Árvores da mamãe
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Árvores da mamãe

Num voo de longas horas, me peguei sem sono. Já tinha dormido e acordado algumas vezes e o destino ainda estava deveras longe.

Procurei o filme japonês que me recomendaram e comecei a assistir. O título me interessava: “Okaasan no Ki” (“árvores da mamãe”, em japonês). Embora, pelo título já imaginasse que meus olhos ficariam inchados, havia tempo  suficiente para me recompor até o desembarque; então arrisquei.

O filme remonta ao drama de uma família humilde do interior do Japão que vive a época das guerras. Uma mãe, viúva, se vê obrigada a enviar um a um os seus seis filhos para a guerra por ordem do governo militarista. Numa época em que era suprema honra servir à nação e ao imperador, inicialmente a mãe festeja junto com os familiares, parentes e moradores da vila a partida de seu filho mais velho, como a coisa mais gloriosa que brindou a família. No dia em que ele parte para cumprir sua convocação, a mãe planta uma muda de árvore e passa a cuidar dela como se fosse o seu filho, dando-lhe o nome dele e, conversando com ele, diariamente, pedindo que retornasse sem falta com vida. E o filme prossegue, intercalando a chegada do encarregado da convocação de outro filho, o plantio de mais uma muda de árvore, e a vinda do mensageiro, portando o comunicado da “digna” morte em combate.

A certa altura, a mãe se nega a ir até a estação para se despedir de mais um filho prestes a partir. Mas, no último momento, ela corre até o filho e agarra-lhe a perna e chora, numa súplica para que ficasse. O filho repreende rigorosamente a mãe pela vergonha que estava sendo para ele, e apenas a observa sendo pisoteada por um guarda, que a prende como traidora do país. Cenas fortes que chocam. Libertada por interpelação de um amigo, ela volta a cuidar de suas árvores, todas com diferentes alturas e nomes, apenas orando com a esperança de rever um dia seus filhos de volta à casa. O infortúnio da perda dos filhos comove as pessoas ao redor até um ponto, mas diante da repetição da tragédia, seres insensíveis cochicham que a mãe se aproveitava para viver do dinheiro  oferecido pelo governo pela morte dos filhos na guerra.

Não conto aqui o final do filme deixando-o a quem se interessar assisti-lo.

Muitas sensações e pensamentos me chacoalharam naquele meu canto privado da aeronave. Pensei nas tantas e intermináveis insanas “guerras” provocadas pelo homem, seja ela num núcleo menor ou as que envolvem o país ou várias nações do mundo. A “loucura” geral que toma conta das pessoas, que turva a visão e o coração numa confusão e inversão de valores. E no fundo desses cenários o que nos marca sempre é a figura da mãe — seja com os ombros encolhidos, tremendo para conter seu grito de dor profunda e inexprimível, ou interpelando aos céus em puro e completo desespero. São imagens que se sobrepõem a todo o momento, porque elas ainda não cessam de se fazer presente. Lembra-me a mãe do presidente Ikeda, a Sra. Ichi, ao receber o comunicado do falecimento de seu filho primogênito nos campos da guerra. Lembra-me também da minha, batendo furiosamente várias vezes o chão com suas mãos, chorando alto, inconformada com a morte de meu irmão, em um assalto no trânsito. Mas quantas vezes, ainda, essas cenas se repetirão?

Diante da dor e do sofrimento da Sra. Ichi, o presidente Ikeda passou a odiar terminantemente a guerra e decidiu devotar sua vida para que nenhuma outra mãe tivesse de passar por isso. Afirma que é do respeito à mãe que nascem a paz e a justiça no coração das pessoas. Construir um mundo de paz e respeito onde todas as mães sejam respeitadas e não tenham de chorar em desespero e angústia por seus filhos. Este é um dos propósitos da SGI e é o que a humanidade anseia mais do que nunca nesta era atual.

Independentemente da época, das diferenças culturais, étnicas, ideológicas ou religiosas, o amor de mãe é universal em amplitude e grandeza. Não importa para ela se o filho é inteligente ou não, se é bem-sucedido ou não, se é forte ou não, por quais causas ele luta. Para uma mãe, filhos não têm idade nem defeitos, o seu mais sincero desejo e oração é que estejam bem e em segurança, que cresçam, sejam felizes, e que voltem sempre que possa. Ela não julga, não mede, apenas o abraça como parte e todo de si mesma e, mesmo tendo vários ou muitos, cada um é parte completa e plena de seu ser, único, insubstituível. Quando cada vez mais pessoas, independentemente de mulheres ou homens, conseguirem cultivar esse amor de mãe pela vida como um todo, certamente o mundo será um lugar melhor para todos.


Okaasan no Ki - Árvores da Mamãe


Mães — seres sublimes que dão à luz o que existe de mais precioso neste universo. Que suas árvores plantadas sejam apenas de felicidade. Que suas árvores sirvam apenas para dar sombra e frescor num dia de sol, flores para alegrar e colorir aos olhos; e muitos frutos, para continuar o eterno e maravilhoso ciclo da vida!

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