Thiago de Mello, o guardião da Amazônia
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Thiago de Mello, o guardião da Amazônia

A destruição da natureza é a própria destruição da vida humana

Aqueles que lutam contra a opressão são dignos de confiança. Eu respeito quem cumpre sua promessa às pessoas diante das perseguições e mesmo ante ao confinamento. Uma pessoa assim veio me ver um dia, trazendo a brisa da verdejante Amazônia.

— Por favor, não pense em mim como um grande literato – disse ele.

— Sou filho da floresta. Sou filho do rio e do vento.

Suas palavras fluíam com a cadência rítmica do grande rio.

Amadeu Thiago de Mello, o guardião da Amazônia, é poeta. Ser poeta é ter o coração de criança, livre das máculas do mundo. É outro nome para uma pessoa que batalhou durante anos contra a contaminação do espírito que chamamos de civilização moderna.

Thiago de Mello continua a defender a “casa da vida”, a grande Floresta Amazônica. Suas armas: a pena e a voz. Ele continua a educar os jovens e a trabalhar pelas pessoas usando seus conhecimentos de medicina.

Diz Thiago de Mello: “Os povos indígenas da Amazônia podem não saber soletrar a palavra ‘utopia’, mas é entre eles que podemos encontrar uma sociedade de belo amor fraternal e democrática. Eles vivem em íntima harmonia com a natureza, são amigos do Sol e seguem as conversas das estrelas”.

Quem são os civilizados e quem são os bárbaros? Os “bárbaros cultos” continuam com sua cobiça a saquear e a destruir a natureza até os dias de hoje.

Sim, somos filhos da natureza, nascidos dela e nela. A destruição da natureza é a destruição da própria raiz da existência humana; isso também corrói e destrói a riqueza verdejante, a humanidade e os próprios destruidores.


Sua história

Ele estudou medicina, e pelo contato com os pacientes pobres, aprendeu muito mais sobre a cruel realidade da vida deles. Thiago não podia permanecer calado. O poeta amava demais as pessoas para se manter impassível. “Aquele que acredita no amor deve decidir que caminho seguir. Tomará o caminho do bem, ou ficará calado e será um cúmplice da injustiça?” Ele escreveu poemas inflamados denunciando a injustiça social. Conduziu greves, motivo pelo qual foi preso. Mas se recusou a desistir. Thiago estava determinado a lutar, e lutou com todas as suas forças.

Sua mãe sempre lhe dizia: “Faça o que tiver de fazer, contanto que ajude os outros”.

As palavras de Thiago de Mello não são meros exercícios retóricos vazios. Elas são o som das ondas do amor pela humanidade que se agigantam, o som do bramir dos ventos das orações fervorosas de um homem unido com a natureza. Acredito que, se a Amazônia falasse, sua voz seria a de Thiago de Mello. Se os milhões de indígenas que foram massacrados pudessem empunhar uma pena, escreveriam como Thiago escreve.

O poeta brasileiro viveu muitos anos no exílio, incluindo o Chile. Seu amigo, o presidente chileno Salvador Allende, que lhe deu as boas-vindas, foi assassinado num golpe militar e pouco depois Thiago de Mello quase foi morto por um soldado rebelde chileno. Com o cano da arma apontado para ele, Thiago não ficou apenas tomado pelo medo, mas também pelo ódio. “Será que as forças do mal derrotarão a justiça? Será que todas as esperanças se foram?” Naquele momento, sua força vital emergiu do seu interior para lhe responder: “Não, você deve viver! Esta não é sua hora de morrer. Sobreviva! Aja! E leve esperança às pessoas uma vez mais”.


Um homem determinado

Após períodos de exílio na Alemanha, na França e em Portugal, ele retornou à sua terra natal e ao seu povoado na Amazônia. Retornou ao vasto mar da floresta tropical, ao povoado dos vaga-lumes. Retornou para os dias de sua juventude.

Décadas haviam se passado desde que ele estivera lá pela última vez. O poderoso rio Amazonas lhe falava sobre a terrível destruição que tomara conta do lugar naqueles meses e anos.

Quando Thiago de Mello discursou nas Escola Soka de Kansai no Japão, ele disse aos estudantes: “Hoje, quase 800 milhões de crianças e adultos são ameaçados pela fome. Centenas de milhões de pessoas não sabem ler. Quero que cada um de vocês tenha a consciência de como é afortunado”.

O poeta me disse: “Que futuro aguarda o mundo? Acredito que o crucial para cada um é conduzir sua missão na vida. Esta é a chave para salvar o mundo”. Ele quase parecia falar a si próprio ao proferir essas palavras. Era a voz de um homem determinado a ver o amanhecer do século pelo respeito à dignidade da vida.


Fonte:
Brasil Seikyo, ed. 2433, 25 ago. 2018, p. A3
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