e às possibilidades únicas de cada momento.

Em outras palavras, estamos encarregados da tarefa de estabelecer, por meio do autodomínio, um mundo interior adamantino e forte, cuja luz nos possibilite experimentar a verdadeira natureza, sem disfarces, de todas as coisas e fatos.

Com base nesse reconhecimento concreto da realidade da vida, precisamos decidir como devemos viver e que tipo de mundo desejamos criar. Esse esforço representa a essência do humanismo multifacetado do caminho do meio.

Nota:

1. Os dez mundos são dez mundos distintos ou categorias de seres descritos nos sutras budistas. Do mais baixo ao mais elevado, eles são: (1) mundo do inferno; (2) mundo dos espíritos famintos; (3) mundo dos animais; (4) mundo dos asura; (5) mundo dos seres humanos; (6) mundo dos seres celestiais; (7) mundo dos ouvintes da voz; (8) mundo dos que despertaram para a causa; (9) mundo dos bodisatvas; e (10) mundo dos budas. O conceito de dez mundos pode ser interpretado como estados de vida potenciais existentes em cada ser, ou seja, dez condições ou estados de vida que toda pessoa pode manifestar ou experimentar a qualquer momento. Assim, os dez mundos correspondem, respectivamente, aos estados de: (1) inferno; (2) fome; (3) animalidade; (4) ira; (5) tranquilidade ou humanidade; (6) alegria; (7) erudição; (8) autorrealização; (9) bodisatva; e (10) buda. Cf. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin, v. I, 2020, p. 918.

 

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