No ritmo do universo
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No ritmo do universo

Desenvolva uma perspectiva global neste exato momento

Eu tinha 17 anos quando a Segunda Guerra Mundial estava perto do fim. Vivia em Tóquio e minha família era forçada a passar a noite nos abrigos para se proteger dos ataques aéreos mais frequentes do que antes. Admirando as nuvens silenciosas, encontrava nelas uma envolvente expansão da tranquilidade. O universo conduzia seus eternos trabalhos, transcendendo os absurdos que ocorriam na Terra.


Certa noite, um meteoro cruzou o céu, deixando um rastro de luz azul. Fiquei profundamente comovido e imaginei como essa estrela cadente via a luta contínua neste planeta. Durante aqueles dias, a paz parecia existir somente no mundo distante das estrelas. Minha lembrança daquele “mensageiro brilhante” permanece mais vívida do que nunca.


Sempre achei que as fotos que melhor representavam o século 20 eram aquelas da Terra tiradas por astronautas a caminho da Lua. O Dr. Robert Jastrow, famoso astrônomo que atuara no desenvolvimento do Programa Apolo, presenteou-me com cópia de uma dessas fotografias durante o nosso encontro em setembro de 1993. A imagem do planeta azul contra o cenário do espaço ainda hoje me inspira.


Valentina Tereshkova, a primeira mulher a viajar no espaço, certa ocasião me disse: “É impossível descrever como é excitante ver a Terra do espaço. O planeta é azul e é excepcionalmente belo entre os outros corpos celestes. Cada continente e cada oceano possuem sua própria beleza. (...) Quando você os vê do espaço, sente uma grande saudade da Terra e percebe como ela é preciosa”.


Ampla perspectiva

Conheci outros astronautas e eles partilham da mesma opinião. Deke Slayton me disse: “Fiz parte do projeto de testes da Apollo-Soyuz, o primeiro voo espacial internacional tripulado. Levou 90 minutos para completar uma volta ao redor da Terra. É tudo o que se precisa para ver o planeta inteiro. E a Terra não possui limites visíveis, o universo faz a Terra ser uma só”.


O Dr. Gerald P. Carr, capitão da terceira missão da estação espacial orbital Skylab, em 1973-1974 declarou: “Foram as pessoas que traçaram arbitrariamente as fronteiras nacionais. O universo sem limites torna claro que vivemos na Terra como parte de uma comunidade global”.


A era espacial nos dá perfeita oportunidade de desenvolver uma perspectiva global que pode assegurar a paz mundial. É uma época em que a humanidade expandiu seus horizontes e abriu sua mente para a vastidão do universo. Sem essa perspectiva, a exploração espacial equivaleria a pouco mais do que escapar das difíceis realidades de nossa vida na Terra.


Espero que a exploração do universo inspire a nós, seres humanos, a explorar nossa própria vida interior, já que o budismo ensina que cada um é um microcosmo.


A hipótese Gaia, que afirma que a Terra como um todo é um organismo gigante, atraiu a atenção em anos recentes. Da mesma forma, o budismo ensina que todo o universo em si é um organismo vivo. O budismo e a ciência bem poderiam ser considerados um só, pois ambos buscam uma lei universal que abrange todas as existências, desde as galáxias, nebulosas e planetas até os seres humanos e microorganismos. A diferença é que a ciência depende da metodologia dedutiva e analítica. Entretanto, penso que o relacionamento entre a ciência e o budismo é complementar, em vez de contraditório.


O budismo ensina o conceito de kuu

O Dr. Carr, da missão Skylab, partilhou comigo a seguinte crença: “Costumava pensar em Deus como alguém que fez as coisas acontecerem simplesmente tocando as cordas do céu. Mas pela minha experiência no espaço, tornei-me ciente de que há uma inegável harmonia e ordem no universo. Percebi que essa ordem em si era o que chamamos de Deus. Acho que aprendi sobre o budismo no espaço”.


O astrônomo Dr. Chandra Wickramasinghe, com quem tive o privilégio de manter um diálogo, comentou: “A cosmologia, em seu presente estágio, chega muito perto da imagem budista do universo como um todo. O budismo ensina o conceito de kuu, ou latência, a estrutura hierárquica do universo e o ciclo de formação, continuação, declínio e desintegração que permeiam todas as coisas, dos corpos celestes aos átomos. Conscientizarmo-nos disso nos leva a uma correta compreensão da época em que vivemos”.


Fico impressionado pelo fato de que todas as pessoas que eu conheço cujo foco de trabalho é o espaço, seja de um ângulo científico ou pelo envolvimento na exploração espacial, lidam continuamente com um problema fundamental: como a ciência pode responder satisfatoriamente as perenes questões filosóficas e religiosas que persistem desde a aurora da civilização? São questões excitantes que vão direto ao coração da existência humana e do significado da vida — qual a origem do universo e qual será o seu fim? Por que o universo existe e qual o papel dos seres humanos?


O universo é permeado de vida inteligente

O que me desaponta, contudo, é que alguns ainda tentam traduzir a ciência em sentido estrito, como algo que produz descobertas excitantes, em vez de compreender uma explicação mais ampla, a investigação da própria vida.


Existe vida extraterrestre inteligente? Uma surpreendente maioria de especialistas espaciais que ouvi acredita que sim. O budismo também ensina que o universo é permeado de vida inteligente. Em maio de 1983, conheci o renomado autor de best-sellers de ciência, como a obra Cosmos, o falecido Carl Sagan e sua esposa, Ann. O Dr. Sagan teve um importante papel no projeto Pioneer 10, uma sonda espacial não tripulada que levava mensagens no caso de encontros com alguma inteligência extraterrestre, uma das quais era a gravação de emissões de rádio de estrelas de nêutrons (pulsares). O Dr. Sagan observou que “as emissões eram espantosamente semelhantes à gravação das batidas do meu coração”, como implicando na unicidade de macrocosmo e microcosmo.


A imensidade do universo é realmente assombrosa. Espero sinceramente que as gerações futuras sejam de cidadãos globais de mente aberta, e conduzam sua vida com uma espécie de atitude e generosidade que lhes permitam desfrutar o diálogo com as estrelas e ouvir seu coração se harmonizar com o universo, enquanto admiram o magnífico panorama do céu.


Fonte: 
Brasil Seikyo, ed. 2.413, 31 mar. 2018, pág. A3
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