O desafio de Shakyamuni pouco antes da iluminação
  • ARTIGOS

O desafio de Shakyamuni pouco antes da iluminação

Extraído da obra Nova Revolução Humana, volume 3, capítulo “O Buda”.

Shakyamuni prosseguiu sua meditação sob a árvore Bodhi.

Kenichiro Uchida

Segundo os textos budistas, nessa ocasião, os demônios começaram a tentá-lo. Numa descrição, por exemplo, um demônio tentou influenciar Shakyamuni sussurrando-lhe suavemente: “Veja como está magro, como seu rosto está pálido. Com certeza deve estar à beira da morte. Se continuar sentado aqui desse jeito, será um milagre sobreviver”.

Depois de apontar o perigo que ele estava correndo e insistir fortemente para que vivesse, o demônio tentou persuadir Shakyamuni a seguir os ensinamentos do bramanismo, e que poderia acumular benefícios grandiosos sem ter de passar por tais sofrimentos. Os esforços de Shakyamuni para atingir a iluminação não tinham sentido, declarou o demônio.


A dúvida assaltava Shakyamuni, esfacelando sua paz interior e tumultuando sua mente. Com o corpo extremamente fraco e sua resistência física praticamente esgotada, o pavor da morte deve ter crescido em seu coração. O tormento mental de Shakyamuni era ainda maior, pois, percebendo que não ganhara nada com as austeridades intensas a que havia se submetido, começou a duvidar e a temer que seus esforços para atingir a iluminação no fim também se mostrassem inúteis.

Algumas vezes, os demônios assumem a forma de apegos a desejos mundanos, ou da manifestação física da fome ou do sono. Outras vezes eles torturam a mente da pessoa com ansiedade, medo e dúvida.

Sempre que as pessoas são desencaminhadas por essas funções demoníacas, invariavelmente justificam suas falhas de algum modo. Além disso, elas se convencem de que seus pretextos são perfeitamente razoáveis e naturais.


Na maior parte das vezes, as funções demoníacas levam as pessoas a se agarrar a alguma conclusão aparentemente sensata que justifique suas fraquezas e necessidades emocionais. Nichiren Daishonin adverte sobre o fato citando estas palavras: “O demônio zelará por ele como um pai”.

Shakyamuni, porém, enxergou a real natureza dessas funções demoníacas e reuniu uma poderosa energia vital, afastando todos os pensamentos geradores de confusão que importunavam sua mente.

Desse modo, ele despertou para a natureza eterna da vida, que se estende pelo passado, presente e futuro. Naquele instante, todos os medos e dúvidas fortemente sedimentados nas profundezas de sua vida desde o nascimento evaporaram.


Durante um tempo, Shakyamuni simplesmente deleitou-se com o sabor de ter despertado para a verdade —, a Lei fundamental da vida e do universo — mas logo começou a se sentir cada vez mais aflito. Enfrentava um dilema: deveria pregar essa Lei aos outros ou permanecer em silêncio? Sentado à sombra da árvore Bodhi, torturou-se por vários dias com tal dúvida. Ninguém jamais ouvira falar, muito menos explanado, essa Lei magnificente e inigualável. Havia uma lacuna imensa entre o reino resplandecente do interior de seu ser e o mundo real externo.

Shakyamuni se sentiu completamente só. Era a solidão dos seres genuinamente iluminados, algo que somente aqueles, e ninguém mais, que obtiveram a compreensão de um profundo princípio, conhecem.


Kenichiro Uchida

Shakyamuni não conseguia conter esse surto de dúvida e hesitação diante da ideia de seguir em frente e disseminar a Lei. A decisão sobre o que fazer o mortificava. As funções demoníacas continuaram, portanto, a afligir Shakyamuni, mesmo após ele ter se tornado buda. Elas competiam entre si para atacá-lo por mínima brecha que encontrassem em seu coração.

Um buda não é sobre-humano. Aquele que alcança esse estado continua a vivenciar problemas, sofrimentos e dor, e ainda está sujeito a doenças e a ser tentado pelas forças demoníacas. Por essa razão, buda é uma pessoa dotada de coragem, tenacidade e ação constante, que luta incessantemente contra elas.


Por mais elevado que seja o estado alcançado por nós, sem esforços persistentes para avançar e nos aprimorar, nossa fé pode ser destruída num instante.

“Seguirei adiante!”, decidira Shakyamuni peremptoriamente. “Aqueles que buscam aprender, com certeza ouvirão. Aqueles com poucas impurezas compreenderão. Sairei em meio às pessoas, tão envoltas pela desilusão e ignorância!”

Uma vez tomada a decisão, sentiu uma nova onda de energia fluir dentro dele. Nesse momento, o grande leão se levantou pela felicidade da humanidade.



Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.346, 05 nov. 2016, p. C4

TAGS:ARTIGOS

• comentários •

;