Viver é aprender continuamente
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Viver é aprender continuamente

Discurso do presidente Ikeda adaptado de um ensaio compilado no livro Kokoro no Shiki (Estações do Coração), publicado em japonês em maio de 1993.

Referindo-se à vida da pintora americana Vovó Moses (1860–1961), cuja vocação artística floresceu no estágio final de sua vida, ou terceira idade, o presidente Ikeda nos encoraja a evidenciar o brilho de uma criatividade cada vez maior à medida que envelhecermos e a viver nossos últimos anos com o esplendor da glória da esfuziante folhagem do outono.

A pintora americana Vovó Moses é conhecida por suas belas e nostálgicas cenas campestres e por seu caráter franco e de fácil convívio. Ela começou a pintar com uma idade consideravelmente avançada, ilustrando o ditado “nunca é tarde para aprender”, e prosseguiu até falecer aos 101 anos. Durante esse período, produziu 1.500 obras incríveis, representativas do gênero conhecido como “arte naïf”.

A conclusão de sua autobiografia, Grandma Moses: My Life’s History (Vovó Moses: A História de Minha Vida), a revela como uma verdadeira mestra também na arte de viver: “Olho para trás e analiso a minha vida como um bom dia de trabalho: tarefa cumprida e me sinto satisfeita. Fui feliz e realizada… E a vida é o que fazemos dela, sempre foi, sempre será”.1

Como a maioria sabe, Vovó Moses era uma simples mulher do campo. Ela nasceu na zona rural, no interior dos Estados Unidos, em 1860, e desde a infância ajudava nos trabalhos da fazenda. Aos 12 anos, trabalhava como doméstica residente em casas de família, cozinhando, cuidando dos afazeres do lar e dos doentes. Nunca cursou mais do que o ensino fundamental. Casou-se com 27 anos e continuou trabalhando incansavelmente.

Teve dez filhos, dos quais cinco morreram na infância. Os outros cresceram, casaram-se e foram trabalhar na própria fazenda. Seu marido, Thomas, morreu de ataque do coração quando ela tinha 66 anos. Ela começou a pintar depois dos 75.

Muitas de suas lindas recordações estão expressas em sua arte, um trenó vermelho puxado por cavalos passando por uma estrada coberta de neve, os campos verdes da primavera, belos vales entre as colinas, pessoas fazendo xarope de bordo. Recriou na tela, em pequenas pinceladas, as memórias de tempos que se foram.


Sua vida havia sido dedicada ao trabalho exaustivo de cuidar de uma família numerosa e tocar uma fazenda. Como ela conseguiu despertar para um empreendimento totalmente novo em seus últimos anos?

O fato é que ela não despertou repentinamente, mas sempre esteve desperta para sua criatividade.

Ela fazia manteiga e vendia no empório local. O produto era bom e as pessoas apreciavam. Então, pôde aumentar o preço e expandir suas vendas, constituindo um negócio considerável. Mais tarde passou a produzir e também vender batatas fritas.

São suas as palavras: “É claro que tinha problemas, mas eu, não dava bola para eles, tentava ensinar a mim mesma a esquecê-los, e que, de qualquer forma, no fim tudo acabaria dando certo”·

Ela viveu, ou melhor, lutou arduamente a cada momento, fazendo-o brilhar. Habilmente desempenhou suas tarefas domésticas sem insatisfação ou reclamação, apreciando-as ao máximo. Ao mesmo tempo, não se restringiu àquele papel, mas também preencheu cada dia dando expressão à sua atividade criativa única.


Como pintora, Vovó Moses era totalmente autodidata. Ainda mais surpreendente é o fato de que, apesar da idade avançada com que começou a pintar, seu trabalho se aprimorou continuamente. O fato de ter produzido 1.500 telas em um pouco mais de duas décadas é, em si, uma grande façanha. Suas obras, que assinalaram uma nova era na arte naïf, floresceram dos esforços diários que havia feito até então. Buscando um novo caminho quando estava quase chegando aos 80 anos, começou a pintar, permitindo que as asas de sua criatividade a levassem para onde quisessem ir e, assim, sentiu o sabor maravilhoso da satisfação e do contentamento.

Acredito que todos nós possuímos essas asas da criatividade. Elas não estão limitadas ao campo das artes. Com essas asas, também é possível alçar voo na vida cotidiana ou na comunidade. Essa é a lição que a vida de Vovó Moses nos ensina.


As pessoas, cuja criatividade resplandece com mais intensidade à medida que os anos passam, nunca envelhecem, pois elas se conservam ativas na vida.

Vida significa aprender enquanto estiver vivo. E a vida sempre é aquilo que fazemos dela, como disse Vovó Moses. Seu exemplo nos mostra que nunca somos velhos demais para recomeçar e que não necessitamos de uma educação formal para fazer isso.

Percebo nela um raro espírito de autodisciplina e autoconfiança. Por meio da autodisciplina desenvolvemos autoconfiança. Sem dúvida, esse é o segredo para poder desempenhar papel ativo na vida até o fim.



Notas:

1. MOSES, Grandma. My Life’s History. Otto Kallir. (Ed.). Nova York: Harper and Brothers, Publishers, 1952. p. 140.


Fonte: Brasil Seikyo, ed. 2.298, 07 nov. 2015, p. B3

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