Respeito à vida humana (Parte 2)
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Respeito à vida humana (Parte 2)

Este é o segundo extrato do diálogo entre o Dr. Daisaku Ikeda e o Dr. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão do livro Astronomia e Budismo. 


Ikeda: De acordo com os registros, a nova estrela brilhou durante cerca de dois anos. Nos primeiros vinte e três dias, era possível contemplá-la inclusive à luz do dia. O surgimento repentino de uma estrela muito brilhante foi provavelmente um fenômeno assustador para as pessoas dessa antiga época. Cem anos depois, o poeta japonês Teike Fujiwara citou o surgimento dessa estrela em seu diário. Há também um desenho dessa época que descreve o céu norte-americano, no qual é retratado um astro ao lado da Lua crescente. Supõe-se que esse astro seja a nova estrela, uma vez que a Lua se encontrava na posição da constelação de Touro no alvorecer do dia 5 de julho de 1054.

Mourão: Isso é bem possível. Na era pré-telescópica, tudo o que os chineses puderam fazer foi anotar a visão da nova estrela e sua posição no céu. O que era aquele novo astro? Isso estava além da capacidade de observação a olho nu. Com a invenção do telescópio, os astrônomos do século XIX descobriram uma nuvem de gases no ponto exato onde os chineses tinham visto a nova estrela em 1054. Ficamos sabendo que uma estrela tinha explodido naquele local, criando uma nebulosa, a de Caranguejo. Essas explosões estrelares passou a ser chamadas supernovas.

Ikeda: O primeiro registro da nebulosa de Caranguejo foi feito pelo astrônomo francês Charles Messier no início do século XVIII. Ele foi um pesquisador de cometas e se tornou conhecido pela catalogação de constelações e nebulosas que se assemelhavam a cometas, listando inclusive as galáxias. No seu catálogo, denominou essa nebulosa Messier-1, ou simplesmente M-1. É a primeira nebulosa registrada pelo ser humano.

Mourão: Suas informações estão corretas. No século 20, com a radioastronomia, foram captadas as emissões de rádio do pulsar de Caranguejo, batizadas de PSO532. Era o núcleo da estrela que explodiu oculto dentro da nuvem de gases da nebulosa. Uma estrela de nêutrons com menos de vinte quilômetros de largura, girando em torno de seu eixo com uma velocidade tão grande que dá trinta voltas completas em um segundo. Com jatos de energia escapando de seus polos e varrendo o céu como os fachos de um farol cósmico. O coração da estrela destruída.

Ikeda: A expressão “coração da estrela destruída” é muito interessante. Com relação às emissões de rádio pela estrela de nêutrons, o Dr. Anatoli Logunov, ex-reitor da Universidade Estatal de Moscou, contou-me também um interessante episódio. Segundo ele, a Inglaterra manteve em segredo a descoberta desse fenômeno em 1967 por acreditar que se tratava de comunicação emitida por extraterrestres. Na época, a fonte dessa comunicação foi denominada “anão verde”. Tal como nessa descoberta, há muitos outros dramas decorrentes dos fenômenos do universo.

Mourão: O aparecimento da vida, ou melhor, o seu desabrochar, sim, o desabrochar como uma flor, é uma necessidade imperiosa da razão que rege a matéria-energia cósmica existente no universo. Como já disse anteriormente, o universo está constantemente criando vida. Ele é um eterno celeiro de vida. Prova disso é a existência desse infinito cosmos, milhões de galáxias, bilhões e bilhões de planetas, sem falar do magnífico ritmo da vida na Terra. Tudo isso é prova real da inclinação natural do universo a ser um formador da vida que vemos, vivemos e sentimos, e a prova mais sensacional que posso exprimir. E é exatamente isso que o senhor expõe na sua obra Vida, um Enigma, uma Jóia Preciosa.

Ikeda: O universo é um “eterno celeiro de vida” — é uma expressão que se liga ao budismo. O universo transforma - se continuamente a todo o momento. Não há nada que permaneça imutável. Quando se investiga o universo, descobre-se seu ritmo e seu ciclo. E é no processo de contínuas mutações que a vida desabrocha de forma diversificada. O nascimento e a morte e seu ciclo contínuo é o aspecto real do universo.

Mourão: É verdade. Concordo com o senhor.

Ikeda: O budismo expõe sobre o ritmo das mutações do mundo fenomenal de várias formas. Um de seus princípios explica que um mundo ou o universo passa por quatro estágios (ou quatro kalpa) de transformação: formação, duração, declínio e desintegração. Tudo no universo passa repetidamente por estes quatro estágios. De acordo com a antiga tradição indiana, o kalpa designa um período de tempo extremamente longo. O kalpa da formação refere-se ao período de nascimento e de evoluções de um mundo, e o da duração é o estágio de sua estabilização. O budismo expõe que durante estes dois estágios pode ocorrer a formação de um “lugar” ou de um “solo” para abrigar os seres viventes. Depois vêm os períodos do declínio e da desintegração. Este último não é, porém, o fim desse mundo — é o período em que o potencial de formação de um novo mundo permanece em latência. Por essa razão, depois do kalpa da desintegração, dele surge novamente o kalpa da formação de um novo mundo.

Mourão: Podemos dizer, então, que essa “desintegração” é na verdade o estágio em que o universo cria estrelas e vidas. Acredito que a vida está dispersa no universo sob a forma de uma “poeira vital”, capaz de gerar vida em qualquer ponto em que as condições sejam favoráveis ao seu aparecimento.

Ikeda: O princípio budista de quatro estágios pode ser aplicado às estrelas e às galáxias. No caso do sistema solar, podemos dizer que o Sol se encontra no kalpa da duração. E como um planeta desse sistema surgiu a Terra para servir de “lugar” ou “solo” para abrigar os seres vivos. No decorrer de sua evolução, surgiu o homem como animal racional e dotado de inteligência.

Mourão: Essa perspectiva budista é interessante e certamente muito profunda. A inteligência é uma das consequências da evolução e da complexidade que a vida assume ao se desenvolver. Esse mecanismo evolutivo não é obra do acaso: a vida e a mente humana, como as conhecemos, são formas de manifestações naturais da matéria que está presente em todo o universo como uma poeira, segundo o bioquímico belga Christian René de Duve, Prêmio Nobel de Medicina.


A continuação desse diálogo será publicado posteriormente.
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Leia mais:

No livro Astronomia e Budismo, Ronaldo Mourão e Daisaku Ikeda, um astrônomo e outro budista, apresentam visões diferentes e, ao mesmo tempo, convergentes do papel dos seres humanos no futuro da Terra, tendo, ambos a preocupação pelo futuro da humanidade. Apostam nos jovens como agentes modificadores do rumo da humanidade e na apreciação do Universo como um dos fatores para a mudança do pensar humano.

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