O estresse é o “tempero da vida”
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O estresse é o “tempero da vida”

Neste texto extraído e adaptado do livro Ser Humano — Essência da Ética, da Medicina e da Espiritualidade (p. 115-117), dois dos autores, Daisaku Ikeda e Guy Bourgeault, abordam como podemos conduzir uma vida de valor em meio ao estresse

Bourgeault: (...) Uma das contribuições mais importantes do Dr. Selye1 foi lançar luz sobre os aspectos positivos do estresse. Ele argumentava que o estresse em si não é uma doença nem necessariamente conduz à doença. O estresse pode nos impulsionar a exercitarmos a criatividade e extrair a vitalidade ou a energia que precisamos para nos defender das ameaças externas.

Ikeda: Certa vez, o Dr. Selye descreveu o estresse como “o tempero da vida”. É preciso realmente estar livre das preocupações seculares para poder considerar o estresse sob esse ângulo. É saudável, e até mesmo necessário, esquecer as pressões do trabalho e sair para um drinque com amigos, cantar em um karaokê ou relaxar com outras formas de lazer. No entanto, o fundamental é reunirmos nossas forças internas o suficiente para transformar o estresse num “tempero” e aprender a desfrutá-lo de maneira criativa.

Bourgeault: O mundo dos seres humanos certamente não é uma utopia de paz e justiça universais. Pelo contrário, o que impera são injustiças, discórdias e conflitos. Precisamos aprender a conviver com essa dolorosa realidade.

Ikeda: Tive vários diálogos com o renomado biólogo francês René Dubos e ele me disse que, embora seja prazeroso imaginar um mundo livre de preocupações, estresse e tensão, tal mundo não é nada mais do que o sonho impossível de um indolente. Acrescentou que os seres humanos crescem quando enfrentam adversidades. É assim que o nosso espírito age — este é o destino da humanidade. O que o senhor acabou de dizer me fez lembrar das palavras do Dr. Dubos.

A maneira mais eficaz para lidarmos com o estresse é empreender constantes esforços no sentido de cultivar nossa mente e forjar nossa personalidade mesmo diante do perigo.

(...)

Ikeda: Baseado em sua própria experiência de luta contra o câncer, o Dr. Selye recomenda o seguinte para criar um estilo de vida construtivo: (1) Como o ressentimento e a ira diminuem nossa resistência em favor do estresse, transforme esses sentimentos em respeito e compreensão; (2) estabeleça objetivos para a sua própria vida; e (3) viva em prol das pessoas, pois, fazendo assim, você beneficiará a si mesmo.

O modo de vida que o Dr. Selye propõe é exatamente o que é chamado de caminho do bodisatva no budismo. Os bodisatvas vivem pela paz da humanidade e por uma sociedade justa e correta. Ao agirem desse modo, eles transformam suas indignações em benevolência e controlam a avareza com sabedoria. Desfrutam a vida fazendo do estresse o tempero de sua vitalidade. Uma passagem do Sutra do Lótus diz: “Árvores adornadas com pedras preciosas e abundantes em flores e frutos no local onde os seres vivos desfrutam tranquilidade”.2

Bourgeault: Qualidades tais como vitalidade, autocontrole, criatividade, sabedoria e perseverança são essenciais para a concretização da justiça e da paz.

E insisto em dizer que é impossível evitar totalmente as guerras e eliminar de vez as injustiças. Mas podemos mudar o status quo; na verdade, esse é o nosso dever. No mínimo, devemos melhorar a realidade deste mundo.

Ikeda: Concordo plenamente.

Bourgeault: A Soka Gakkai Internacional (SGI) vem trabalhando há anos em colaboração com as principais agências das Nações Unidas, inclusive a Unesco. Como presidente da SGI, o senhor abraça o sentimento expresso na introdução da Carta da Unesco: “Como as guerras começam na mente do homem, é na mente do homem que as defesas da paz devem ser construídas”. Construir paz e justiça dia após dia requer a mobilização de energias de autodefesa, criatividade e uma inventividade clara e apaixonada. Com frequência, o efeito dos movimentos espirituais que se proliferam atualmente, seja essa ou não a intenção, é desmobilizar e eliminar responsabilidades. Sem dúvida, conforme já mencionei, injustiças e guerras são inevitáveis. Elas existem e gritam para nós dos nossos aparelhos de televisão. Porém, temos a capacidade de mudar esses fatos. É nossa responsabilidade fazer isso ou, pelo menos, nos dedicar a esse propósito.

Ikeda: É verdade. O meio para se alcançar uma paz duradoura é tornar nossa mente uma inabalável fortaleza de paz mesmo sob as piores circunstâncias. Tenho a convicção de que esse é o caminho para se construir a “segurança humana” defendida pelas Nações Unidas.

Notas:

1. Dr. Hans Selye (1907–1982) é ex-diretor do Instituto de Medicina Experimental da Universidade de Montreal, no Canadá. Tornou-se mundialmente conhecido por sua pesquisa sobre o estresse no campo da medicina.

2. The Lotus Sutra (O Sutra do Lótus). Trad. Burton Watson. Nova York: Columbia University Press, 1993, p. 230.

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