Pascual e Ángela Olivera – mestres da dança flamenca
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Pascual e Ángela Olivera – mestres da dança flamenca

Quando menino, Pascual convenceu seus pais a deixá-lo ir para a Espanha, onde começou a estudar dança

Quando Ángela del Moral conheceu Pascual Olivera, ela não tinha trinta anos e já era uma das maiores dançarinas da Espanha.


Mas nem tudo ia bem. Uma dançarina da companhia em que atuava estava tornando sua vida insuportável, na tentativa de ocupar sua posição como primeira bailarina. Ángela aconselhou-se com Pascual, que acabara de conhecer. Ouvindo-o falar sinceramente sobre a alegria da prática budista, decidiu confiar nele.


Contudo, o conselho de Pascual deixou-a surpresa. Ele disse: “Ángela, você precisa enfrentar esse problema de outra maneira. Em outras palavras, você precisa orar pela felicidade de sua colega.”


Enquanto ouvia Pascual, Ángela percebeu o coração genuinamente belo que ele possuía. Pascual continuou: “Não seria maravilhoso se vocês se tornassem amigas? Você pode transformar o veneno em remédio por meio de sua oração. Tente e verá que isso é verdade.”


Ela começou a recitar daimoku, repetindo para si: “Eu gosto dela. Quero que ela seja feliz.” O sentimento de Ángela deve ter tocado o coração da outra dançarina, pois ela, aos poucos, deixou de mostrar-se antipática e, com o tempo, tornou-se uma de suas grandes amigas.


Revelando a natureza de buda em nossa vida

Cinco anos depois, em 1976, Ángela e Pascual se casaram. Ele era norte-americano e se dedicava profissionalmente à dança em seu próprio país, e Ángela concordou em mudar-se para viver com ele. Logo depois, foram convidados a se apresentar em um centro de detenção juvenil. Ángela hesitou. Na verdade, ela foi contra. Aos 19 anos, fora especialmente escolhida para viajar aos Estados Unidos e apresentar-se na cerimônia de posse do presidente John F. Kennedy. Ela havia se apresentado diante da rainha Elizabeth, em Londres e participado de turnês pelo exterior muitas vezes e aparecido em filmes e programas de televisão.


Quando Ángela expressou esses sentimentos a Pascual, a resposta foi uma síntese de sua essência como ser humano: “Ángela, nossa missão é mostrar a todos o poder da natureza de buda brotando da nossa vida.”


“Sim, mas...” Ela ainda não estava convencida.


“Essa é uma instituição que auxilia esses jovens a reformarem-se, não é? Por isso devemos ir. Nossa dança pode tocar o coração deles. Se esses jovens se comoverem com nossa apresentação, eles mudarão! Acredito que somos capazes disso. Esse é um desafio que precisamos aceitar.”


Assim, Ángela concordou.


É importante acumular boas causas

O centro de detenção era fortemente vigiado por carcereiros e possuía uma atmosfera intimidadora. A preocupação de Ángela aumentou. Como ela temia, o público era agitado e disperso. Mesmo apreensiva, começou a recitar daimoku sinceramente em seu coração e disse para si mesma: “Não tema! Cumpra sua missão!” Pascual também fez o máximo, e durante o breve intervalo entre as apresentações, ele falava ao público sobre sua própria experiência de vida.


De forma alguma havia sido uma vida fácil. Seus pais eram pobres imigrantes espanhóis. Seu avô tocava guitarra flamenca. Quando era menino, Pascual convenceu seus pais a deixá-lo ir para a Espanha a fim de cursar o ensino médio, e lá começou a estudar dança. Após retornar aos Estados Unidos, uniu-se à famosa Companhia de Dança José Greco, chegando a ser um de seus principais dançarinos.


Entretanto, em 1970, Pascual foi acometido de uma grave doença hepática, e seus médicos disseram-lhe que jamais dançaria novamente. De fato, deram-lhe apenas dez anos de vida. Pascual ficou atônito. Fazia anos que praticava o Budismo de Nichiren Daishonin, mas esse seu encontro face a face com a morte fez com que ele se voltasse para a sua fé com mais seriedade.


