Um espelho que reflete a vida como ela é
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Um espelho que reflete a vida como ela é

O que se torna visível nesse espelho cristalino é a vida

Trecho do escrito [de Nichiren Daishonin] — O Objeto de Devoção para Observar a Mente


“Observar a mente” significa contemplar a própria vida e nela encontrar os dez mundos.1 Esse é o significado de observar a mente. Por exemplo, embora possamos enxergar os seis órgãos dos sentidos2 nas outras pessoas, não conseguimos ver os nossos próprios. Somente quando olhamos num espelho limpo conseguimos ver, pela primeira vez, que possuímos todos os seis órgãos dos sentidos. De maneira semelhante, vários sutras mencionam num trecho ou outro os seis caminhos e os quatro nobres mundos3 [que constituem os dez mundos]; no entanto, somente no espelho cristalino do Sutra do Lótus e da obra Grande Concentração e Discernimento,4 do grande mestre Tiantai,5 é que podemos ver em nós próprios os dez mundos, os cem mundos, os mil fatores e os três mil mundos num único momento da vida.6


Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda, primeiro e segundo presidentes da Soka Gakkai, sublinharam essa passagem, respectivamente, em seu exemplar do Gosho, os escritos de Nichiren Daishonin.


O ponto central do Budismo de Daishonin, o budismo do povo, consiste em revelar a dignidade inerente aos seres humanos e expor uma forma de prática acessível a qualquer pessoa e habilitar a todas, sem exceção, a perceber o potencial infinitamente precioso que cada uma possui.


A dimensão interna da vida

O Gohonzon inscrito por Nichiren Daishonin compõe a essência do budismo do povo, o ensinamento que capacita as pessoas a atingir o estado de buda, com base no princípio de que abraçar a fé na Lei Mística constitui, em si, observar a mente. Isso é explicado claramente no escrito O Objeto de Devoção para Observar a Mente,7 de Nichiren Daishonin: “‘Observar a mente’ significa contemplar a própria vida e nela encontrar os dez mundos”.


A visão do budismo é voltada para a dimensão interna da vida, analisando profundamente a verdadeira natureza da existência humana, e por isso é denominado “caminho interior”. Assim, podemos observar a mente e examinar o próprio eu, de modo que possa compreender a essência do seu ser.


Embora possamos perceber a aparência dos outros, não conseguimos ver a nossa a menos que utilizemos um espelho. No entanto, um espelho não nos mostra o que reside dentro de nós. É por essa razão que, para “observar a mente”, necessitamos de um “espelho limpo” que reflita nossa vida com exatidão pela sabedoria do buda. O Sutra do Lótus e o tratado Grande Concentração e Discernimento, de Tiantai [estudioso do budismo], são esse espelho, afirma Daishonin nesse trecho.


O que se torna visível nesse espelho cristalino é a vida de cada um que está se empenhando e lutando fervorosamente para alcançar a felicidade neste mundo saha8 infestado de sofrimentos de nascimento, envelhecimento, doença e morte. Esse espelho mostra também que a vida de cada pessoa expressa o princípio da “possessão mútua dos dez mundos”.9


Manifestar a “possessão mútua dos dez mundos

Todos, sem exceção, manifestam o princípio da “possessão mútua dos dez mundos”. Se adotarmos essa verdade como paradigma ao interagirmos com os outros, jamais passará pela nossa cabeça abandonar alguém ou negar a humanidade de qualquer pessoa. Essencialmente, todas as pessoas são merecedoras de respeito; cada indivíduo é precioso e insubstituível.


O poeta americano Walt Whitman (1819–1892) conclamou a esse “indivíduo”: “Toda teoria do universo refere-se impreterivelmente a uma única pessoa – ou seja, a ti”.10 Seja quem for, é um ser humano nobre e precioso. Esse é o ponto central para o qual converge todo o universo, declara o poeta.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.420, 19 maio 2018, pág. B2
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Notas:

1. “Dez mundos”: Classificação de diferentes estados de vida, que forma a base da visão do budismo sobre a vida. São eles: (1) mundo do inferno, (2) mundo dos espíritos famintos, (3) mundo dos animais, (4) mundo dos asura, (5) mundo dos seres humanos, (6) mundo dos seres celestiais, (7) mundo dos ouvintes da voz, (8) mundo dos que despertaram para a causa, (9) mundo dos bodisatvas, e (10) mundo dos budas.

2. Seis órgãos dos sentidos: Também denominados seis órgãos sensoriais. Olhos, orelhas, nariz, língua, corpo e mente. O contato entre os seis órgãos e seus seis correspondentes objetos originam as seis consciências — visão, audição, olfato, paladar, tato e pensamento.

3. Os seis caminhos e os quatro nobres mundos: Os seis primeiros dos dez mundos — mundo do inferno, mundo dos espíritos famintos, mundos dos animais, mundo dos asura, mundo dos seres humanos e mundo dos seres celestiais — são conhecidos como os seis caminhos. Os quatro restantes — mundo dos ouvintes da voz, mundo dos que despertaram para a causa, mundo dos bodisatvas e mundo dos budas — são conhecidos como os quatro nobres mundos.

4. Grande Concentração e Discernimento: Uma das três principais obras de Tiantai, esclarece a doutrina dos “três mil mundos num único momento da vida”, baseada no Sutra do Lótus, e elucida o método de meditação para se observar a mente e perceber este princípio dentro de si mesmo.

5. Tiantai (538–597): Também conhecido como grande mestre Tiantai ou Zhiyi, foi o fundador da escola Tiantai na China. Suas preleções foram compiladas em obras como Profundo Significado do Sutra do Lótus, Palavras e Frases do Sutra do Lótus e Grande Concentração e Discernimento. Na última obra, um registro de preleções feito por ele, Tiantai apresenta a doutrina dos “três mil mundos num único momento da vida”.

6. Os cem mundos e os mil fatores são princípios componentes dos “três mil mundos num único momento da vida”, um sistema filosófico estabelecido por Tiantai com base no Sutra do L

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