Mahatma Gandhi —a coragem da não violência
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Mahatma Gandhi —a coragem da não violência

“O diálogo só pode ser conduzido pelos bravos”, cita o pacifista

Ensaio do presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, publicado na revista SGI Quarterly, ed. 40, abr/jun 2005.


Visitei Raj Ghat, onde Mahatma Gandhi, pai da independência da Índia, foi cremado. Naquele momento, em algum lugar um pássaro cantava. Havia uma floresta próxima e esquilos corriam entre as moitas verdejantes. O terreno era espaçoso, um verdadeiro santuário da não violência. Ofereci flores diante da plataforma de pedra negra que constitui o memorial Gandhi e inclinei minha cabeça em reverência.Refleti sobre o brilhante espírito de Gandhi ao pensar em sua incessante luta para extinguir as chamas do ódio com a água extraída das fontes puras do amor pela humanidade. Então, pensava no quanto ele estava sozinho em sua busca.


O idoso sábio ia a todos os lugares onde hindus e muçulmanos estivessem atolados em ciclos de conflito e vingança manchados de sangue. Ele clamava para que parassem com a matança. Porém, as pessoas enlouquecidas pelo ódio não o ouviam, pediam que fosse embora e chamavam suas tentativas de reconciliação de hipócritas ou coisa pior. Queriam saber de que lado Gandhi estava.


Entretanto, ele não estava de nenhum lado, e ao mesmo tempo estava dos dois lados. Para Gandhi, as pessoas eram irmãos e irmãs. Como poderia ficar quieto e ser testemunha silenciosa da matança? Ele declarou que gostaria de ser cortado em dois se este fosse o desejo das pessoas, mas não queria que a Índia fosse cortada em duas partes. Queria saber que bem traria o ódio, pois se o ódio fosse retribuído com ódio, apenas se tornaria mais enraizado e propagado. Suponha que alguém coloque fogo em sua casa e você se vingue colocando fogo na casa dessa pessoa. Logo toda a cidade ficará em chamas. Incendiar a casa de quem lhe atacou não traz de volta a sua casa. Violência não resolve nada. Represálias apenas ferem a si próprio. Mas ninguém se importava com a urgência com que Gandhi clamava para que ouvissem a razão pela qual as chamas do ódio já inflamavam a todos. Contra o solitário Gandhi, muitas pessoas lhe atiçavam chamas.


No dia 20 de janeiro de 1948 – dez dias antes de ser assassinado – uma bomba caseira foi lançada diante de Gandhi, que participava de um encontro. Esse ato terrorista foi cometido por um jovem hindu. Felizmente, a bomba errou o alvo e Gandhi sobreviveu. O jovem foi preso. No dia seguinte, vários adeptos da religião sikh foram até Gandhi e lhe asseguraram que o culpado não era sikh. Gandhi os repreendeu, dizendo que não importava se o terrorista fosse um sikh, hindu ou muçulmano, e quem quer que fosse o culpado, ele lhe desejava o bem.


Gandhi explicou que o jovem foi ensinado a pensar que ele era inimigo da causa hindu e que o ódio havia sido implantado em seu coração. O jovem acreditava no que lhe haviam ensinado e estava desesperado, tão privado de qualquer esperança que a violência parecia a única saída. Gandhi apenas sentia pena do jovem, e até mesmo pediu ao chefe de polícia que não ferisse o terrorista, mas fizesse todos os esforços para transmitir-lhe pensamentos pacifistas para que tivesse ações corretas.


Essa era sua maneira de agir sempre, pois ninguém detestava a violência mais do que Gandhi. Ao mesmo tempo, ninguém sabia mais profundamente que a violência somente pode ser contida com a não violência. Assim como o fogo é combatido pela água, o ódio só pode ser derrotado pelo amor e pela benevolência. Alguns criticaram Gandhi por proteger o terrorista e outros zombaram de sua convicção, chamando-a de sentimental e não realista, acusando-o de ter uma visão vazia. Gandhi estava sozinho.


Um amor por toda a humanidade

Muitos reverenciavam seu nome, mas poucos realmente partilhavam sua crença. Para Gandhi, a não violência significava um amor abundante por toda a humanidade, um modo de vida que emanava do âmago do seu ser. Ela tornava a vida possível; sem ela, Gandhi não poderia viver um único momento. Mas, para muitos de seus seguidores, a não violência era simplesmente uma estratégia política, uma tática para conquistar a independência da Índia.


Quanto mais sinceramente ele perseguia suas crenças religiosas, mais profundamente seu amor pela humanidade se desenvolvia. Esse amor tornava cada vez mais impossível ele ignorar as realidades políticas que moldavam a vida do povo. Ao mesmo tempo, o contato com essas realidades políticas fortalecia sua convicção de que nada era mais essencial que o amor pela humanidade que a fé religiosa pode inspirar.


Porém, isso o colocava numa posição de ser tanto denunciado pelas figuras religiosas — que viam seu envolvimento no mundo da política como guiado por ambições pessoais, — quanto pelos líderes políticos, que o consideravam ignorante e ingênuo. Como ele trilhava pelo caminho do meio, o verdadeiro caminho da humanidade que busca conciliar contradições aparentes, suas crenças e ações pareciam equivocadas para aqueles nos extremos.


O século 20 foi um século de guerras, um século no qual centenas de milhões de pessoas morreram de forma violenta. Na nova era do século 21, a humanidade deve ser conduzida pelo princípio dominante de que matar jamais pode ser aceito ou justificado, sob quaisquer circunstâncias. A menos que compreendamos isso e promovamos ampla e profundamente a ideia de que a violência jamais pode ser usada para defender as crenças de um indivíduo, não teremos aprendido nada das amargas lições do século 20.


A luta real do século 21 não será entre as civilizações nem entre as religiões, e sim entre a violência e a não violência; ou seja, entre a barbaridade e a civilização no verdadeiro sentido da palavra.


Há mais de meio século, Gandhi procurou quebrar o ciclo de violência e represália. O que nos distingue das feras, disse ele, é nosso contínuo empenho pelo desenvolvimento moral. Gandhi afirmou que a humanidade está numa encruzilhada e deve escolher entre a violência (a lei das selvas) e a não violência (a lei da humanidade).


É preciso sempre ter coragem para transformar o mal no bem. Agora é a época de cada um de nós manifestar essa coragem: a coragem da não violência, a coragem do diálogo, a coragem de ouvir o que não queremos ouvir, a coragem de refrear o desejo de vingança e de ser guiado pela razão.


A não violência é a mais elevada forma de humildade, é a suprema coragem. A essência dos ensinamentos de Gandhi era não temer. Ele pensava que “os fortes jamais são vingativos” e que o diálogo somente pode ser conduzido pelos bravos.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.394, 4 nov. 2017, p. A3
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