Nos últimos anos, ele dizia com frequência: “Você pode ter muito dinheiro no banco, ou ser homenageado ou ficar famoso, mas ao morrer, não poderá levar nada disso consigo. As únicas coisas que o acompanharão serão os tesouros do coração. Não quero ir para a minha próxima vida de bolsos vazios. Por isso, é importante acumular boas causas, momento a momento, dia após dia. Precisamos fazer o bem aos outros continuamente.”


“Continue”

A apresentação no centro de detenção continuava, e a seriedade e o comprometimento dos dançarinos acabou cativando o público. Os espectadores estavam em silêncio. Pascual a Ángela comoveram os jovens, falando-lhes com todo o seu ser: “Levantem-se! Tenham um sonho. Acreditem em vocês mesmos. Vocês têm uma missão que é só sua e de ninguém mais. Por isso nasceram. Bem em seu íntimo, vocês são seres humanos maravilhosos!” No passado, Pascual também havia perdido a autoconfiança e tinha uma imagem negativa de si próprio.


A comovente apresentação chegara ao final. Enquanto Pascual retomava a respiração, perguntou, num tom gentil, se alguém tinha alguma questão. Um mar de mãos se levantou. Um jovem alto e forte gritou: “Eu quero dizer uma coisa!”


“Continue”, respondeu Pascual. O jovem levantou-se e disse emocionado: “Em toda a minha vida, jamais conheci pessoas tão boas e maravilhosas como vocês. Se todos fossem assim, acredito que eu não estaria aqui hoje.”


Minha chance chegou!

Em 1995, foi diagnosticado que Ángela estava com artrite reumática. A certa altura, os sintomas chegaram a ser tão graves que ela mal conseguia caminhar. Ela recitou intensamente daimoku e submeteu-se a um tratamento de reabilitação. Tempos depois, sua médica ficou perplexa. Como era possível que ela estivesse dançando quando a maioria das pessoas naquelas condições sequer poderiam se mover?


Ángela disse: “Ainda tenho reumatismo, mas consigo controlá-lo completamente. Aprendi a lidar com minha doença. Pois é, o reumatismo e eu somos amigos.” Ela teve sucesso em transformar sua doença em uma oportunidade: “Isso não é um infortúnio”, insiste, “é a chance de me tornar mais forte. É um presente, um benefício”.


Quanto mais obstáculos enfrentamos, mais corajosa e alegremente devemos lutar para superá-los, com um espírito dinâmico e dançante. Esse é um privilégio dos budistas. Qual a fonte dessa alegria? No [escrito] Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente, consta: “Uma pessoa dança de alegria quando compreende que os elementos do corpo e da mente são a Lei Maravilhosa.”¹


Cenário subconsciente

Pascual disse certa vez a seus companheiros do Departamento de Artistas: “Todos nós somos atores desempenhando a obra da vida. Somos nós que criamos o cenário e interpretamos o roteiro de nossa própria vida — não é o destino, a sorte, tampouco as entidades divinas que definem esse roteiro. Nós próprios o escrevemos e nele atuamos. Isso é o que o budismo ensina. E dessa forma, temos o poder de mudar nossa vida!


“Mas o problema é que, mesmo que oremos e nos esforcemos, no nível mais inconsciente estamos dizendo algo diferente. Por exemplo, conscientemente oramos: ‘Quero ser aprovado nesta audição ou, quero melhorar meu relacionamento com as pessoas.’ Mas, nas profundezas de nossa mente, dizemos: ‘Eu não sou bom o suficiente. Sou muito gordo, muito baixo. Sou incapaz de fazer isso.’


“Embora oremos para superar uma doença, podemos pensar, no fundo do nosso coração, que jamais nos recuperaremos. É isso o que eu quero dizer por escrever um roteiro diferente. A realidade move-se na direção desse cenário subconsciente. Por isso, é muito importante apagarmos todos esses cenários negativos de nossa mente.”


Fonte:
Terceira Civilização,
ed. 440, 1 abr. 2005, p. 36
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Notas:

1. Gosho Zenshu, p. 722.

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