Aplausos a Wayne Shorter!
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Aplausos a Wayne Shorter!

São 9h20 de um domingo de sol em São Paulo, SP, e Wayne Shorter está pronto para conversar com alguns representantes do Departamento Artístico (Depart) da BSGI e SeikyoPost. Carinhosamente, uma amiga do jazzista e integrante da Divisão Feminina da BSGI, cedeu seu apartamento para que o encontro acontecesse.

Shorter é espirituoso e disposto, cumprimenta um a um. Estamos diante de um lendário ícone da música, aclamado mundialmente por sua significativa carreira (destaque para o posto no segundo quinteto de Miles Davis em 1960) e repertório de grandes clássicos como o álbum Native Dancer, gravado com Herbie Hancock e Milton Nascimento. Por seu talento no saxofone, Wayne Shorter ganhou, dentre outros prêmios, dez Grammy Awards, a premiação mais importante da indústria fonográfica e não poderia ser diferente.

Sim, estamos diante de um grande saxofonista, compositor, artista. Mas o clima está longe das formalidades. Nos acomodamos na aconchegante sala e como numa reunião de palestra da Soka Gakkai, recitamos gongyo e daimoku juntos. O jazzista, que é associado da SGI-USA, é presenteado com um lenço escrito "Brasil Monarca do Mundo" e se sensibiliza: "Is beautiful!".

A entrevista se inicia e atenciosa, a esposa de Shorter, a brasileira Carolina Shorter, é quem faz boa parte das traduções para o marido.

Como nos palcos, ele inova, inverte a situação e de entrevistado passa a entrevistador. Quer saber como é possível mantermos a originalidade [palavra-chave dessa conversa] no curso da vida. E, antes de nossas respostas, ele dá a própria receita sobre como ser original: "Você precisa saber o que tem em seu coração, respeitar a sua essência. Tudo começa pela busca por originalidade. De repente você pode pensar que seguir um caminho mais curto te levará ao sucesso, mas estará enganado. No fim, aquilo que parecia fácil se torna só mais um. O caminho menos trilhado é o que guarda as mais engrandecedoras surpresas porque você descobre outro "eu" que nem imaginava que existisse. Mas é preciso ter coragem para compreender essas surpresas e criar a própria história sem arrogância".

É a nossa vez de responder e ele se mantém atento, arriscando intervir vez ou outra com algumas palavras em português.

Shorter e Herbie Hancock em encontro com o líder da SGI, Daisaku Ikeda

Mudamos de assunto e ele comenta sobre o diálogo entre o pianista Herbie Hancock, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, e ele publicado em 2013, num livro em japonês [em inglês o título é Discussions on Jazz, Buddhism and Life]. Relembra que numa das conversas, o líder da SGI lhe perguntou como lidava com as questões do ego: "Eu não respondi naquele dia (risos). Fui para casa e pensei, pensei... Cheguei à conclusão de que é preciso interagir. A fama leva as pessoas ao isolamento e isso faz com que sua originalidade se perca. Então, o ego deve nos servir e não o contrário. Mas, isso requer bastante daimoku! Só assim é possível se livrar da arrogância, ter sabedoria e ser honesto consigo mesmo e com os demais".


Então, manter a originalidade é uma forma de tocar o coração das pessoas?

Ao falar sobre uma pessoa, o presidente Ikeda a engrandece, diz que ela é um grande ser humano e conta a respeito dos seus feitos. Ele não faz isso para enaltecer a própria imagem se apoiando no sucesso do outro, mas sim porque é um genuíno humanista e reconhece a dignidade de cada um. Ikeda sensei consegue despertar nas pessoas o seu potencial de líderes e não de seguidoras, pois não há diferenças no universo da fé, nem na unicidade de mestre e discípulo. Você só atinge a vida de alguém num nível mais profundo quando parte de algo original para isso. Então, você passa a se reconhecer no outro. Busque sempre o que tem de mais profundo em sua vida e assim será ouvido.


Shorter conta como lida com a carreira e a prática budista

Certa vez você disse numa entrevista que é necessário que tenhamos simplicidade sem sermos simplistas.

Há uma certa complexidade em ser simples. A simplicidade é o que nos aproxima das pessoas porque parte do coração mas, se não percebemos a sutileza que existe entre ser simples e ser simplistas, apenas somos seguidos e não compreendidos. É o que tem acontecido atualmente. A todo momento a indústria nos bombardeia de diversas formas. A música, por exemplo, está presa num bum, bum, bum, bum. Fico preocupado quando converso com jovens que não conhecem grandes artistas que eternizaram a carreira como Miles Davis ou Elis Regina. Costumo dizer que somos sequestrados no berço pela política do compre isto, vista aquilo, coma, coma! (risos). Precisamos nos sentir livres disso para buscarmos o simples.


