Respeito à vida humana
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Respeito à vida humana

Dr. Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional e o Dr. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, astrônomo, dialogam sobre o budismo e a astronomia. Eles abordam a relação de mestre e discípulo e o ciclo de vida e morte que rege todos os fenômenos universais. Este diálogo surgiu o livro Astronomia e Budismo, apresentam visões diferentes e, ao mesmo tempo, convergentes do papel dos seres humanos no futuro da Terra, tendo, ambos a preocupação pelo futuro da humanidade. Apostam nos jovens como agentes modificadores do rumo da humanidade e na apreciação do Universo como um dos fatores para a mudança do pensar humano. Apesar do enfoque do diálogo ser astronomia e budismo, ele transita pela economia, política, ética, humanidade, família, futuro e esperança.


Ikeda: A concepção budista do universo evolui ainda para a visão de um macrocosmo denominado “três mil grandes mundos”. De acordo com essa visão, mil mundos centrados no Monte Sumeru formam o “pequeno mundo”, mil destes resultam no “médio mundo”, e mil destes criam o “grande mundo”. Portanto, 1.0003 ou um bilhão de mundos do Monte Sumeru formam o universo chamado “três mil grandes mundos”. Não poderíamos dizer que essa concepção se assemelha com a atual astronomia que classifica as estrelas em constelações, galáxias, aglomerados de galáxias e superaglomerados de galáxias?

Mourão: Existe realmente uma grande semelhança. É uma fantastica­men­te bela e, sobretudo, filosófica visão do universo. Esse princípio budista de “três mil grandes mundos” parece-me fascinante, embora não possa compreendê-lo de imediato.

Ikeda: Essa teoria oferece também uma diversificada visão do universo. Por exemplo, não considera nosso planeta habitado pelos seres humanos como o único nem posiciona o mundo das divindades como absoluto.

Mourão: Existe uma teoria segundo a qual os processos físicos foram puramente casuais ao darem origem ao nosso universo. Parece que os universos estão sendo permanentemente criados, o que aumenta a proba­bilidade estatística do aparecimento de universos análogos ao nosso. É a ideia do “multiverso”, que vem seduzindo os meios científicos. De fato, nos últimos anos, vem crescendo a hipótese do universo inflacionário, no qual a matéria e a energia surgem do nada e, mais recentemente, a concepção de “universos múltiplos”, que, com o correr do tempo, criam outros universos independentes entre si e incapazes de se comunicar uns com os outros por toda a eternidade. Hoje, um número cada vez maior de cientistas aceita a noção de “multiverso”, porque esse modelo explica as condições favoráveis à vida sem recorrer ao sobrenatural.

Ikeda: Entendo. Por essa ideia, podemos pensar na existência de um universo semelhante ao nosso, habitado por seres vivos. Sinto que a teoria dos “três mil grandes mundos” possa ser considerada uma dessas diversificadas ideias sobre o universo. (...) O budismo considera ainda cada um dos três mil grandes mundos como “terra do buda”, isto é, onde o budismo é propagado para a paz social e para a felicidade de seus habitantes. A “terra do buda” não é um mundo irreal existente em um lugar imaginário.

Mourão: Então, a “terra do buda” não é como um paraíso distante do mundo real cujo reino está submisso à soberania do buda. Em cada uma dessas terras existem dificuldades e sofrimentos como também esforços concretos para superá-los. Ao ler seu livro Vida, um Enigma, uma Joia Preciosa, observei atentamente sua preciosa e poética colocação sobre a vida e o seu surgimento. Permita-me citar um trecho como ilustração da nossa discussão sobre a vida e o universo.

Ikeda: Sinto-me lisonjeado com a sua consideração. Esse livro, publicado há mais de trinta anos, é uma discussão com os jovens doutores de medicina sobre a vida do ponto de vista budista com o propósito de traçar um paralelo com o mais avançado conhecimento científico da época. Por considerarmos que o respeito absoluto à dignidade da vida deveria tornar-se a base fundamental de toda a conjuntura do século 21, essa discussão foi uma tentativa de sinalizar e fazer da nova centúria o “Século da Vida”.

Mourão: De toda forma, o contexto desse livro é muito atual. Veja, por exemplo, o seguinte trecho: “A vida é o ciclo do nitrogênio: de microscópicos parasitas que retiram energia das raízes dos vegetais, fixando o nitrogênio atmosférico e convertendo-o em elementos nutritivos. A vida é o desabrochar das flores na primavera, o amadurecimento do fruto no outono, o ritmo da terra e da natureza. É o estrídulo das cigarras anunciando o verão. São a revoada dos pássaros migratórios num transparente céu outonal, peixes nadando ao sabor da corrente. É a alegria que a bela música nos desperta, a emocionante visão de um pico de montanha avermelhado pelo sol nascente, as miríades combinações e permutas dos visíveis e invisíveis fenômenos. A vida são todas as coisas”. Podemos dizer Dr. Ikeda, de um modo genuíno, que isso é o que chamamos vida.

Ikeda: Conforme referidos nessa citação, os aspectos da vida são realmente muito diversificados. São transformações que ocorrem com muito dinamismo. Existe o microcosmo, tal como dos microcorpos, e também o macrocosmo como o universo dos corpos celestes. Os aspectos e as transformações de todos os fenômenos são expressões da verdade da vida.

Mourão: Em especial, a explosão de uma estrela é um espetáculo fantástico. Uma estrela explode e, no fim do seu ciclo de existência, ela derrama no universo os elementos que vão formar novas estrelas, planetas e seres vivos.

Ikeda: O corpo humano, na sua origem, foi formado pelos elementos contidos nas partículas das estrelas que se espalharam pelo universo. A explosão de uma estrela é a expressão do drama do universo que cumpre a importante tarefa criativa da vida.

Mourão: Contudo, esse conhecimento é relativamente recente. A mais notável explosão ocorreu há quase mil anos. Em 4 de julho de 1054, os astrônomos chineses registraram o aparecimento de uma estrela brilhante na constelação de Touro. O novo astro brilhou durante vários dias e depois desapareceu.


A continuação desse diálogo será publicado posteriormente.

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No livro Astronomia e Budismo, Ronaldo Mourão e Daisaku Ikeda, um astrônomo e outro budista, apresentam visões diferentes e, ao mesmo tempo, convergentes do papel dos seres humanos no futuro da Terra, tendo, ambos a preocupação pelo futuro da humanidade. Apostam nos jovens como agentes modificadores do rumo da humanidade e na apreciação do Universo como um dos fatores para a mudança do pensar humano.

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