A figura feminina tem destaque na história do budismo
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A figura feminina tem destaque na história do budismo

No budismo, a ética de preservar o papel da mulher na iluminação somente teve continuidade com Nichiren Daishonin

Quero iniciar este artigo mencionando duas datas importantes que simbolizam o universo feminino, as mulheres: 8 de março, em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, e 10 de junho, fundação da Divisão Feminina da Soka Gakkai.


O Dia Internacional da Mulher foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1977. A data visa atentar a sociedade para o reconhecimento das conquistas das mulheres com relação aos seus direitos e para a discussão da discriminação e da violência (moral, física e sexual) que sofrem.


Em 1951, o segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, oficializou 10 de junho como o dia da Divisão Feminina. Na ocasião ele disse: “Quero que tenham consciência de que as mulheres que aceitam a Lei Mística são as mais nobres. Doravante, desejo que, junto comigo, lutem para desabrochar as flores da comprovação da prática da Lei Mística pelo futuro” (Brasil Seikyo, ed. 2.326, 4 jun. 2016, p. A3).


Em termos socioculturais, a mulher ocupa na atualidade posições que nem sempre estiveram ao seu alcance. Lembrando que ainda hoje, seja no Ocidente ou no Oriente, o papel da mulher ainda precisa ser discutido junto à igualdade de gênero nos vários campos da sociedade. Isso, sem perder de vista o respeito a cada cultura.


No movimento histórico do budismo, tudo o que é relacionado à figura feminina vem sofrendo mudanças significativas. Assim, desejo, de forma breve, apontar algumas considerações sobre o tema e deixar um convite para que mulheres (e homens também) possam compreender por meio do estudo, o importante destaque que o Budismo Nichiren dá às mulheres na construção de uma sociedade pacífica. Na Soka Gakkai, por exemplo, a Divisão Feminina tem a confiança total do presidente Ikeda, pois é a maior rede solidária feminina do mundo que tem como meta transmitir ao mundo a importância da defesa à dignidade da vida e da paz deste século.


Para contar essa trajetória, quero relatar uma passagem do Sutra do Lótus mostrando a seriedade deste texto em romper com as diferenças de gênero. Em seguida, apontarei um breve recorte do Gosho O inverno nunca falha em se tornar primavera (CEND, p. 559) para demonstrar a sensibilidade e a preocupação de Daishonin com uma seguidora. Ao final no artigo, constam as referências dos escritos da Coletânea dos Ensinamentos de Nichiren Daishonin (CEND) 1 nos quais o Buda escreveu diretamente para suas discípulas. Além disso, cito a visão da SoKa Gakkai com relação às mulheres.


O SUTRA DO LÓTUS ROMPE AS BARREIRAS DE GÊNERO

O Sutra do Lótus ultrapassou as barreiras de gênero e trouxe a mulher para o campo da iluminação. Nichiren Daishonin menciona em seu escrito A Supremacia da Lei que “O Buda prometeu, no Sutra do Lótus, que, para as mulheres, o sutra será como lanterna na escuridão, como um navio para atravessar o mar e como um guardião quando viajarem por lugares perigosos” (CEND, v. I, p. 642). Sobre isso, o presidente Ikeda comenta que “A iluminação das mulheres é um dos temas chaves do Sutra do Lótus”.


Daisaku Ikeda também aponta no livro Sabedoria do Sutra do Lótus os indícios encontrados no sutra de que todos os seres do mundo podem atingir a iluminação. Neste sentido, ele cita a iluminação do Devadatta (que tentou assassinar Shakyamuni) e da menina-dragão. O presidente Ikeda relata o choque causado quando Shakyamuni conta sobre a iluminação da menina-dragão e de Devadatta dizendo que “Por ser mulher, a menina-dragão era discriminada na sociedade; além disso, ela tinha a forma de um animal. Em termo do ethos cultural e social da época, tanto Devadatta como a menina-dragão provavelmente eram considerados como tendo as mais obscuras perspectivas de atingirem o estado de buda. O fato descrito sobre a iluminação da menina-dragão foi um divisor de águas sobre a igualdade entre homens e mulheres e sobre a valorização do budismo em relação à mulher.”


O Mestre afirma ainda que “De um ponto de vista, o debate sobre a filha do rei-dragão no Sutra do Lótus pode ser considerado como um conto que relata como os homens arrogantes foram derrotados pelas mulheres. Nem mesmo Sharihotsu, conhecido como o mais sábio de todos, era páreo para a filha do rei-dragão no tocante a fé. Essa é também uma grandiosa declaração de direitos humanos que refuta, por meio da prova real, as ideias e crenças que discriminam as mulheres”.


GOSHO: MANUAL PARA A FELICIDADE DAS MULHERES

A ética de preservar a iluminação das mulheres teve continuidade com Nichiren Daishonin. Muitos dos importantes escritos foram direcionados às discípulas. Numa sociedade feudal japonesa militarista e machista, Daishonin derrubou os muros dos preconceitos e lutou para o reconhecimento da iluminação das mulheres e na atuação direta da ampla propagação do budismo.


Exemplo: Na carta O inverno nunca falha em se tornar primavera (CEND, p. 559), Daishonin incentiva a monja leiga Myoichi que havia perdido o marido e enfrentava dificuldades para criar os filhos sozinha. O Buda buscou incentivá-la dizendo que mesmo diante de uma adversidade (inverno), se ela mantivesse a fé, infalivelmente o sofrimento seria ultrapassado (primavera). Nesse sentido, ele assegura: “Aqueles que creem no Sutra do Lótus parecem viver no inverno, mas o inverno nunca falha em se tornar primavera” (Ibidem, p. 560).


