Fazer da vida uma arte
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Fazer da vida uma arte

Os últimos anos da vida de Nightingale foram os mais belos e ricos, os quais descreveu como o melhor período de sua vida

Discurso do presidente Ikeda adaptado da série de ensaios “Florence Nightingale – Em Tributo ao Século das Mulheres”, publicada em japonês em março de 2002. 

Retratando os anos finais de Florence Nightingale (1820–1910), a fundadora da enfermagem moderna, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, descreve um modo de vida grandioso em que se mantém a chama de nossa missão com radiância até o fim.


Nightingale declarou às suas formandas: “Eu tentarei aprender todos os dias até o último momento de minha vida… Quando não puder mais aprender cuidando dos outros, aprenderei sendo cuidada, observando as enfermeiras praticando em mim”.1 Ela foi fiel a essas palavras por toda a sua vida.


Por volta dos 40 anos, quando fundou a Escola Nightingale de Treinamento de Enfermeiras, sua saúde estava passando por um sério declínio. Sofria de constantes dores de cabeça, náusea e ataques de asma. Falar durante muito tempo a exauria. Muitos temiam que pudesse morrer muito jovem, e ela, de fato, enfrentou várias crises de saúde. Porém, ela nunca interrompeu suas atividades, repelia a doença dizendo: “Estou tão ocupada que não tenho tempo para morrer”.2


Mesmo que não pudesse se deslocar de um lugar para o outro livremente, podia escrever, e mantinha um suprimento de lápis e canetas em sua cabeceira. Ela produziu um grande número de artigos e documentos estatísticos e também mais de 12 mil cartas. Seu médico a aconselhou a parar de escrever, mas isso a estimulou a escrever ainda mais: “Eles dizem que não devo escrever cartas. Então, escreverei mais ainda”.3 Também declarou: “Se eu perdesse o relatório [isto é, se não conseguisse concluí-lo], o que eu ganharia com a saúde que deveria ter ‘poupado’?”.4 Essas palavras ilustram a firme convicção que permeou toda a sua vida. A força de Nightingale provinha da chama ardente do propósito de vida ao qual se entregara irrestritamente.


Com o tempo, a visão de Nightingale começou a falhar, ainda assim declarou: “Não, não, mil vezes não. Não estou ficando apática”.5 Com 80 e poucos anos, ficou cega. Apesar disso, não se desesperou, continuou em frente com o espírito de que ainda tinha ouvidos para ouvir e boca para falar. Ela surpreendia seus visitantes por estar sempre bem informada e atualizada.


As escrituras budistas nos ensinam que, mesmo que percamos as mãos, temos os nossos pés; se perdermos os pés, temos nossos olhos; se perdermos nossos olhos, temos nossa voz; e mesmo que percamos nossa voz, temos nossa vida.6 Com essa determinação, devemos propagar o budismo enquanto vivermos — é o espírito de um verdadeiro budista.


Mesmo quando estava em seu leito de morte, Shakyamuni pregou a Lei para um asceta que veio vê-lo; ele o converteu e o acolheu como o último discípulo de sua vida.7


Meu mestre, o segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, costumava dizer que só se podia definir se uma vida era feliz ou infeliz em seus anos finais. Os últimos anos da vida de Nightingale foram os mais belos e ricos, os quais descreveu como o melhor período de sua vida. Nenhuma mulher foi tão amada e estimada como ela naquela época. Diziam que as pessoas se alegravam à simples menção de seu nome, e muitas mulheres declaravam que queriam ser como ela. Pessoas vinham de toda a Grã-Bretanha e do mundo inteiro em busca de seus conselhos. Membros da realeza e líderes políticos concorriam para encontrá-la, mas se recusava a receber qualquer pessoa que não tivesse interesse na enfermagem.


Ela prezava os jovens, dizendo: “Tudo que eu mais quero é ver sucessores”.8 Recebia centenas de cartas de moças que queriam ser enfermeira e respondia a maioria delas. Buscou e desafiou até o fim fazer aquilo que precisava ser feito, plantando as sementes do futuro: “Fazer da vida uma arte!… Essa é a arte mais bela de todas as belas artes”.9 E foi exatamente assim que Nightingale viveu.


Em 13 de agosto de 1910, sua vida de verdadeira “artífice” chegou serenamente ao fim com 90 anos e era o quinquagésimo aniversário de fundação de sua escola. Conforme seu desejo, teve um funeral simples.


Nightingale via a morte como o começo de um novo ciclo de “imensa atividade”.10 Nichiren Daishonin declara: “Passando pelos ciclos de nascimento e morte, a pessoa abre seu caminho na terra da natureza do Darma, ou iluminação, que reside inerentemente em seu interior”. Aqueles que têm fé na Lei Mística avançam com alegria, tanto na vida como na morte, na grande terra de sua natureza intrinsecamente iluminada — em outras palavras, a terra do estado de buda.


A vida é eterna. Por essa razão, é essencial erigir um estado de vida absolutamente indestrutível — de eternidade, felicidade, verdadeiro eu e pureza — nesta existência. Para tanto, necessitamos de uma fé correta e, igualmente fundamentais são as ações justas e sinceras pelo bem de outros. As pessoas que devotam a vida ao kosen-rufu conseguem trilhar o caminho da eterna felicidade, desfrutando da mais elevada alegria.


Fonte: 
Brasil Seikyo, ed. 2.298, 7 nov. 2015, p. B2
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Notas:


1. MCDONALD, Lynn. Florence Nightingale: The Nightingale School. Ontário, Canadá: Wilfrid Laurier University Press, 2009. p. 761-62.
2. Atualmente, Faculdade Nightingale de Enfermagem e Obstetrícia da King’s College, Londres.
3. COPE, Zachary. Florence Nightingale and the Doctors. Filadélfia: J. B. Lippincot Company, 1958. p. 37.
4. WOODHAM-SMITH, Cecil. Florence Nightingale. Londres: Constable and Company, Ltd., 1951. p. 387.
5. Ibidem, p. 300.
6. Ibidem, p. 589.
7. Sutra Coleção de Histórias de Nascimento relativas à Prática dos Seis Paramitas e Tratado sobre Grande Perfeição e Sabedoria, de Nagarjuna.
8. Maha Parinibbana Suttanta (Pali Nirvana Sutra). In: Dialogues of the Buddha. Tradução de T. W. E C. A. F. Rhys Davids. Oxford: The Pali Society, 1995, parte 2, p. 149-169.
9. WOODHAM-SMITH, Cecil. Florence Nightingale, p. 585-586.
10. COOK, Edward. The Life of Florence Nightingale. Londres: Macmillan and Co., Ltd., v. 2, p. 430, 1913.

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