Local de vidas compartilhadas
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Local de vidas compartilhadas

Trecho extraído da Proposta de Paz da edição de maio de 2020 da revista Terceira Civilização, com foco no primeiro compromisso exposto pelo Dr. Daisaku Ikeda: “não deixar ninguém para trás”.

O primeiro compromisso deve ser nunca deixar para trás os que lutam para sobreviver em situações adversas. Em anos recentes, a dimensão dos danos causados por desastres naturais se expandiu, devido a eventos climáticos extremos. Tais impactos afetam tanto os países desenvolvidos como os em desenvolvimento. No ano passado, os tufões Faxai e Hagibis atingiram diversas regiões no Japão, sendo a causa de vendavais, chuvas intensas e inundações a deixar vastas regiões do país sem água e energia elétrica, destruindo o tecido da vida diária.

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Tanto o clima como o comércio afetam de forma profunda a economia e a sociedade. Nesse sentido, acredito que a visão do presidente fundador da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi (1871–1944), estabelecida em seu trabalho Jinsei Chirigaku [Geografia da Vida Humana], de 1903, merece nossa atenção. Makiguchi comparou a natureza limitada no tempo do conflito militar com a natureza constante e duradoura nos tempos da competição econômica. A primeira, disse ele, acontece subitamente e produz um terrível sofrimento do qual estamos conscientes, enquanto a última ocorre gradualmente e sem drama, de forma a não chamar a atenção.

Makiguchi buscou ressaltar que, por conta da crueldade da guerra ser bem visível, as pessoas têm consciência clara dela e criam oportunidades para evitar um mal maior por meio de negociações ou mediações. Não é o caso da competição econômica, conduzida de forma contínua e em parte inconsciente, cujos efeitos são vistos como determinados por meio de um processo de “seleção natural”. Dessa forma, eles desaparecem no cenário da vida social, tornando-nos suscetíveis a ignorar as condições desumanas e o sofrimento que resultam deles.

Na época de Makiguchi, o mundo era assolado pelas forças do imperialismo e do colonialismo, e se considerava natural buscar prosperidade à custa de outras sociedades. Essa visão do mundo implicava aceitar que certos setores ou grupos seriam sacrificados e que a privação deles não nos afetaria. Ideia essa construída nas profundezas da sociedade como uma camada de sedimentos ou de lodo.

Dessa forma, a competição econômica da “sobrevivência do mais forte” tende a acelerar sem trégua a previsão de Makiguchi de que “em última instância, o sofrimento que ela causa é muito mais devastador (que o da guerra)”. No século 21, quando globalização e integração econômica avançaram muito além do tempo de Makiguchi, tais riscos são maiores que nunca.

Makiguchi jamais negou o valor da competição no funcionamento da sociedade, considerando que o empenho mútuo pela excelência é fonte de energia enriquecedora e de criatividade. Mas ele considerava problemática a tendência de ver o mundo exclusivamente como um local de competição pela sobrevivência, ao alicerçarmos nosso comportamento no pressuposto de que nossa vida é independente de todas as demais e na contínua negação dos efeitos de tal comportamento. A base do pensamento de Makiguchi era a consciência de que este mundo é, acima de tudo, um local de vidas compartilhadas.


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