Respeito à vida humana (Parte 3)
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Respeito à vida humana (Parte 3)

Este é o terceiro e último extrato do diálogo entre o Dr. Daisaku Ikeda e o Dr. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão do livro Astronomia e Budismo.


Ikeda: O cérebro humano é formado por cerca de quatro bilhões de células nervosas. A rede constituída por essas células chega a uma astronômica quantidade de combinações: dez elevado à potência dez mil. O corpo humano, apesar de sua complexidade, realiza suas atividades em harmonia com o ritmo do universo. É um microcosmo que está em consonância com o macrocosmo. A vida humana é provavelmente a mais complexa do universo e ela abarca todas as regras e leis universais.

Mourão: Pascal percebeu a força do pensamento e da inteligência do ser humano e o denominou brilhantemente “caniço pensante” pela sua capacidade de mover o universo. Ele teve a incrível capacidade de perceber naquela época, ainda tão obscura e fortemente dominada pelo dogmatismo religioso, que o ser humano, aparentemente tão frágil e íntimo, tem duas grandes forças: a positiva, que é responsável pela construção de uma civilização e de um mundo pacífico e harmonioso, e a negativa, a terrível força capaz de destruir toda a Terra e até mesmo causar pesados danos ao universo. Espero que um dia esse potencialsempre seja utilizado de modo positivo, de modo criativo, fecundo e feliz.

Ikeda: Concordo plenamente com o senhor. O progresso científico deve ser o reflexo da inteligência e da sabedoria humana de criar valores para uma vida de melhor qualidade. Devemos conhecer muito mais sobre o universo e acatar suas leis com rigor e humildade. Quero bradar bem alto: “Contemplem e conheçam o universo! Estudem e respeitem a vida! Aí encontrarão uma inesgotável fonte espiritual!”. A própria trajetória da sua vida demonstra o brilho da unicidade de mestre e discípulo. Sinto realmente que as virtudes do Dr. Silvan Arend e outros mestres estão cristalizadas no seu renome como magnicente cientista.

Mourão: Creio que meus mestres estão muito felizes com suas considerações. Nessa relação de mestre e discípulo, o que me impressionou muito é o relacionamento entre o senhor e seu mestre, Josei Toda.

Ikeda: Sinto-me muito lisonjeado. Suas palavras são especialmente honrosas por virem do renomado cientista. No dia 14 de agosto [2007] completa-se sessenta anos desde meu primeiro encontro com o Sr. Toda. A pedido dele interrompi os estudos para apoiá-lo nos empreendimentos. Contudo, tive-o como professor particular e suas aulas abrangeram todas as áreas das ciências, inclusive a astronomia.

Mourão: Lendo e conhecendo a trajetória de sua vida, soube que o senhor estava condenado a morrer próximo dos 30 anos devido a uma tuberculose. Contudo, conhece uma pujante filosofia de vida e mais um grandioso mestre e, alicerçado por essas duas poderosíssimas bases, constrói uma organização gigantesca voltada à paz, cultura e educação. O senhor é a própria comprovação, o testemunho vivo do grande potencial inato do ser humano.

Ikeda: O Sr. Toda e seu mestre Makiguti foram presos em consequência da perseguição do regime militar do período da Segunda Guerra Mundial. O Sr. Makiguti morreu na prisão e seu discípulo Toda saiu com vida. Em uma cerimônia em memória do seu mestre, o Sr. Toda disse: “Sua imensa e grandiosa benevolência fez com que eu o acompanhasse na prisão. E foi na solitária que pude ler e compreender com a própria vida a essência do Sutra de Lótus. Esta vivência é realmente uma felicidade incomparável”.

Mourão: Fico muito admirado com o fato de o senhor se referir a seu mestre com frequência incomum. Isso aconteceu também na cerimônia em que o senhor foi homenageado com o título de “Doutor Honoris Causa”, pela Academia Brasileira de Filosofia, na qual tive o privilégio de estar presente. Creio que o senhor está ensinando como ser constantemente um digno discípulo que enobrece seu mestre. O potencial inato do ser humano floresce de forma muito mais vigorosa por meio da unicidade de mestre e discípulo. Considero-a mais correta órbita que deve ser percorrida por todas as pessoas.

Ikeda: A solene conscientização do discípulo faz emergir ilimitada força, esperança e sabedoria. É essa órbita da vitória da inseparável unicidade de mestre e discípulo que é exposta no budismo.

Mourão: Na escola, por exemplo, o aluno de hoje poderá ser o professor de amanhã. Na família acontece o mesmo. Os filhos de hoje serão adultos e pais no futuro. Todos cumprirão funções próprias e insubstituíveis. O budismo expõe que os seres humanos e todos os fenômenos estão inter-relacionados e ligados pela lei da simultaneidade da causa e efeito. Tudo segue o processo de causa produzindo efeitos. Este é um ensinamento básico do budismo.

Ikeda: Em meio à luta pela não violência, Martin Luther King afirmou que a coragem e a covardia se opõem uma à outra. Ele disse também que a coragem é a força da decisão de avançar independentemente das adversidades e obstáculos que surjam, enquanto a covardia é render-se e submeter-se às circunstâncias. Seu brado conclusivo foi de que devemos construir ininterruptamente o dique de defesa chamado coragem para barrar a inundação do medo.

Mourão: O senhor ensinou-me o pensamento de que é possível mudar o mundo a partir da revolução humana de um único indivíduo, estou disposto a lutar por esse pensamento juntamente com o senhor.

Ikeda: Com essa coragem, eu é que desejo juntar as minhas mãos às suas para agir e dialogar muito mais para o bem do futuro, para o bem dos jovens e para o bem da humanidade.  
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Leia mais:

No livro Astronomia e Budismo, Ronaldo Mourão e Daisaku Ikeda, um astrônomo e outro budista, apresentam visões diferentes e, ao mesmo tempo, convergentes do papel dos seres humanos no futuro da Terra, tendo, ambos a preocupação pelo futuro da humanidade. Apostam nos jovens como agentes modificadores do rumo da humanidade e na apreciação do Universo como um dos fatores para a mudança do pensar humano.

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