Eu sabia que poderia ir além
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Eu sabia que poderia ir além

Cíntia Macedo, tem 42 anos, é engenheira ambiental e engenheira de segurança do trabalho. Faz parte da RM Jundiaí, CMSP. Pratica o budismo há 39 anos.

Cíntia no CCCamp em São Paulo, em 2015

Nota do redator: São Paulo amanheceu sob chuva intensa. Passava do meio-dia e o Sol apareceu, ainda encoberto pelas nuvens, iluminando o horizonte do Centro Cultural Campestre da BSGI. Cíntia chegou ao local animada e posou para as fotos em meio aos lótus, que exibem as grandes folhas verdes nesta época do ano enquanto as flores não brotam. Espontânea, a engenheira ambiental identifica as espécies das folhagens que estão ao redor da equipe, mexe nos galhos, e à vontade, chega perto das flores para sentir o seu perfume. Assim, começamos a conversa.


Quando teve o primeiro contato com o budismo?

Foi por meio da minha mãe. Eu me lembro que quando era pequena ia para as atividades junto com ela. Ouvia as pessoas conversando e de vez em quando, brincava com alguma criança que aparecia também.


Você teve uma infância feliz?

Na verdade, a infância foi bem difícil para mim. Aos 5 anos sofria abuso sexual e ninguém sabia. A agressora era uma prima paterna, o que fez com que eu me isolasse completamente. No colégio não conseguia me concentrar nas lições e era alvo de gozação. Eu fazia desenhos coloridos nos cadernos para facilitar o meu aprendizado. Cheguei a fazer parte de uma classe com crianças portadoras de deficiência mental. Em casa, levava quase 4 horas para fazer o gongyo, mas não pensava em desistir.


Ingressar na banda Nova Era Kotekitai (NEK) a ajudou a se manter confiante?

Com as meninas da banda senti que tudo podia ser diferente! Era o meu porto seguro e até hoje guardo o carinho que recebi. Lia as orientações do presidente Ikeda e recitava daimoku [Nam-myoho-renge-kyo]. Isso me dava forças para continuar. Foi nesse período que fiz uma conexão direta com Ikeda sensei, passei a considerá-lo como um pai e isso me confortava completamente.


Cíntia vive uma nova fase de grandes realizações em 2016
Cíntia se mostra carinhosa com a filha, Rubi. A garota, que faz parte da NEK como Pompomtai [grupo infantil da banda], há pouco mais de 1 ano também foi diagnosticada com dislexia. A mãe não se intimida: "Ela é maravilhosa e tenho certeza de que será uma grande pessoa. E eu me sinto absolutamente preparada para ajudá-la", diz.

Voltamos a conversar sobre as dificuldades que teve por conta do distúrbio e ela se emociona ao relembrar que superou até mesmo a depressão que se manifestou em decorrência disso.


Como foi essa fase?

Eu fiquei ainda mais reclusa devido às más experiências que tive. O pior momento foi na fase adulta quando, mais uma vez entre tantas, fui ridicularizada por uma companheira de trabalho. Ainda não sabia, mas estava com depressão há muito tempo. Em paralelo, descobri que tinha dislexia e o distúrbio foi diagnosticada na Associação Brasileira de Dislexia (ABD) quando eu tinha 35 anos. E decorrente disso, era hiperativa.


Foi aí que você decidiu dar a volta por cima?

Sim. Eu não tinha outra opção que não fosse vencer! Determinei viver pela verdade e justiça, e o primeiro passo foi em casa. Revelei para minha família que sofria abuso sexual na infância e fui apoiada. O segundo passo foi sair da depressão e não ser vencida pela dislexia. Eu me tornei mais forte e fui para a faculdade cursar engenharia ambiental. Os médicos não conseguem entender como concluí um curso superior, mas eu sei! Tenho os budas das dez direções me protegendo e um mestre da vida que não me abandona nunca.


Você seguiu em frente em sua carreia profissional?

Segui porque amo o que faço! Eu me fortaleço com a prática budista a cada dia. Recito daimoku com a determinação de que a dislexia não me limita. Hoje, trabalho em uma multinacional francesa e sou gerente de meio ambiente e segurança do trabalho. Também sou coordenadora do curso técnico em segurança do trabalho no Institudo Técnico de Barueri. Em 2010, terminei a pós-graduação em engenharia de segurança do trabalho. E em 2013, concluí a licenciatura em química, além da pos-graduação em docência do ensino superior. Também faço mestrado à distância numa instituição espanhola voltado para mediação de conflitos. Sou muito feliz por ter conseguido ir tão longe.


Tem planos para o futuro?

Vou concluir o mestrado e seguir aplicando os ensinamentos do budismo os ideais da Soka Gakkai em tudo o que faço. Essa é a minha grande motivação. Nunca desisti, mesmo quando as pessoas diziam que eu não conseguiria. Jamais decepcionaria meu mestre. Eu recito daimoku determinada a vencer! Sei que a revolução humana acontece todos os dias e não será diferente em tudo o que está por vir. Estou confiante.


*Entrevista com base no BS, ed. 2.268, 21 mar. 2015, p. A4

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