O hábito de aprender
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O hábito de aprender

“Conhecimento é luz; ignorância, escuridão”

Discurso do presidente Ikeda, adaptado de um ensaio compilado como Kokoro no Shiki [Estações do Coração], publicado em japonês em maio de 1993.


Há um ditado russo que afirma: “Conhecimento é luz; ignorância, escuridão”. É claro que “conhecimento” não se refere a apenas cursar uma universidade. Em sentido mais amplo, conhecimento significa autoaprimoramento, enquanto ignorância indica estagnação. O espírito de aprender conduz à paz, ao progresso e à prosperidade, ao passo que a ignorância leva à miséria, ao infortúnio e ao empobrecimento.


Durante a juventude, estudava e trabalhava ao mesmo tempo. Por volta de 1950, quando os negócios do Sr. Toda enfrentavam sérios problemas, foi o período mais difícil para mim, pois minha saúde estava ruim. Entretanto, nunca me senti infeliz. Por passar os dias trabalhando ao lado da pessoa a quem havia escolhido como mestre, não tinha absolutamente nada a lamentar. Minha única frustração era não poder estudar quanto desejava.


Como se lesse meus pensamentos, o Sr. Toda me disse: “Não se preocupe. Vou lhe ensinar tudo o que aprenderia numa universidade. Só tenha paciência. Deixe sua educação por minha conta”.


A partir dessa época, passava todos os domingos na casa do Sr. Toda recebendo instrução pessoal dele. Com sua abrangente erudição acadêmica, que abarcava administração, economia, literatura, física, astronomia e outras áreas científicas, ele se tornou um professor particular perfeito, transmitindo a mim todo o conhecimento que havia adquirido em sua existência.


Com o tempo, além dos domingos, as aulas se expandiram para as manhãs dos dias úteis, antes do horário de trabalho. As aulas do Sr. Toda eram extremamente puxadas. Por meio desse treinamento do meu mestre em meio a árduas batalhas, construí a base para a minha vida.


O Sr. Toda estava sempre estudando. Duas semanas antes de morrer, ele me perguntou com rigorosidade o que eu estava lendo, e acrescentou: “Nunca se esqueça de continuar se dedicando à leitura. Estou agora no volume 3 do [clássico chinês da antiguidade] Compêndio de Dezoito Histórias”. Na ocasião, ele estava fraco ao extremo, a ponto de não conseguir mais ficar de pé e andar sem ajuda. A sonoridade intensa de sua voz, contudo, ainda reverbera em meus ouvidos.


Aqueles que continuam lendo, que se mantêm ativos e dedicados, permanecem eternamente jovens. Vidas que continuam se aperfeiçoando são como a água de um rio que flui incessantemente, sempre pura e cristalina.


Dentre as muitas pessoas com quem me encontrei, o eminente historiador britânico Arnold J. Toynbee (1889–1975), com sua devoção inabalável ao aprendizado, foi quem me impressionou de forma mais profunda.


Depois de repetidos convites do Dr. Toynbee, tive a oportunidade de me encontrar e dialogar com ele por um total de 40 horas, ao longo de dez dias em 1972 e 1973. O conteúdo de nosso diálogo foi publicado em 1975. A partir de então, foi traduzido para o inglês, sob o título Choose Life, [em português, Escolha a Vida], bem como para o francês, o alemão e muitos outros idiomas, tendo uma recepção muito positiva no mundo todo. Fico feliz pelo resultado, e espero que isso sirva para retribuir, um pouco que seja, a sinceridade do Dr. Toynbee, que reservou tempo para dedicar aquelas longas conversas comigo, uma pessoa muitos anos mais nova que ele.


No ano em que nosso diálogo terminou, o Dr. Toynbee foi acometido de uma doença incapacitante. Infelizmen­te a perspectiva de melhora não era animadora, e parece que ele nunca mais recuperou plenamente suas faculdades. Numa carta que recebi da esposa dele, Veronica, ela escreveu que, mesmo naquela condição, o marido lhe pedia livros e, embora fosse improvável que pudesse de fato ler, ele virava as páginas como se conseguisse fazê-lo.


Fiquei profundamente comovido ao ler isso. Mesmo quando a doença o privou do pleno uso dos sentidos, os dedicados esforços do Dr. Toynbee em pesquisas acadêmicas haviam se tornado uma expressão da sua própria vida, sempre buscando aprender e querendo se elevar. Sinto que ele foi o exemplo de um grande indivíduo, que mereceu totalmente o reconhecimento que obteve, apontado como um dos principais pensadores do século 20.


É fácil falar da boca para fora sobre a importância de aprender durante a vida toda. Com a ascensão do Japão como superpotência econômica, a população tem mais tempo livre. Os japoneses se dedicam a ampla gama de hobbies. Todavia, o simples fato de ter tempo e frequentar aulas não garante a aquisição de riqueza interior. O ponto essencial é se a pessoa possui o desejo ardente de se aprimorar e crescer.


O Dr. Toynbee mantinha livros ao lado dele mesmo quando estava acamado. Aprender se tornou um bom hábito para ele. Aqueles que desenvolvem esse hábito durante a juventude são afortunados.


No ambiente de trabalho e em casa, bem como nos eventos da vida cotidiana, sempre podemos encontrar oportunidades preciosas para aprender. Há aqueles que aproveitam 5 minutos livres para ler um jornal, abrir um livro, ouvir notícias ou obter algo positivo de um encontro com outra pessoa. Mesmo ocupados, conseguem transformar até essa correria em aprendizagem. A indolência é o primeiro passo para a estagnação. Vivamos uma existência nutrida pela rica fonte da vontade de buscar o autoaperfeiçoamento, mantendo vivo o interesse e a curiosidade em relação a tudo.




Fonte:


Brasil Seikyo, ed. 2333, 23 jul. 2016 - Encontro com o mestre


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