Recentemente você escreveu uma carta aos jovens artistas [confira na íntegra no fim do texto] junto com Herbie Hancock em que os direciona a construir um mundo melhor por meio da sua arte. Como reconheceram que esse seria o momento oportuno para tomar tal inciativa?

A esposa, Carolina Shorter, explica o fundo de cena: "Essa carta foi escrita a partir do pedido de uma jovem jornalista e escritora que vivia num dilema por não ter conseguido um emprego que estivesse de acordo com seus ideais. Ela queria um direcionamento de Shorter e do Hancock, mas achou que eles talvez não tivessem tempo para orientá-la".

Shorter complementa: "Acho que tudo aconteceu pela razão mística de estarmos tão conectados com o todo, que nos foi solicitado uma missão como essa. Pensamos: Por que não escrevermos para todos os jovens do mundo sobre essas questões? Foi como se a vida tivesse improvisado e não podíamos perder a oportunidade. Essa carta foi escrita para inspirar os jovens e fazê-los acreditar que tudo pode ser diferente, e que cada um tem um papel fundamental na humanidade. E acima de tudo, para que não se sintam diminuídos diante das dificuldades".


Segundo exposto na carta, "o mundo precisa de mais interações cara a cara". De que forma essas interações podem contribuir para o nosso desenvolvimento como ser humano?

Como artistas Soka temos de ir ao encontro das pessoas. É na interação que acabamos com o preconceito e conhecemos o outro, nos sensibilizamos com suas alegrias e frustrações. Quando você humaniza o próximo e enaltece novas culturas, o preconceito e a intolerância se dissolvem. Estamos presos a muitos paradigmas e coisas irrelevantes, e ao ampliarmos a nossa vida, deixamos para trás tudo o que nos limitava.

Ele faz uma pausa, relembrando a música A Love Supreme de John Coltrane, saxtenorista mais cultuado do jazz, que está no álbum lançado em 1965 [também A Love Supreme], em que ele inova usando a voz além do instrumental, tornando o disco um verdadeiro grito musical na época. Sem hesitar, Shorter vai cantarolando a canção; se alegra. E numa analogia cita: "Coltrane foi original ao mostrar a sua voz e por isso foi ouvido. Nós precisamos utilizar a nossa voz para transformar o mundo. É algo como 'a voz executa o trabalho do Buda'. Propagar o kosen-rufu é dar voz ao budismo em meio à sociedade. Esse é o espirito de fazer shakubuku. Não podemos nos conformar com o sofrimento da humanidade. Temos muito a dizer para o mundo!".


Nesse sentido, é fundamental difundir os ideais da Soka Gakkai no Brasil, no difícil momento de crise, corrupção e convergência em que vivemos.

Sim. O que realmente importa são os nossos esforços, tal como Tsunessaburo Makiguchi, Josei Toda e Daisaku Ikeda nos mostram. Somente com dedicação e coragem podemos criar uma base sólida humanística onde vivemos. Nada pode ser desperdiçado! Cada coisa, por menor que seja, tem uma função. Nossos esforços podem transcender o tempo e criar uma nova história. Estamos no momento perfeito para desenvolvermos a nossa fé porque ter fé é não temer a nada. É o momento de celebrar e não de lamentar.

Já passa das 11h00 e a conversa vai chegando ao fim. Antes, pergunto como ele se sente diante da brilhante jornada que construiu, se tornando uma verdadeira inspiração para as pessoas. Ele pensa um pouco, abre um largo sorriso e diz: "Eu me sinto como uma estrela! Brilhando no mundo e seguindo por uma estrada quase nunca antes trilhada. Sinto que minha vida se abre, abre, e aaaaabre [ele frisa com brilho nos olhos] cada vez mais, como Myoho e preciso retribuir além da sociedade, para com a vida. Acredito que o maior presente que podemos dar à vida é a originalidade".

Shorter, que está no Brasil para apresentações no BrasilJazzFest com Herbie Hancock, diz estar feliz com o diálogo. Agradece a cada um com forte abraço e se despede num "até breve!"; esperamos que assim seja.


Leia na íntegra a "Carta aos Artistas", clicando aqui. E, para saber um pouco mais sobre a carta, SeikyoPost separou uma entrevista com Wayne Shorter que você pode conferir aqui.
Se você quiser saber um pouco mais sobre o Wayne Shorter acesse o site http://www.wayneshorter.com/,  foto da capa feita por: Robert Ascroft

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