Elsie Tu — heroína defensora do povo
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Elsie Tu — heroína defensora do povo

Impetuosa, dedicou a vida para ajudar os outros

Grande heroína

Há um “bodisatva” que vive em Hong Kong. É uma inglesa de 85 anos. “Moro em Hong Kong há quase cinquenta anos”, diz ela, “e nunca pensei em me mudar. Meu único pensamento nesse tempo todo foi servir ao povo chinês que vive aqui.”


Encontramo-nos pela primeira vez na Biblioteca Pública do Conselho Urbano de Hong Kong, em janeiro de 1974. Elsie Tu (1913–2015)ocupava na ocasião a função de conselheira urbana e, como representante do conselho, expressou sua grande alegria pela doação de 4.500 livros feita pela Soka Gakkai. Ela aparentava ser uma pessoa nobre e generosa. Por trás dos óculos, seus olhos azuis irradiavam bondade. Não conseguia acreditar que aquela senhora elegante e refinada era a famosa conselheira-heroína que dera fim às gangues de Hong Kong e à corrupção na polícia.


Qualquer um ficaria surpreso com suas conquistas. No passado, o suborno e a corrupção eram comuns no país. Barracas de venda de produtos ao ar livre não poderiam funcionar sem dar dinheiro à máfia chinesa e uma parte desse valor extorquido ia parar nas mãos da polícia. Com a colaboração de um amigo, Elsie Tu conseguiu fotografar um bandido recebendo pagamento enquanto a polícia presenciava o fato. Ela publicou a foto nos jornais denunciando a corrupção.


O povo de Hong Kong aplaudiu intensamente suas ações até as mãos ficarem doloridas. Mas o que mais surpreendeu a seus amigos foi a forma como ela arriscou sua vida. Eles a censuraram por ter sido tão impetuosa e imprudente para ajudar as pessoas e lhe disseram que, se não fosse estrangeira, já estaria morta.


Respeitar a todos igualmente

Ela não saiu completamente ilesa, pois seus inimigos tramaram um plano para arruinar sua reputação. A certa altura, durante um período de instabilidade em Hong Kong nos anos 1960, foi acusada de instigar manifestações contra o governo. Na realidade, ocorrera exatamente o contrário: ela havia tentado persuadir um grupo de jovens a não se exacerbarem. Alguns a chamam de estranha estrangeira, por se importar mais com os chineses do que eles próprios.


Elsie Tu nasceu numa cidade mineira no norte da Inglaterra em 1913. Seu pai era condutor de bonde, que ganhava apenas o suficiente para sustentar a família. Eles viviam perto de um subúrbio pobre da cidade, porém o chefe da família era uma pessoa extremamente rica de espírito. Certa vez, o pai lhe disse que por uma questão de sorte ela nascera num país relativamente rico como a Inglaterra e pôde desfrutar uma vida livre da fome e receber educação. Ele a aconselhava também a jamais desprezar os pobres e respeitar a todos igualmente.


Depois de se formar na faculdade, ela trabalhou como professora em escolas dos níveis fundamental e médio. E se tornara fervorosa cristã na faculdade porque tinha um forte desejo de ajudar os outros. Quando estava com 35 anos, partiu para a China como missionária junto com o primeiro marido. Um ou dois anos após o estabelecimento da República Popular da China, Elsie Tu mudou-se para Hong Kong e gradativamente começou a direcionar seus esforços no trabalho missionário para a educação e o serviço social.


Tratar as crianças com amor

A primeira coisa que fez ao chegar a Hong Kong foi erguer uma tenda entre os barracos de madeira nos subúrbios pobres. Ali começou a ensinar cerca de trinta crianças. Dificilmente alguém diria que aquilo era uma escola. Ela usava o salário que recebia lecionando em outros estabelecimentos de ensino para cuidar de seus alunos na tenda-escola — que hoje é a famosa Escola Inglesa Mu Kuang, com 1.400 estudantes. Apesar de ser supervisora da escola, ela ainda continua a lecionar. A educação, diz Elsie Tu, não é uma arte refinada. Consiste em tratar as crianças com amor e carinho e motivá-las para que se interessem em estudar por si sós.


Ela não concorda em dizer às crianças o que não devem fazer. Descobriu que isso só estimula a vontade de fazer o que é proibido, como fumar e usar drogas. O importante é ter uma atitude positiva ao conversar com as crianças para dar-lhes esperança e motivação. Por esse motivo, Elsie Tu deposita grandes esperanças nas atividades da SGI.


Eu a convidei a visitar o Japão no outono do mesmo ano em que nos encontramos pela primeira vez (1974). Lembro-me com afeto de nossos diálogos sobre sua preocupação com os jovens. Ela visitou a Universidade Soka e as escolas Soka durante sua estada aqui.


Observar sorrisos de felicidade

Elsie Tu é uma mulher humilde, e por isso não fala de suas dificuldades, mas qualquer um pode imaginar os problemas e as adversidades que teve de superar durante os anos em que defendia o povo. Todos os dias ela caminhava pelas vielas populosas dos subúrbios pobres de Hong Kong para ouvir o que as pessoas tinham a dizer. Não queria nada para si; não temia a nada. Seu único desejo era ver o sorriso de felicidade no rosto das pessoas.


“Presidente Ikeda”, disse-me, ela em dezembro de 1983 quando gentilmente participou do Festival Cultural da SGI de Hong Kong, “quanto mais me ocupo, mais saudável fico”. Disse-lhe que sabia muito bem a que se referia e que isso se devia a suas ações estarem embasadas em seu forte senso de missão. “Isso é verdade”, respondeu ela. “Adoecemos quando não temos o que fazer. É bom estarmos ocupados em algo que seja útil aos outros,” disse com um radiante sorriso, revelando os dentes alvos.


Perfeito exemplo

Quando ela cortou a fita junto comigo na inauguração da exposição Desenhos das Crianças do Mundo em Hong Kong, sete anos depois, em fevereiro de 1991, seus olhos continuavam brilhantes e luminosos como sempre. Ela não mostrava sinais de envelhecimento. Enquanto observava os desenhos expressivos das crianças, tão puros e belos, comentou que somente os adultos vão para a guerra. Não há guerra no coração das crianças. Ela também disse que os desenhos a fizeram questionar sobre qual legado poderíamos deixar para essa nova geração.


O pai de Elsie Tu foi exposto a gás venenoso durante a Primeira Guerra Mundial. Desde criança, ela possui uma firme crença na paz. Elsie Tu não possui filhos, mas diz que todos os seus alunos são seus filhos.


As crianças observam tudo. O povo também observa tudo. Parece fácil enganar as pessoas. Mas, no longo prazo, é impossível enganar aqueles que vivem honesta e decentemente. São exatamente essas pessoas que louvam Elsie Tu como “A Consciência de Hong Kong” e a “Mãe dos Direitos Civis de Hong Kong”.


Sua vida é um perfeito exemplo da lição que ela tem ensinado a seus alunos durante anos: “Se você deseja encontrar a felicidade, faça o bem. A vida é uma rua de mão única e sem retorno. Portanto, se existe algo que pode fazer pelos outros, dê um passo à frente e seja voluntário. Se perder essa oportunidade, estará deixando escapar sua chance de ser feliz”.


Fonte: 
Brasil Seikyo, ed. 2.419, 12 maio 2018, p. A3
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