Cada um deve fazer a sua parte
  • ENTREVISTA

Cada um deve fazer a sua parte

Thiago de Mello – o guardião da Amazônia – é um gigante; um ser humano habilidoso na arte de apreender o mundo com sensibilidade e pureza. Basta ler um de seus textos para sentir sua magnitude a cada linha. Aos 90 anos, é um dos escritores mais influentes e respeitados do Brasil e muito de sua obra repercute no mundo inteiro.

Ele aceitou conversar com SeikyoPost durante a passagem por São Paulo para revisar e traduzir a Proposta de Paz – enviada anualmente à Organização das Nações Unidas (ONU) pelo Dr. Daisaku Ikeda –, tarefa que o poeta tem desempenhado com maestria nos últimos 20 anos.

A entrevista é feita numa das salas da sede da Divisão dos Jovens da BSGI, e enquanto nos acomodamos, Thiago distribui abraços.

Na foto, ele dialoga com integrantes da Divisão dos Jovens
 

Auxiliar na tradução e revisão da Proposta por tanto tempo o fez mudar a forma de pensar sobre as questões humanas?

Eu aprendi a me fazer uma pessoa melhor. Descobri imperfeições dentro de mim graças aos profundos conteúdos dos parágrafos escritos nas propostas. Percebi que é sempre possível mudar e viver livre de formas e paradigmas. É preciso fazer a minha parte. Cada um tem que fazer a sua parte. Eu lá na floresta na Amazônia e você podemos transformar muita coisa.


Nota do redator: Em todas as etapas da Proposta, ele esbanja referências e utiliza com sabedoria suas experiências. Apesar da idade que avança, leva tudo com jovialidade e leveza. E, não é de se espantar que goste tanto de receber presentes. O sincero sorriso e o brilho nos olhos são testemunhas disso ao receber os dois pacotes azuis com os livros Astronomia e Budismo e Felicidade carinhosamente escolhidos pela nossa equipe para presenteá-lo.

Dividimos literalmente uma xícara de chá verde e a conversa flui num tom de bate-papo entre amigos. Ele diz que, em especial, a Proposta de Paz deste ano intitulada "Respeito universal pela dignidade humana: o grande caminho da paz" tem profundidade e encanto: "Nessa Proposta, Daisaku Ikeda distingue como em nenhuma outra duas coisas fundamentais: primeiro, o indivíduo e o pensar de cada pessoa – porque o indivíduo pode mudar o mundo. Em seguida, cita o poder dos jovens enfatizando que a juventude é que lidera essa mudança."


Algo mais chamou a sua atenção na Proposta?

A Proposta tem coerência do começo ao fim e Daisaku Ikeda novamente mostra que acredita no ser humano. Muitos podem pensar que isso não é possível ou que é utopia. Mas, veja bem, ou é a utopia ou o apocalipse! Se não tivermos um pouco de utopia não conseguiremos mudar. Estamos perdendo a utopia e, por isso, estamos beirando o caos. Essa Proposta para mim é a mais necessária nesse sentido. O mundo estava aguardando por algo assim.


É possível tornar real esse universo que você denomina utópico? [questiona uma integrante da equipe]

Cada um faz a sua parte. O fotógrafo faz a dele, você faz a sua. Nós aqui trabalhamos em primeiro lugar para fazer o presidente Ikeda falar português como um caboclo da floresta e com isso fazer o seu texto chegar às pessoas. A arte de traduzir é reinventar em outro idioma, outra música, aquilo que já foi dito. A minha parte, a primeira delas é levar o pensamento do presidente Ikeda para o meu universo, para os operários e para as crianças da floresta. É dessa forma que as palavras de um grande erudito saem da utopia e chegam ao mundo real e à vida das pessoas comuns. Agora, façam vocês a sua parte! Falem sobre a Proposta de Paz, falem sobre a vida, falem sobre a importância de cuidar da humanidade.


O poeta explica sobre a responsabilidade de revisar e traduzir as Propostas de Paz do presidente Ikeda 

Nota do redator: Thiago muda de assunto, segura em minhas mãos e saudoso revela particularidades do encontro que teve com Daisaku Ikeda, em 1997, a quem considera um grande amigo: "Quando a gente conversa com o presidente Ikeda e conta uma história, ele ouve com muita atenção e ao final pede: "Conta de novo?". Em nosso encontro, contei para ele que certa noite – quando eu era adolescente e morava na floresta – estava numa canoa no Rio Andirá (pássaro da noite; morcego) e notei que as águas eram tão escuras que as estrelas refletiam mais brilhantes no rio do que lá em cima no céu! Quando terminei a história ele [Daisaku Ikeda] me pediu: "Conta de novo?" (risos).

Vale lembrar que a amizade dos dois titãs ultrapassa duas décadas. Só um poeta como Daisaku Ikeda poderia descrever seu par com tamanha consideração: "Amadeu Thiago de Mello, o guardião da Amazônia, é poeta. Ser poeta é ter o coração de criança, livre das máculas do mundo. É outro nome para uma pessoa que batalhou durante anos contra a contaminação do espírito a que chamamos de civilização moderna". (Terceira Civilização, ed. 395, 1º jul., p. 9)


Como amigo de Daisaku Ikeda, qual é o seu sentimento em trabalhar pela Proposta de Paz, um dos feitos mais importantes do líder?

Sinto que é preciso ser fiel ao trabalho do mestre Ikeda, pois com seus textos ele abre um caminho de luz para as pessoas que o respeitam e o admiram. É preciso ter coerência e fidelidade para aproximar os cidadãos das suas palavras e do seu pensamento. Devemos respeitar o autor e sermos fieis aos seus ideais. É dessa forma que venho trabalhando nessa grandiosa iniciativa.


Nota do redator: Thiago encerra suas palavras questionando o porquê de realizar esse trabalho. E, inspirado, ele mesmo responde: "Porque na fogueira do que faço por amor me queimo inteiro".



Fotos: Italo Yukimaru


Saiba mais sobre a Proposta de Paz

Desde 1983 o presidente Ikeda envia, anualmente, propostas de paz à ONU visando contribuir por uma sociedade global pacífica.

Você pode conferir a Proposta de Paz de 2016 na íntegra na Terceira Civilização, ed. 573. Confira também as demais Propostas na seção Humanismo Ikeda no SeikyoPost, clicando aqui.

TAGS:ENTREVISTA

• comentários •

;