Superando a divisão e a xenofobia
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Superando a divisão e a xenofobia

Como a ONU aponta, é crucial procurar meios para combater o impulso à xenofobia e reumanizar o discurso em torno das populações de migrantes e refugiados

Texto com base na Proposta de Paz 2017 intitulada A Solidariedade Mundial dos Jovens: O Alvorecer de uma Nova Era de Esperança. Nela, o autor, Daisaku Ikeda, salienta o desejo de distinguir o papel dos jovens e refletir sobre a construção das sociedades pacíficas, justas e inclusivas, como as previstas nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Ele cita que para isso, um dos desafios é assentar as bases para sociedades nas quais a divisão e a desigualdade sejam superadas. Confira!


Rápido avanço da globalização


Cada vez mais pessoas estão vivendo em países fora do seu local de nascimento. Desde o início do século 21, houve um aumento de 40% dessas pessoas, que hoje já atinge 244 milhões.1 Com a contínua estagnação da economia global, os impulsos xenofóbicos se fortaleceram, criando condições cada vez mais difíceis para os migrantes e suas famílias.


Em conjunto com a Assembleia Geral das Nações Unidas sobre Refugiados e Migrantes em setembro passado, foi lançada uma nova campanha para atender e transformar as angústias associadas ao crescente trânsito internacional de pessoas.


É evidente que qualquer tentativa de resolver tais questões deve levar em conta as preocupações legítimas de pessoas que vivem em países que recebem migrantes e refugiados. Como a Organização das Nações Unidas (ONU) aponta nesta campanha, é crucial procurar meios para combater o impulso à xenofobia e reumanizar o discurso em torno das populações de migrantes e refugiados enquanto abordamos essas questões.


Preparem-se para a paz

Quando eu me encontrei com o ex-chanceler austríaco Franz Vranitzky em outubro de 1989, discutimos a importância dos intercâmbios culturais e dos jovens e ele enfatizou que “é a distância do coração que mais importa, mais do que a distância medida em número de horas de viagem de avião”.2 Ele também me contou a história de como seus pais abrigaram um casal judeu que fugia da perseguição durante a Segunda Guerra Mundial.


Numa época de grande pressão, seus pais agiram de forma coerente e humana, sem fazer qualquer distinção com base na religião ou etnia. Refletindo sobre esta experiência de guerra, o ex-chanceler concluiu: "Há uma máxima latina que diz 'Quer paz, prepare-se para a guerra'. Mas fiz a seguinte substituição que fundamenta minhas ações: 'Quer paz, prepare-se para a paz'.3


Nosso encontro aconteceu apenas um mês antes da queda do Muro de Berlim. Em fevereiro daquele ano, o chanceler Vranitzky concordou em remover o arame farpado ao longo da fronteira entre Áustria e Hungria, abrindo oficialmente o caminho para a circulação de pessoas do Leste para o Bloco Ocidental que começou em setembro e levou à queda do Muro de Berlim em novembro.


Os setores mais vulneráveis da sociedade

Analisando o mundo atual, cabe dizer que outra questão pode surgir da mesma profunda motivação da xenofobia. Trata-se da crescente tendência de priorizar a racionalidade econômica baseada, acima de tudo, no mercado. Percebe-se esta tendência em muitos países que estão lutando contra a estagnação econômica. Os impactos negativos recaem severamente sobre os setores mais vulneráveis da sociedade, cujas circunstâncias se tornam cada vez mais dramáticas.


 Conselho dos pesquisadores do Instituto Toda para a Paz Global e Pesquisa Política (Turquia, ago. 2014)

Quando a priorização da racionalidade econômica se enraíza, mesmo os julgamentos mais significativos são feitos de forma quase mecânica, com pouca consideração aos desejos e ao bem-estar das pessoas que realmente vivem na sociedade.


O pensamento xenófobo é impulsionado por rígida divisão do mundo entre o bem e o mal. Não deixa espaço para dúvidas ou hesitação. Da mesma maneira, quando a busca pela racionalidade econômica não tem o contrapeso da consideração pelo fator humano, uma psicologia pronta para extrair até mesmo os sacrifícios mais extremos dos outros é desencadeada.