O Buda finaliza sua carta de forma sensível e incentivadora: “Uma vez que o Sutra do Lótus é o mais nobre de todos os sutras, é possível que nesta existência eu chegue a obter certa influência. Se isso ocorrer, tenha certeza de que cuidarei de seus filhos esteja a senhora viva ou acompanhando tudo debaixo da relva” (Ibidem) e conclui: “Saldarei esta divida de gratidão servindo-lhe na próxima existência, Nam-myoho-renge-kyo, Nam-myoho-renge-kyo” (Ibidem).


MULHERES SOKA: as RAINHAS DA FELICIDADE e o SOL DA ESPERANÇA

Os ideais do Buda Shakyamuni contidos no Sutra do Lótus e ampliados por Nichiren Daishonin frente ao desejo de transformar suas discípulas em mulheres fortes, convictas, determinadas e felizes, continuam até o momento presente enraizados no espírito da Soka Gakkai. Assim, os três grandes mestres (Tsunesaburo Makiguchi, Josei Toda e Daisaku Ikeda) não mediram esforços para incentivar e encorajar as ‘mães do kosen-rufu’.


O presidente Ikeda relembra que Josei Toda “falava com frequência a respeito do papel crucial das mulheres tanto na família como na sociedade. Sua aguçada percepção comprovou ser uma verdade, pois as mulheres são uma grande força na SGI, contribuindo para o seu notável desenvolvimento” (Brasil Seikyo, ed. 1.819, p. B1). Ikeda sensei comenta que “as mulheres que passaram por duras dificuldades são merecedoras das mais belas flores de felicidade. Esta é a lei exposta no budismo e é o caminho para todas as mulheres”.


Durante um diálogo entre o Dr. Daisaku Ikeda e o ex-subsecretário-geral da ONU, Anwarul K. Chawdhury, explicou: “Por possuir o dom de gerar vidas e de cuidá-las no seu desenvolvimento, a mulher é essencialmente pacifista. Ela devota muito mais seus esforços pelo bem da sociedade e das gerações do presente e do futuro. Desse ponto de vista, a mulher é quem sustenta e une a sociedade humana.” (Brasil Seikyo, ed. 1.934, abr. 2008, p. A2).


O nosso mestre salienta que “os países que valorizam as mulheres possuem um nível elevado de cultura. O mesmo é válido para as organizações ou comunidades. Organizações e comunidades altamente cultas são as que valorizam e reconhecem as mulheres. Isto se aplica também aos indivíduos. Aqueles que valorizam e protegem os direitos das mulheres são pessoas de cultura. Os que não fazem isso somente podem ser descritos como incivilizados.”


A Soka Gakkai tem em seu ‘sangue’ a essência do Sutra do Lótus; é uma instituição que presa à dignidade da vida e compreende a importância do papel feminino no século 21. Assim, o Mestre tem carinho e confiança na Divisão Feminina dos Jovens e na Divisão Feminina e comenta que “Na verdade, as mulheres são o sol da família, e um sol que nunca deve se pôr. Por vocês e por todos ao seu redor, espero que os membros da Divisão Feminina tenham vida longa e saudável” (Brasil Seikyo, ed. 1.208, jan. 1993, p. 3).


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Notas:

1. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin V.I: A Recitação dos Capítulos “Meios Apropriados” e “A Extensão da vida” (p. 70) também conhecido como Carta sobre o Período Menstrual; A Essência do Capítulo “Rei dos Remédios” (p. 93); O Daimoku do Sutra do Lótus (p. 147); O Parto tranquilo de uma Criança Afortunada (p. 194); Carta para a Venerável Nichimyo (p. 338); Resposta a Kyo’o (p. 431) enviado à filha pequena de Shijo Kingo; Oração ao Mandala da Lei Mística (p. 433); Resposta à Niiama (p. 487); Carta para o Sacerdote leigo Ichinosawa (p. 550) enviada à esposa de Ichinosawa; O Oferecimento de um Manto sem Forro (p. 557); O Inverno Nunca Falha em se Tornar Primavera (p. 559); Carta para a Monja Leiga de Ko (p. 622); A Supremacia da Lei (p. 640); Manter a Fé no Gohonzon (p. 652); As Barragens da Fé (p. 653); O Arco e a Flecha (p. 686); Carta para Konichi-Bo (p. 695).
Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin V.II: As Ações do Devoto do Sutra do Lótus (p. 21); Oferecimento em Memória dos Ancestrais Falecidos (p. 77); O Aspecto Real do Gohonzon (p. 91); Como Aqueles que Inicialmente Aspiram ao Caminho Podem Atingir o Estado de Buda Por meio do Sutra do Lótus (p. 134); Uma Síntese de “Transferência” e de Outros Capítulos (p. 175); A Frase Essencial (p. 187); O Sutra da Verdadeira Retribuição (p. 193); O Remédio Benéfico para Todos os Males (p. 202); Tambor no Portal do Trovão (p. 213); Prolongar a Vida (p. 220); A Tartaruga de Um Olho e o Tronco Flutuante (p. 223); Significado da Fé (p. 304); O Tesouro de um Filho Dedicado (p. 309); A Doutrina de Atingir o Estado de Buda ma Forma que se Apresenta (p. 320); Os Cavalos Brancos e os Cisnes Brancos

Renato de Freitas Nunes, tem 36 anos, é psicólogo clínico. Na BSGI é responsável pelas 5 divisões da Comunidade Fongaro; RM Ipiranga; Coordenadoria-Geral do Estado de São Paulo; Coordenadoria Norte-Sul. É colaborador do Núcleo de Orientação Social da BSGI (NOS). Pratica o budismo há 32 anos.

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