Budismo de determinação
  • FAMÍLIA

Budismo de determinação

No romance Nova Revolução Humana, o presidente Ikeda [que utiliza o pseudônimo de Shin’ichi Yamamoto na obra] conta a história de Hiroto Muraki, pioneiro da Soka Gakkai na República Dominicana, que venceu inúmeras dificuldades e se tornou exemplo de vitória por meio da prática budista

Hiroto Muraki chegou em 1957 com sua esposa e alguns parentes. Quando ainda estava no Japão, vendera sua casa, o campo de plantações, os móveis e tudo o que podia ser negociado. Sua decisão era radicar-se definitivamente nas terras dominicanas. (...)

O local do assentamento ficava próximo da fronteira com o Haiti, a 330 quilômetros a noroeste de Santo Domingo, capital da República Dominicana. O terreno que recebeu foi cinco vezes menor do que a área prometida e ficava a mais de cinco quilômetros da colônia de imigrantes. Era uma área de terra vermelha, ressequida e dura como pedra. Ará-la com enxadas parecia uma tarefa impossível.

Após muito esforço, conseguiu arar apenas um terço da área recebida. Entretanto, a primeira plantação não produziu quase nada devido ao intenso calor e à falta de água. Hiroto Muraki só conseguiu colher um pouco de tomate.

Embora existisse um sistema precário de irrigação, a água era racionada e distribuída em horários preestabelecidos. Quando chegava sua vez de receber a água, ele aguardava sem dormir.

Numa dessas ocasiões, a água não chegou. Ele resolveu então seguir pelo canal de irrigação para verificar o que havia acontecido. O vizinho havia desviado o canal para usufruir da água de Hiroto.

Todos estavam numa situação precária, entre a vida e a morte. Não tinham mais condições de cumprir os acordos ou pensar nos outros. Hiroto ficou triste ao saber que o coração de seus companheiros havia ficado tão árido quanto aquelas terras. A disputa por água, que era uma questão de sobrevivência, gerou brigas e conflitos entre vizinhos e parentes.

O arroz que Hiroto trouxera do Japão havia acabado. Cada dia era uma luta pela sobrevivência. Ele sentia um aperto no coração quando via o rosto das duas filhas que nasceram após o casal chegar ao local do assentamento.

Ele pensava seriamente em como manter o sustento da família. Depois de refletir muito, resolveu abrir um pequeno comércio de alimentos, reformando um barraco perto de sua casa. Como sua família era composta na maioria por mulheres  esposa, sogra e cunhada  contaria com a ajuda delas. Começou a vender arroz, sal, açúcar e água potável. Com o lucro que obteve, pôde aliviar, ao menos, a fome dos familiares. Porém, a renda era limitada porque a freguesia era formada apenas por vizinhos.

Hiroto não suportava mais essa vida sem perspectivas promissoras. Além disso, sua outra cunhada morrera durante o parto por falta de assistência médica na região, e os imigrantes de sua vizinhança começavam a retornar ao Japão.

Nessa situação de desesperança, Hiroto escreveu uma carta à sua mãe no Japão, dizendo que pretendia voltar quanto antes, apesar de ter-lhe dito na partida que seria um homem bem-sucedido dentro de dez anos.

Após algum tempo, ele recebeu uma carta com a resposta da mãe. Ela contava-lhe que havia ingressado na Soka Gakkai e que estava praticando o budismo: “O Gohonzon tem um poder extraordinário. Se você recitar também o Nam-myoho-renge-kyo, poderá encontrar o caminho para a felicidade. Por isso, tente mais uma vez, empenhando-se na recitação do daimoku”.

Hiroto não acreditou inicialmente que uma religião pudesse resolver seus problemas e melhorar sua vida. Entretanto, ao reler várias vezes a carta, o sentimento e a preocupação da mãe pela felicidade dele penetraram em seu coração. Além disso, Hiroto não tinha outro meio para mudar o rumo de sua vida.

Começou então a recitar o daimoku sem saber seu significado. Ao orar por dez a vinte minutos, sentiu-se aliviado. Com esse resultado, decidiu empenhar-se com seriedade na recitação do daimoku. Isso aconteceu em 1962.

Depois de algum tempo, a sogra de Hiroto, que sofria de problemas estomacais, também iniciou a prática budista. Porém, em vez de melhorar, as dores tornaram-se mais intensas.

A vizinhança logo comentou que a sogra de Hiroto adoecera por causa de uma religião estranha.

Hiroto indignou-se com isso e escreveu para a mãe, transmitindo-lhe que não praticaria mais o budismo. Depois de alguns dias, recebeu uma carta do irmão que também era praticante: “Sua situação é comparável a um cano que ficou sem ser utilizado por longo tempo. Quando abrir a torneira, ele despejará inicialmente somente água suja com ferrugem. Porém, depois de deixar escorrer a água por algum tempo, toda a sujeira do encanamento terá saído, dando lugar à água limpa. Isso acontece também com nossa vida quando começamos a praticar o budismo. Se persistirmos em nossos esforços, apesar dos obstáculos, com certeza, alcançaremos a vitória”.

Hiroto refletiu sobre as palavras do irmão e continuou a se empenhar na prática. Algum tempo depois, sua sogra já estava com a saúde recuperada e todos da família começaram a recitar o gongyo e o daimoku.

Certo dia, um cavalheiro dominicano apareceu em seu armazém e comprou um refrigerante. Era o prefeito de uma cidade vizinha, que fez uma proposta a Hiroto.

 Você não poderia produzir mudas de arroz em suas terras? As terras da minha cidade são impróprias para esse tipo de cultivo e tenho comprado mudas em outros locais.

Hiroto respondeu que seu maior problema era a falta de água para irrigar sua plantação, e que se resolvesse esse problema poderia aceitar a proposta de trabalho.

O prefeito prometeu que tomaria providências para melhorar o sistema de irrigação e que Hiroto poderia iniciar o trabalho de arar a terra.

Com essa inesperada proposta e com abundância de água para irrigar o solo, Hiroto teve sucesso no cultivo de mudas de arroz, obtendo várias safras por ano. Ele teve de contratar mais de vinte empregados para atender à demanda. Enfim, conseguira ver uma luz no fim do túnel. Era o primeiro benefício da prática da fé.

Com o dinheiro que juntou com a produção de mudas de arroz, ele transferiu-se no final de 1962 para uma região mais populosa onde predominava a produção de arroz. (...)

Hiroto não tinha carro nem carteira de habilitação. Por isso, procurava trabalhar ao máximo para poder alugar um carro com motorista a fim de realizar as atividades juntamente com sua esposa, Isoko, nos fins de semana, viajando às vezes por dias seguidos.

Os japoneses que experimentaram a dura realidade nas colônias de imigrantes reconheceram no sucesso de Hiroto a importância da prática da fé e começaram gradativamente a abraçar o budismo. Ao mesmo tempo, apesar de em meio às adversidades, descobriram um novo significado na vida: “Nós temos a missão de ensinar o budismo às pessoas desta terra a fim de conduzi-las à felicidade. E é justamente para cumprir essa missão que viemos para cá. Por isso, aconteça o que acontecer, jamais seremos derrotados pelas adversidades. Vamos vencer infalivelmente toda e qualquer dificuldade”.

Eles descobriram que tanto a felicidade como a infelicidade são definidas, antes de tudo, no âmago da vida. Isso é chamado no budismo de determinação.

Fonte:

Nova Revolução Humana, v. 11, capítulo “Arando a Terra”, p. 135-140.

TAGS:FAMÍLIA

• comentários •

;