"Este é mesmo o século das mulheres!”
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"Este é mesmo o século das mulheres!”

Em entrevista ao SeikyoPost, Víviam fala sobre a prática budista, suas iniciativas e expectativas. Confira!

Espirituosa, Víviam caminha pelas ruas do Pelourinho, em Salvador, BA, durante a sessão de fotos, distribuindo sorrisos e simpatia. Entre um clique e outro, interage com a equipe do BS e conta sobre o seu primeiro contato com a prática budista: “Quando mainha decidiu praticar o Budismo de Nichiren Daishonin eu tinha 4 anos. Ela levava meu irmão, Jáder, e eu para as atividades. Enfrentávamos dificuldade de locomoção — aspecto que já foi totalmente revolucionado e há pelo menos vinte e seis anos cedemos nossa casa para as reuniões budistas.


Cresci em meio à cultura humanista da Soka Gakkai, tendo os direcionamentos de Ikeda sensei como bússola”.


SeikyoPost: Então, o humanismo Soka fez parte do seu processo de autoaprimoramento?


Víviam Caroline:

Os valores que aprendi com minha família e a consciência social adquirida na Soka Gakkai foram fundamentais na construção do meu caminho pessoal, profissional e como mulher. O papel da mulher Soka é traduzido por Ikeda sensei de forma brilhante e encorajadora. A mulher, para mim, não tem a submissão como característica; ela é o sol, a parte mais importante, a grande mola que faz a organização avançar.


O Sutra do Lótus ensina que homens e mulheres são igualmente nobres e dignos de respeito, pois o Buda instruiu bons homens e boas mulheres para que propagassem a Lei em seu lugar após a sua morte.


SP: O presidente Ikeda cita que o humanismo budista é capaz de sanar questões sociais como a desigualdade. De que forma?


Víviam: A realidade de gênero na sociedade brasileira — ocidental portanto — apresenta resquícios de machismo ainda significativos. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, o rendimento médio mensal das mulheres ainda é menor que o dos homens.

Entre 1980 e 2010, segundo o Mapa da Violência 2012, produzido pela Flacso, foram assassinadas no país mais de 92 mil mulheres. Diante disso, precisamos ir além da indignação. A postura correta dos praticantes do budismo Soka é pensar como o Gohonzon é fundamental na transformação da vida das mulheres.


SP: Quais os desafios enfrentados nessa jornada de mudanças?


Víviam: A manifestação de aspectos do meu próprio destino às vezes reflete no meu trabalho e preciso travar verdadeiras batalhas internas. Lidar com arte muitas vezes também é lidar com vaidade, inveja, injustiças. Luto por justiça. Diante dos obstáculos, sigo orando ciente de que o sol da minha vida iluminará o ambiente, evidenciando minha dignidade. Com essa postura, resgatei relações desgastadas e conquistei o respeito das pessoas.


SP: Nesse sentido, seus projetos ajudam a difundir a cultura Soka?

Víviam: Eu me esforço para isso. Sou jornalista, militante do Projeto Social Didá, percussionista na Didá Banda Feminina, cantora do Grupo Águas de Sambas e gestora de algumas ações com foco sociocultural diretamente ligadas ao desenvolvimento da mulher. Em 2016, concluí o mestrado com o projeto Quilombo de Tambores, e agora me preparo para fazer doutorado com uma tese que comprove a eficiência do Tambor como tecnologia de ressignificação do corpo feminino.


Essas ações me deram alguma notoriedade e sou frequentemente convidada a realizar palestras dentro e fora do país. O mais importante é manter o humanismo budista vivo no coração sem se intimidar. Sou mulher, negra, baiana e budista. Qual o problema? Estamos no século 21 e há muito sabíamos que este seria o nosso século. Sabíamos justamente porque o presidente Ikeda sempre sinalizou essa transformação. Este é mesmo o século das mulheres.


SP: O presidente Ikeda se refere ao século 21 como o “século das mulheres”. Como essa expectativa está inserida em seu trabalho?


Víviam: Muitos dos direcionamentos do Mestre têm focado justamente em nosso engajamento social. Quem somos nós além da organização? Que leitura fazemos da sociedade e até que ponto nos sentimos responsáveis por essa mudança tão necessária?


No Projeto Didá, do qual faço parte, lidamos diariamente com jovens mulheres, meninas que mal saíram da infância e já sofrem com os estereótipos, são vítimas da violência pelo namorado ou são obcecadas pelo desejo gritante de se tornarem celebridades; vítimas do resquício de escravização ainda tão latente na cultura brasileira.


Acredito que as mulheres da Gakkai precisam refletir até que ponto essas questões sociais e midiáticas interferem em seu modo de pensar e agir. Por exemplo, de que forma vivem seus relacionamentos, ou que tipo de relacionamento tem com o próprio corpo e quais são seus propósitos.


Somos treinadas na Gakkai para fazer a diferença e isso significa que nos lapidamos para ser verdadeiramente felizes. Naturalmente esse discernimento só acontece com base no daimoku, que nos faz abandonar o transitório e revelar nossa condição de buda.


Enquanto brilharmos como o sol da Gakkai, devemos iluminar nossa vida e a das mulheres que precisam conhecer o budismo.

SP:Qual é a mensagem do budismo para época atual?


Víviam: “Não deve haver discriminação entre os que propagam os cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo nos Últimos Dias da Lei, homens ou mulheres”. Essas palavras de Nichiren Daishonin indicam que a missão e a prática dos bodisatvas da terra — que se esforçam para conduzir a humanidade à genuína felicidade com base na Lei Mística — estão baseadas numa visão da humanidade e do mundo em que homens e mulheres são iguais, isto é, uma filosofia de igualdade de gênero.


Vivemos uma nova era em que os rótulos já não nos cabem, os formatos familiares vêm sendo mudados, paradigmas vêm sendo quebrados. De forma corajosa, devemos evidenciar nossa realidade, avançar e vencer sem falta encorajando todos ao nosso redor.


Fonte: 
Brasil Seikyo, ed. 2.441, 27 out. 2018, p. A4
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