A sutil delicadeza do rosa
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A sutil delicadeza do rosa

Houve época em que tinha raiva de ter nascido mulher. Por que só eu tinha de ajudar a limpar a casa, arrumar os quartos, lavar a louça do jantar, fazer comida, cuidar dos irmãos menores, pendurar as roupas no varal e recolher depois, colocar a mesa e depois tirar etc. etc. etc.? A divisão de tarefas dentro de uma casa com sete pessoas, duas mulheres — minha mãe e eu — e os homens, me parecia muito desproporcional e injusta. Cheguei a culpar minha mãe por ter deixado os “homens da casa” crescerem achando que isso era absolutamente natural.


Houve época em que, já que nasci mulher, tinha raiva por não ter pelo menos um dos três atributos diferenciais favoráveis dentro da sociedade dos homens: beleza, inteligência ou riqueza. Oh, vida, que azar! Mais uma vez, culpava minha mãe por ela ter feito as escolhas que me levaram a ter essa terrível “desvantagem” para viver neste mundo.

Cresci vendo minha mãe se desdobrando para cuidar dos afazeres da casa, criar cinco filhos, cozinhar, ajudar o meu pai no comércio, lavar, passar, fazer compras, costurar, conversar, cobrar a lição, ir à escola quando era convocada pela diretoria, sorrir, rir... e às vezes, quando depois de um dia cheio, exausta, resolvia se sentar um pouco no sofá, passava alguém bufando, dizendo que estava cansado, e que era ela que tinha uma vida boa.... Algumas vezes, culpei-a por não revidar, por não dizer umas verdades, pela passividade diante desse insulto.


Conforme nos tornamos adultas, nos resignamos um pouco, até por solidariedade, e percebemos que o mundo funciona assim. Entendemos que cruzar os braços, fazer cara feia, não adianta. Temos de ir à luta, principalmente, se for mulher, mais ainda, se não tiver nenhum dos três atributos... Paramos de nos queixar muito, porque por mais injusto que possa ser, de fato somos diferentes deles e concluímos que existem tarefas que realmente nem é bom pedir a eles fazer, pois significa ter trabalho em dobro mais tarde. Não temos a mesma força física dos homens, mas no treinamento recebido desde a tenra idade, aprendemos a ter força de espírito para sobreviver nas mais diversas e duras provações que a vida trouxer. Notamos que, somos melhores em muitas coisas e fazemos várias coisas ao mesmo tempo, temos mais tato e habilidades, ligamos para o esmero, a organização, a limpeza, atentamos a detalhes num campo de visão maior e entendemos melhor o que está no coração.


A mulher é preparada para a “guerra” da vida. Como armas, tem a compaixão, o amor, a empatia, a generosidade, a intuição, a criatividade, a tenacidade, o dom da palavra. Apesar de parecer muito pouco em relação às metralhadoras, mísseis e bombas pelas quais os homens se destroem, é dela a força de acreditar até o último instante, de ter esperança no filho que gerou para o mundo, de não se calar diante das injustiças — nem que apenas por meio de lágrimas. No nosso âmago, o que desejamos é a harmonia, a paz, o belo — o perfeito — não só para nós, para todo o mundo.


Quando o comércio passou a adotar uma referência de cores para diferenciar produtos destinados para meninos e meninas no início do século passado, a cor rosa era para os meninos, pois era considerada forte por ter origem no vermelho, do fogo e da paixão. O azul, uma cor delicada, representava as meninas. Com o passar do tempo, após controvérsias, o rosa definitivamente se consolidou como a cor para as meninas, enquanto o azul é dos meninos. Pensando bem, creio que a associação das cores e seus significados estão corretos hoje. O rosa representa a mulher, em tudo o que ela significa. Por trás de todas as variações de tons rosa, entre os fitilhos, as bonecas, os lacinhos, frufrus, as pulseirinhas, os vestidos, as bolsas, os batons, criamos aquelas que nos sucederão na dura missão de manter e brigar por um mundo mais humano e belo para a posteridade.


Consta nos escritos: “Diz um provérbio popular que ‘um é mãe de dez mil’” (CEND, v. I, p. 135). Que dirá se for “uma”! Que imensurável a extensão de sua influência!


Não sei desde quando, mas minha mãe se tornou grande heroína para mim. Como uma sábia mulher que compreendia seu papel no mundo, dentro de um contexto de época, com maestria, bom humor, paciência e carinho, ela criou a meus irmãos e a mim para nos tornarmos bons seres humanos para o mundo. Neste Dia Internacional da Mulher, no qual o mundo reconhece publicamente o que nos outros 364 dias fica evidente silenciosamente, quero homenageá-la com um delicado arranjo de fitas rosa.

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