Um mundo dividido

A xenofobia e o discurso de ódio dividem o mundo em dois, nós e eles, que existem para corresponder ao bem e ao mal. Que tipo de ancoragem social nós temos para resistir às forças da xenofobia que aprofundam as divisões dentro da sociedade e à racionalidade econômica que é indiferente aos sacrifícios dos que são vulneráveis? Creio que a resposta está na forte ligação entre as pessoas, a força da amizade que traz à tona a imagem concreta do outro em nosso coração.


Cito o renomado historiador britânico Arnold J. Toynbee (1889–1975), com quem tive um longo diálogo: "Sei por experiência que o preconceito tradicional se dissolve com o conhecimento pessoal. Quando alguém conhece pessoalmente outro ser humano, independentemente de religião, raça ou nacionalidade, não pode deixar de reconhecer que essa pessoa também é humana assim como ele próprio".4


Estabelecer novas bases de vida

As condições que os imigrantes enfrentam surgiram em meus diálogos com dois estudiosos americanos, Dr. Larry Hickman e Dr. Jim Garrison, ambos ex-presidentes da Sociedade John Dewey. Discutimos o ativismo social pioneiro realizado por Jane Addams (1860–1935) nos Estados Unidos por volta da virada do século 20.


Depois de visitar e ficar impressionada com o Toynbee Hall, centro de assistência social em Londres batizada, a propósito, com o nome do tio do Dr. Toynbee, ela decidiu fundar um centro semelhante em seu país de origem. A maioria das pessoas que vivem em torno da Hull House em Chicago era de imigrantes carentes.


Com a ajuda de Addams e seus associados, esses imigrantes estabeleceram as bases de sua nova vida nos Estados Unidos. Os jovens inspirados por ela se tornaram a primeira geração de cientistas sociais e assistentes sociais.


Contato humano

O ex-presidente indonésio Abdurrahman Wahid (1940–2009) alertou sobre ser levado por concepções de conflito que são muitas vezes rumores criados pela sociedade. Ele negou a inevitabilidade de confrontos entre civilizações e enfatizou que o maior desafio é superar nossos mal-entendidos e preconceitos em relação aos outros.5


Em nosso diálogo, ele expressou repetidamente sua ideia sobre a importância da amizade. Ele citou sua própria experiência de estudar no exterior e manifestou enorme esperança pelo efeito de tais intercâmbios nos jovens.


Em 1996, fundei o Instituto Toda para a Paz Global e Pesquisa Política para perpetuar o legado de Josei Toda e sua visão de cidadania global e de um mundo livre das armas nucleares. O estudioso da paz, de origem iraniana, Dr. Majid Tehranian (1937–2012), meu amigo de longa data, nos honrou como primeiro diretor do instituto.


 Reencontro do presidente Ikeda com Prof. Dr. Majid Tehranian (ao centro). O presidente da Associação pela Paz de Sydney também participa do diálogo (à direita do Dr. Tehranian) (Japão, maio 1999)

Incontáveis vidas humanas

O mundo não é simplesmente um conjunto de Estados, nem é composto apenas por religiões e civilizações. Nosso mundo vivo é formado pela soma de empreendimentos de incontáveis seres humanos, que compartilham experiências particulares, mas que são diferentes entre si.


O campo magnético da amizade aciona uma bússola interior quando perdemos nosso senso de direção. Ele nos ajuda a criar uma sociedade justa quando ela parece se desviar do seu curso.


Este é o raciocínio inerente às ações consistentes e ativas da SGI para incentivar os intercâmbios da sociedade civil, especialmente entre os jovens, promovendo os encontros de vida a vida dos quais a amizade genuína floresce.


Estou convencido de que a amizade entre os jovens reverterá poderosamente as correntes manchadas da divisão e dará origem a uma vibrante cultura de paz baseada no profundo respeito pela diversidade.


Fonte: Terceira Civilização, ed. 585, 13 maio 2017
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Notas:

1. Departamento de Informação Pública das Nações Unidas, 244 Million International Migrants Living Abroad Worldwide [Número de Migrantes Internacionais Chega a cerca de 244 Milhões]

2. (tradução de) Ikeda, Sekai no shidosha to kataru [Recordações de Meus Encontros com Grandes Personalidades], p. 72.

3. Ibidem, p. 67.

4. Toynbee, Acquaintances [Conhecidos], p. 248-249.

5. Ikeda e Wahid, The Wisdom of Tolerance [A Sabedoria da Tolerância], p. 105.

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