Pelo direito de ser quem sou
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Pelo direito de ser quem sou

Victor quer, por meio da comunicação, levar autoconfiança para pessoas com autismo e transformar positivamente a vida delas

Vindo de Belo Horizonte, MG, Vctor Mendonça chegou à redação da Editora Brasil Seikyo acompanhado da mãe, Selma.

É aniversário do estudante e ele não sabe que preparamos uma surpresa. Carismático, vai se apresentando às pessoas, conta um pouco da sua história e logo de cara ganha muitos admiradores.

Aos 11 anos, Victor foi diagnosticado com a Síndrome de Asperger, um Transtorno do Espectro Autista (TEA) que afeta, principalmente, a área da comunicação, da interação social e do comportamento. E, junto com o autismo, desenvolveu transtorno de humor e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Victor e sua mãe, Selma

Não importa. O jovem, hoje com vinte anos, fez da deficiência a aliada para dar vida aos seus muitos sonhos. "Estou no quinto período do curso de jornalismo na faculdade e com isso, pude trabalhar a minha maior dificuldade – a socialização", cita.

Victor é daquelas pessoas que valem a pena conhecer. Pouco a pouco vamos descobrindo suas habilidades e a boa conversa se desenrola na redação.

Na hora do Parabéns à Você, a mãe se emociona. Servimos bolo e aplaudimos tudo aquilo com entusiasmo. "A Gakkai é realmente uma família. Hoje é um dia especial, inesquecível", ele complementa.


Você diz que o budismo lhe trouxe autoconhecimento. Em que momento isso passou a ser percebido no seu cotidiano?

Foi quando conquistei amizades sólidas e sinceras. O budismo me transformou completamente. Nasceu em mim, por isso, o desejo de compartilhar minhas vivências com mais e mais pessoas – algo que amplia, de forma imensurável, os benefícios em nossa vida.

A prática me permitiu falar com as pessoas sobre minhas diferenças e estabelecer um diálogo de aprendizado mútuo. Passei a ser o senhor da minha mente e essa sem dúvida, é a minha maior vitória.


Então embasar suas ações na prática budista o auxilia a viver com o autismo?

O daimoku me põe num estado de vida tão elevado que até mesmo consigo controlar minhas crises. É como se fosse o meu caminho de volta para o equilíbrio.

O budismo me ajudou a não temer o futuro e a vencer todas as armadilhas do meu próprio cérebro. Comprovo todos os dias que o autismo não é sentença de morte, é sentença de vida!


Quão desafiador foi entrar na faculdade?

Por ter me esforçado bastante, eu consegui. Eu tinha o objetivo de passar no vestibular numa instituição em Belo Horizonte referência no curso de jornalismo. Recitei daimoku determinado a conseguir e me dediquei nos estudos. Fiz a prova e fui aceito de primeira!

Com o presidente Ikeda, aprendi que desafios devem ser enfrentados com alegria, pois são grandes oportunidades de desenvolvimento.


Nesse processo, a escrita se tornou uma ferramenta indispensável para Victor. Ele conta que no início escrevia para se expressar, mas depois gostou tanto que não parou mais. Então, em 2015 publica seu primeiro livro: Outro Olhar – Reflexões de um Autista. "Nele abordo vários conceitos budistas vividos no meu cotidiano."


Recentemente, você publicou o segundo livro. Como tem sido a sua aceitação?

Em 2015, Victor publicou o segundo livro Danielle, Asperger

É um romance. Chama-se Danielle, Asperger e tem sido um sucesso, surpreendendo mesmo àqueles que diziam que seria difícil emplacar uma obra sobre autismo com história ficcional.

Sempre penso que minha fala deve fazer diferença na vida de quem me lê ou me assiste, de maneira positiva. E quando tenho um retorno positivo das pessoas sinto que estou cumprindo meu papel de bodisatva comunicador.


Foi com essa meta que criou seu canal na internet?

Sim. Criei o Mundo Asperger e nele, ao lado da minha mãe, falo sobre minhas vivências sendo autista. Deu tão certo que a agência Vilarejo Comunicação se ofereceu para investir em nosso trabalho, ampliando nossa atuação profissional. Os vídeos que já eram bem produzidos ficaram ainda melhores!

O jovem e a mãe tem, no Youtube, o canal Mundo Asperger

Não tenho muita noção do quanto minha mensagem se espalha, então, tento ser o mais verdadeiro possível ao mostrar que o mundo do autismo pode ser fascinante porque o ser humano por si só é fascinante. E quando superam desafios, por menores que sejam, as pessoas se tornam melhores.


Victor também escreve para a Revista Estrada da Serra sobre cinema e televisão, e para a Revista Inclusive.com, traçando o cenário cultural de Belo Horizonte. Além disso faz palestras para contar suas experiências. "Enxergo isso como oportunidades que me trazem enorme alegria. Todas essas ações me surpreenderam pela repercussão e pelos comentários emocionados de espectadores e leitores sobre como eu levo esperança para eles", diz.


Outro Olhar é o primeiro livro de autoria de Victor

E, por falar em esperança, quais serão os seus próximos passos?

Tenho grandes sonhos pela frente. Acredito que são os sonhos que me movem. Mas, acima de tudo, quero sempre inspirar outras pessoas. Com daimoku despertei para minha missão e agora eu só posso seguir em frente espalhando esperança por onde eu passar.


Nos despedimos relembrando da entrevista que o escritor concedeu ao renomado Jô Soares, na TV Globo, e da recente homenagem que recebeu em sua cidade:

"Fui agraciado com o Grande Colar do Mérito Legislativo Municipal de Belo Horizonte, a maior honraria concedida pelo poder legislativo municipal. Eu só tenho a agradecer por ter encontrado o budismo e ter um grandioso mestre da vida", conclui.



Quer saber mais?

Toda a sexta-feira no canal do Youtube Mundo Asperger Victor e Selma falam sobre o autismo por meio de uma análise bem-humorada.

O relato do Victor Mendonça saiu no jornal Brasil Seikyo, edição 2.362, p.A4.

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