A arte de expressar a vida
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A arte de expressar a vida

Angélica Torres é arte educadora social e pratica o budismo há 20 anos. Numa entrevista emocionante ao SeikyoPost ela revela que, por meio da prática budista, transformou completamente a forma de perceber a vida e hoje, motiva as pessoas a fazerem o mesmo.


Como iniciou a prática do Budismo de Nichiren Daishonin?

Conheci o budismo aos 12 anos. Na época, passava por problemas por ter sido vítima de racismo em sala de aula (uma professora me chamou de lixo) . Este episódio foi extremamente doloroso para mim. Então, entrei em depressão profunda até tentar o suicídio. Uma vizinha nos apresentou o budismo, ensinando o Nam-myoho-renge-kyo e nos acompanhando nas atividades da BSGI. Ao sentir o humanismo contido naquela reunião e assistir uma apresentação artística, meu coração se iluminou, pois sabia que estava no lugar certo.


Qual foi o maior desafio que venceu por meio do budismo?

Quando resgatei minha irmã embaixo de uma ponte em São Paulo, marginalizada e lutando contra o vício das drogas, entendi que tudo que eu havia passado anteriormente, estava me preparando para aquele momento. Compreender as circunstâncias sem me vitimizar me fez descobrir o senso de missão nas profundezas do sofrimento.



Angélica na Associação de Concertos Min-On, durante a visita que fez ao Japão em 2015

Como exerce seu papel na sociedade como mulher e artista da Soka Gakkai?

Como mulher artista, arte educadora e negra eu entendo que se há um problema com as mulheres sendo sub representadas, violentadas ou invisibilidadas, eu consciente deste fato, não posso calar minha voz. A mulher é, sim, na sociedade atual, um ser que se atreve ao mergulho no mar fecundo das criações. E quando ela se inclina no mundo das artes com propriedade, consegue dar formas, nuances e sopro de vida às sensações que deseja exprimir. As mulheres Soka se dedicam à construção de uma sociedade igualitária e pacífica. Compreender essa realidade com minha própria vida e da vida de mulheres valorosas é gratificante. Só a nossa organização nos proporciona esse treinamento.


De que forma aplica a prática budista em seu trabalho?

Minha principal atividade hoje é realizar oficinas de arte e educação para jovens, mulheres e crianças. Utilizo a arte como construção não só no exercício laborioso, mas também, no moldar as emoções e impressões de tudo o que nos rodeia. Nesse contexto, abordo temas relacionados ao nosso dia a dia (racismo, violência contra mulher, intolerância, dignidade da vida, empoderamento, entre outros). O que procuro revelar nos alunos é o espírito de jamais sucumbir diante das dificuldades, e que por meio do empoderamento feminino, por exemplo, alguém tenha passado por obstáculos e dificuldades pode dar chance a novos aspectos e criar uma conexão profunda com a vida das outras pessoas.


Você acredita que a arte é um instrumento que desenvolve o ser humano?

O poder de se expressar é inerente no ser humano. Muitas habilidades artísticas adquiridas foram aprimoradas através do estudo e principalmente experiência diária. Em minha vida, a pintura, a fotografia, o contar histórias vieram deste olhar e desta observação. Estar com as pessoas é essencial para desenvolver humanidade. Em essência, todas as pessoas possuem a arte de revolucionar o seu estado de vida interior e mudar o seu ambiente e seu destino.



Angélica é arte educadora e nas aulas, motiva as crianças a evidenciarem seu potencial
 Você se sente realizada?

Dentro deste contexto da insatisfação que motiva o criar, sinto-me realizada. Numa entrevista, o lendário músico Wayne Shorter disse: ”Observem a humanidade que está ao seu redor, observem a si próprio, os homens, as mulheres e as crianças, participem sempre que possível de trabalhos na sociedade e na comunidade. Colaborem com outras pessoas no mesmo campo e em diferentes campos. Isolar-se em nome da arte é um retrocesso”. Eu vivo isso em meu campo de atuação.


O que pensa para o futuro?

Se não agirmos no presente, não teremos o futuro que almejamos. Tem um provérbio que diz: “Cave debaixo dos próprios pés e aí encontrará uma fonte”. É o aqui e agora. Empodere-se!


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